Treinamentos aumentam tensões entre Brasil e Paraguai

RIO DE JANEIRO ¿ As tensões entre Brasil e Paraguai, já bem elevadas por causa das ocupações de terras de fazendas controladas por brasileiros dentro do Paraguai, foi intensificada nessa semana depois que o exército do Brasil começou a treinar na região da fronteira.

The New York Times |

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O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, respondeu severamente, advertindo o Brasil em uma coletiva de imprensa em Assunção, capital do Paraguai, que nem um milímetro do domínio territorial do país poderá ser perturbado. Se isso acontecer, ele acrescentou, a reação paraguaia será imediata.

Nesta semana, a televisão paraguaia mostrou as tropas armadas brasileiras ocupando a Ponte da Amizade que separa as áreas da Ciudad Del Este. Foi uma cena arrepiante para os paraguaios, que estão amargamente cientes de como o país foi destruído por invasores brasileiros em uma guerra há 140 anos.

As manobras do Brasil começaram quando o campo paraguaio se tornou crescentemente violento. Jornais estão cheios de números de conflitos fatais entre policiais e camponeses e entre camponeses e milícias, controladas por fazendeiros brasileiros. O assunto está agravando a relação entre os países e o início da presidência de Lugo, ex-bispo da Igreja Católica Romana e um herói para os pobres.

Nesta terça em Brasília, um diplomata sênior brasileiro negou em uma entrevista que operações militares a caminho do Estado Alto Paraná estão relacionadas com os confrontos de terras envolvendo camponeses. Ele disse que exercícios periódicos são feitos na região da fronteira, muito conhecida pelo contrabando.

A última coisa que o governo brasileiro fará é usar suas tropas para intervir em um assunto interno do Paraguai, disse o diplomata. Ainda assim, oficiais brasileiros expressaram preocupação. Nesta quarta, um relato do Ministério do Exterior brasileiro disse que o movimento de camponeses sem-terra ameaçou desatar em ações violentas contra comunidades de brasileiros que moram no Paraguai. O relato acrescentava que as ameaças dos camponeses foram o motivo da apreensão das autoridades brasileiras e que Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, mencionou sua preocupação em um encontro no mês passado com o presidente Lugo.

Os camponeses paraguaios dizem que a terra está sendo ocupada ilegalmente por fazendeiros brasileiros e que oficiais corruptos estão permitindo que os intrusos as consigam há décadas. A eleição, em abril, de Lugo, que passou 11 anos trabalhando no campo com camponeses sem-terra, tem incentivado invasões a fazendas controladas por brasileiros produtores de soja.

Passado de guerra

Lugo reconheceu nesta semana que os domínios do Paraguai não foram violados. Mas enfatizou que as operações militares tocaram em um nervo do Paraguai, que foi devastado entre 1865 e 1870, na Guerra da Tríplice Aliança (Guerra do Paraguai), que resultou em anos de ocupação militar brasileira.

Enquanto Lugo está aparentemente em dívida com os camponeses que acreditaram nele, ele deve mostrar que pode reforçar as regras da lei. Uma parte importante de sua plataforma envolve esforços em renegociar contratos com o Brasil sobre a planta da hidrelétrica de Itaipu, que fica na fronteira entre os dois países. O Paraguai quer mais dinheiro da energia que é produzida pela propriedade em comum.

O medo aumentou no último fim de semana quando novos desabafos de paraguaios lembraram uma entrevista filmada em julho com o comandante das forças da fronteira brasileira, general José Carvalho Siqueira. Referindo-se à hipotética ocupação da área da hidrelétrica por um movimento social estrangeiro, o general foi mencionado dizendo que o exército brasileiro existe para cumprir qualquer missão em qualquer parte do território nacional; se o presidente determina que uma ação deve ser tomada, então ela deve ser cumprida.

Por ALEXEI BARRIONUEVO

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