Torre de Pisa perde inclinação e abre espaço para a concorrência

Após reparos, monumento italiano deixa de ser a torre mais alta do mundo e faz com que outras ganhem notoriedade

The New York Times |

Antigamente não era incomum que um monarca da Europa partisse de maneira inesperada e isso gerasse um período de intermináveis disputas entre aspirantes ao trono, até que um finalmente se consagrasse o vencedor.

Algo similar aconteceu depois que os engenheiros fizeram uma extensa reforma na lendária Torre de Pisa, reduzindo drasticamente a sua inclinação. Embora tenham assegurado que a torre irá sobreviver para encantar as futuras gerações de turistas, as obras acabaram modificando seu status de torre mais inclinada do mundo, criando uma nova concorrência para ver qual será o próximo prédio a conquistar essa posição.

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A Torre de São Maurício, em St. Moritz, na Suíla, que pode ser uma das mais inclinadas do mundo (26/01)

O assunto parecia ter sido resolvido há alguns anos, quando o Livro Guinness de Recordes deu o título para uma torre adjacente a uma igreja de tijolos vermelhos na aldeia de Suurhusen, no norte da Alemanha. Ela está inclinada em um ângulo de 5,19º - a Torre de Pisa está a 3,9º.

Mas então surgiram outros candidatos. No ano passado, a revista alemã Der Spiegel listou pelo menos três outras torres alemãs que poderiam disputar o título do Guinness.

Em St. Moritz, na Suíça, uma torre encontra-se inclinada de maneira que, para alguns, faz dela uma das mais fortes candidatas ao título. A estrutura do século 12, conhecida como Torre de São Maurício, foi construída para fazer parte de uma igreja. Ela não é apenas inclinada mas, também, fica em um terreno instável e tem de passar por uma manutenção constante.

Durante 35 anos, até se aposentar há quatro, Pietro Baracchi trabalhou no departamento de construção de St. Moritz e era responsável pela segurança da torre de 32 metros. Vê-lo olhar para cima era como ver um pai olhar com carinho para seu filho excepcionalmente alto e diferente.

Ele ainda visita a torre uma vez por mês e utiliza instrumentos sensíveis instalados em seu interior para medir a inclinação. Ele então envia os resultados para a Universidade Técnica de Zurique, a maior do país, onde os engenheiros criaram um projeto para impedir que a torre caia.

"Esta torre é para nós o que a torre do sino é para Pisa ou a de São Pedro para o Vaticano", disse Baracchi, 69, levando o visitante ao topo da torre quadrada, que ao contrário da torre inclinada de Pisa é fechada ao público.

Quando um terremoto sacudiu a região de Friuli no nordeste da Itália em 1976, a torre de St. Moritz deu uma inclinada tão perigosa que alguns dos vereadores acreditavam que havia chegado a hora de derrubá-la. "Ela inclinou em uma noite o que teria inclinado no período de um ano", disse Baracchi.

A igreja que deu nome à torre foi destruída em 1893, por ser considerada um edifício perigoso. Com estilo típico suíço, o destino da torre foi submetido a uma votação geral da população adulta e cerca de 84% votaram à favor de salvá-la.

Mesmo antes do terremoto, suportes horizontais de concreto foram instalados sob a base da torre para estabilizá-la. Então, em 1983, elevadores hidráulicos foram usados para endireitar a torre ligeiramente e blocos foram colocados debaixo dela, para garantir ainda mais sua segurança. Em 2005 a elevação hidráulica ocorreu novamente para corrigir a inclinação e outra operação está sendo agendada.

"Se esta é a torre mais inclinada da Europa, com um ângulo de inclinação de 5,364 graus, eu não sei", escreveu Alexander Puzrin, da Universidade Técnica, em um e-mail. "Estamos planejando uma campanha para um novo ajuste vertical em 2013 ", acrescentou.

As torres se inclinam por diferentes razões, disse Puzrin, mas a torre local se inclina porque, assim como toda a vizinhança que a rodeia, esá essencialmente no meio de uma terra em constante deslizamento em direção à margem do lago.

Recentemente foram instalados três sismógrafos, incluindo um na base e outro na parte superior da torre. Quando começarem a funcionar, ainda este ano, eles irão transmitir os dados sobre a inclinação da torre diretamente para os especialistas em Zurique. Baracchi disse que irá continuar com suas visitas mensais.

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O deslizamento de terra, segundo Puzrin, que tem cerca de um quilômetro de comprimento e meio quilometro de largura, acontece normalmente até 18 centímetros por ano. Nadia Scartaccini, que se mudou da Itália há 26 anos e agora trabalha na loja de sapatos Bata, logo abaixo da torre, acredita nele.

"Vamos ter que sair daqui até o final do ano", disse ela. Em seguida, ergueu uma ponta do tapete para revelar fissuras irregulares no chão de concreto.

Outros prédios mais modernos do bairro foram construídos para lidar com o deslizamento de terra, mas os edifícios mais antigos serão demolidos para permitir que a cidade injete concreto na terra e retarde seu deslocamento.

Calçadas e ruas possuem o asfalto ondulado, porque o movimento descendente do deslizamento acabou forçando o chão sobre eles. No ano passado, as redes de energia e água tiveram de ser substituídas.

Pisa, por sua vez, não tem sentido a mesma ameaça que Suurhusen, St. Moritz ou qualquer outro lugar. "Francamente, não tinha ouvido falar sobre isso", disse Daniela Purchielli, diretora de turismo do governo da cidade de Pisa. "Nossos números estão aumentando."

No ano passado, mais de 426 mil visitantes conheceram o marco, em comparação a 402 mil do ano anterior. Ninguém conta o número de visitantes na entrada da torre inclinada de St. Moritz.

Questionada sobre se a cidade abordou o Guinness para que reconhecessem a torre como uma possível candidata, Sara Roloff, diretora de relações públicas para a organização do turismo local, respondeu: "Não que eu saiba."

No entanto, a torre permaneceu, segundo ela, como "um dos emblemas" de St. Moritz. "Para nós ela sempre estará lá, junto com sua longa história", disse.

Ludwig Guertler, de Berlim, segurava uma prancha de snowboard enquanto aguardava um ônibus para ir para as pistas de esqui de St. Moritz. Ele disse que estava no local a negócios, vivendo em um chalé não muito longe da torre. Apenas recentemente havia percebido que ela era inclinada.

Outros visitantes ficaram surpresos de que poderia existir alguém que não houvesse percebido sua inclinação.

"Nos deparamos com ela sem querer, não tínhamos conhecimento sobre ela ", disse Alessandro Barzaghi, 37, chef de restaurante da Itália que estava passando suas férias na região. "E pensar que eles queriam demoli-la!"

Francesca Buttini, uma advogada que acompanhava Barzaghi na visita, disse que não achava que Pisa tinha muito com que se preocupar. "Pisa é outra coisa", disse ela, levantando as mãos para cima.
Até certo ponto, é verdade que essa competição é um pouco inútil. Não fosse pela intervenção humana, algumas das principais concorrentes, como a Torre de Pisa e a torre de St. Moritz teriam desaparecido há muito tempo. A torre do sino de Suurhusen é considerada bastante estável.

Em 2005, a torre de St. Moritz inclinou a um ângulo de 5,4 graus, mais do que o titular do livro Guinness de Suurhusen, mas foi erguida novamente para um ângulo mais seguro de 5,08 graus. Puzrin disse que não voltaria a deixar a inclinação da torre ir além de 5.36 graus novamente.

Mas isso não quer dizer que o concurso para o título da torre mais inclinada não dê bons frutos. Frank Wessels, o pastor da igreja de Suurhusen, disse que os benefícios são notáveis.

"Sempre tivemos turismo", disse ele por telefone, da Alemanha, "Mas o número de turistas aumentou muito. Tivemos até turistas do Japão e da Coreia do Sul ".

Por John Tagliabue

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