Traficantes mexicanos plantam maconha nos EUA para evitar a fronteira

TUCSON ¿ Traficantes de drogas estacionaram um trailer do lado norte-americano da fronteira entre EUA e México em um dia de dezembro, pularam a cerca de segurança e dirigiram duas camionetes cheias de maconha pelo território do Arizona.

The New York Times |

Quando uma patrulha da fronteira começou a perseguição, uma terceira camionete apareceu do lado mexicano da fronteira e homens armados começaram a atirar nos agentes através da cerca. Os traficantes nos primeiros veículos incendiaram uma das camionetes e abandonaram a outra, com uma quantidade de maconha que valia US$ 1 milhão na parte de trás da camionete. Então pularam novamente para atravessar a fronteira para o Estado de Sonora no México.

Embora os esforços de ambos os lados da fronteira do sul, o comércio mexicano de maconha está mais forte ¿ e ousado ¿ do que nunca, dizem oficiais da lei. O cartel mexicano transportou routineiramente carregamentos de maconha de tamanhos industriais em 2008, escavando novos túneis e adotando táticas como rampas de auxílio ao tráfico para conseguir que suas cargas cruzem a fronteira sem serem detectadas.

Mas essas não são as únicas táticas novas: os cartéis também estão aumentando as plantações de maconha nos Estados Unidos, uma grande estratégia de desvio para evitar a fronteira, de acordo com oficiais.

Dados

No ano passado, as autoridades das Forças contra as drogas confiscaram quantidades recordes de plantas de alta qualidade de Miami até São Diego e até mesmo terras onde havia parreiras que foram alugadas por cartéis, no Estado de Washington. Os traficantes também começaram produzir maconha hidropônica ¿ maconha cultivada em local fechado sem terra e sob a luz de lâmpadas ¿ desafiando os negócios das redes asiáticas e de pequenos plantadores.

Um relatório do Departamento de Justiça do ano passado concluiu que as organizações de tráfico de narcóticos mexicanas operam atualmente em 195 cidades, um número muito maior do que 50, registrado em 2006.

Os quarto maiores cartéis afiliados com cidades norte-americanas são a Federação, o Cartel de Tijuana, o Cartel de Juarez e o Cartel do Golfo.

Grande produção

Há evidências de que os cartéis mexicanos também estão aumentando suas relações nas prisões e com gangues de rua nos Estados Unidos para facilitar o tráfico de drogas, mostrou um relatório do Congresso em fevereiro de 2008. Analistas de Inteligência detectaram que o aumento dos cartéis de narcóticos mexicanos está relacionado com atividades em Chicago, Detroit, Minneapolis, Seattle e Yakima, em Washington ¿ áreas que costumavam ser controladas por redes étnicas.

O tráfico ainda é mais freqüente na região sudoeste, que foi o lar de traficantes mexicanos por mais de duas décadas. Recentemente, um repórter observou de Nogales, no Arizona, traficantes do outro lado da fronteira que olhavam com binóculos os movimentos dos agentes de patrulha da fronteira norte-americana. Os policiais atiraram nas camionetes que estavam do outro lado da borda procurando por travessias ilegais.

Cerca de meio-dia, agentes da fronteira viram um pacote de mais de 27 kg de maconha ser jogado por cima da cerca. Esse tipo de coisa acontece por aqui todos os dias, disse o agente Michael A. Scioli, porta-voz da Proteção de Atividades e Fronteira.

Para os cartéis, maconha é a colheita-rei, disse o agente especial Rafael Reyes, chefe da Seção de Forças Administrativas de Narcóticos do México e da América Central. Ela sustenta consistentemente seu comércio e sua lucratividade.

Operações contra narcóticos

O tráfico de maconha continua sem ser abatido nos Estados Unidos, mesmo com os relatórios de Inteligência que sugerem um declínio na disponibilidade de heroína, cocaína e outras drogas pesadas, que requerem operações de tráfico mais extensas.

Ao combinar o tráfico com a produção doméstica, os cartéis sustentam o comércio da droga, embora haja grande força policial contra ele de ambos os lados da fronteira. De 2000 a 2007, as autoridades mexicanas prenderam cerca de 90 mil traficantes, mais de 400 matadores de aluguel e uma dúzia de líderes do cartel, de acordo com um relatório do Congresso de 2008. Os EUA extraditaram 95 mexicanos que estavam legalmente no país, no ano passado. As apreensões na primeira metade de 2008 ultrapassaram as taxas de 2002 a 2006.

Mas o preço tem sido alto. As tensões aumentaram entre os cartéis, que estão brigando por rotas lucrativas de tráfico em cidades ao longo da fronteira mexicana como Juarez, Tijuana e Nogales, em Sonora no México. Mais de seis mil pessoas, incluindo centenas de oficiais da polícia, foram mortas pela violência relacionada às drogas, no México em 2008. Agentes de Patrulha da Fronteira dos EUA também relataram mais confrontos violentos com traficantes.

O governo mexicano e dos Estados Unidos fortificaram as fronteiras, com isso, os cartéis de drogas estão aumentando a produção mais ao norte para evitar os recursos contra o tráfico.

Ousadia

Muitas das maiores plantações de maconha estão escondidas em terras de parques federais ou estaduais, dizem as autoridades federais. Bill Sherman, agente da Forças Administrativas de Narcóticos (DEA), disse que as autoridades também encontraram um número crescente de fazendas nos condados de Imperial e São Diego, uma área que os traficantes tradicionalmente evitavam por causa da presença de guardas da fronteira, várias agências de polícia e Camp Pendleton, uma base da Marinha.

Estamos vendo muito mais plantações aqui atualmente, disse Sherman. Isso é uma mudança.

Os agentes do DEA apreenderam cerca de 6,6 milhões de cannabis (planta da qual se produz a maconha) cultivadas em sua maioria por cartéis em 2007, um terço a mais do que as plantas destruídas em 2006. Na Califórnia, a maior produtora nacional de maconha, as autoridades erradicaram um recorde de 2,9 milhões de plantas até o fim da colheita da droga em dezembro.

Ainda assim, eles dizem que não vêem uma redução perceptível no suprimento doméstico. Os preços permaneceram relativamente estáveis mesmo com o aumento do poder da maconha para níveis recordes em 2007, de acordo com o Centro Nacional de Inteligência e Narcóticos, uma agência de análise do Departamento de Justiça.

Diversidade

Reyes também apontou que os traficantes mexicanos estavam escolhendo a maconha hidropônica, que é mais potente, lucrativa e fácil de esconder porque pode ser cultivada com lâmpadas. (mais de 400 gramas de maconha de qualidade médio é vendida por cerca de US$ 750 em Los Angeles, em comparação com US$ 2.500 a US$ 6.000 por 400 gramas da droga hidropônica).

Ele falou sobre um caso na Flórida, no ano passado, no qual cultivadores cubanos costumavam utilizar o terreno de diversas casas em Miami para cultivar suprimentos de maconha hidropônica para traficantes mexicanos.

Kathyrn McCarthy, assistente do promotor público em Detroit, disse que traficantes mexicanos em Michigan estavam trocando cocaína da Colômbia por maconha hidropônica de British Columbia, no Canadá, para vender nos EUA.

No Estado de Washington, segundo maior produtor nacional da droga, cartéis mexicanos estão cultivando variedades melhores de maconha ao ar livre para competir com as canadenses e outras plantas potentes cultivadas em lugares fechdos.

No ano passado, oficiais de Narcóticos descobriram 200 mil plantas de maconha de alta qualidade em campos de parreiras alugados em Yakima Valley. A região do noroeste é tradicionalmente a província de redes de comércio asiáticas de hidropônicas.

Embora a plantação tenha aumentado, os cartéis ainda se apoiam no tráfico. Perto de Nogales, no Arizona, Scioli mostrou diversos túneis que passavam por baixo da fronteira, um se entendia do quintal de uma casa, sob a cerca, até mais de 36 metros além da fronteira, no México. Outra série de túneis sob a fronteira usando túneis de esgoto ou de drenagem de água. Eles estavam entre os nove túneis que os agentes das Forças de Narcóticos desde 2003.

Violência

Embora as autoridades estejam encontrando mais produções de maconha nos Estados Unidos, a maioria das lideranças de cartéis permanecem no México e, por enquanto, a violência também. Mesmo assim, fotografias recentes do México que mostram cabeças decapitadas de policiais mexicanos ficam nas mentes dos oficiais de Forças de Lei do lado norte-americano da fronteira, que ficam vigiando se há sinais de expansão.

A polícia mexicana em Sonora está presa entre dois cartéis em guerra, disse Anthony J. Coulson, agente federal do DEA. Os policiais estão sendo mortos aos montes. Estão sendo usados para mostrar quanto poder e controle os cartéis possuem.

Reyes, agente especial, disse: A violência está acontecendo por causa da pressão que fizemos, mas isso não alimenta qualquer crescimento ou redução na maconha.

Ninguém está vendo um fim rápido da violência em Nogales, em Sonora. O xerife de Santa Cruz Tony Estrada disse que há tanta violência do outro lado da fronteira que muitos oficiais da polícia mexicana e políticos se tornaram refugiados em Nogales, no Arizona.

A violência deixou um grande contingente de polícia deste lado da fronteira, disse ele. A matança irá parar quando alguém dominar. Quando alguém tomar o controle.


Por SOLOMON MOORE


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