Tornado leva mortes, mas também milagres aos EUA

Sobreviventes relatam momentos de tensão durante tempestades que deixaram rastro de destruição no sul do país

The New York Times |

Apesar de todas as mortes, ossos quebrados e casas destruídas, ainda houve alguns milagres no tornado de 10 minutos que atingiu a Carolina do Norte no fim de semana.

Houve Glen White, 24, que encontrou forças para levantar um muro que tinha caído sobre cinco moradores de uma casa. Houve o casal que foi lançado no quintal quando a tempestade explodiu sua casa - e eles caíram perto o suficiente para conseguir dar as mãos, ainda que feridos.

E houve Molly, uma mula que durante anos atuou no espetáculo natalino da cidade. As pessoas dizem que a viram ser levada pelas nuvens quando a tempestade atingiu a cidade na noite de sábado. Eles acharam que ela era um caso perdido.

Mas na manhã de domingo, o seu dono, Jake Dunlow, 75, a encontrou em uma vala a cerca de 600 metros de distância. Um dia depois, ela estava pastando em seu próprio pasto, ignorando os estilhaços de sete casas à sua volta.

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Molly, a mula que sobreviveu ao tornado em Askewsville, na Carolina do Norte (18/04)

Sim, onze pessoas morreram nesses escuros e ensurdecedores 10 minutos. Dezenas ficaram feridas e casas foram destruídas.

Mas conforme as pessoas vasculhavam a bagunça e contribuíam com água e frango frito nos abrigos temporários na segunda-feira, todos pareciam revelar uma mistura de tristeza e choque por esse tornado não ter causado danos piores. "Estamos com sorte, é tudo que eu posso dizer", disse Dunlow.

As mortes no Condado de Bertie foram as últimas das 45 registradas em vários Estados do sul dos EUA e atribuídas à tempestade estranhamente grande, que reivindicou sua primeira vida em Oklahoma na quarta-feira antes de seguir para leste.

Por volta das 7h de sábado, ela se transformou em um feroz tornado – ou talvez dois – antes de chegar ao Oceano Atlântico. Até onde as pessoas podem dizer, primeiro ele pousou em um pasto da pequena cidade de Askewville, no nordeste do Estado, a cerca de meia hora de distância das praias de Outer Banks.

Essa é uma das regiões mais pobres do Estado e uma das menos povoadas. Mas as pessoas se conhecem aqui em Askewville, batizada em homenagem a uma proeminente família de navegadores. Eles colocam casas arrumadas em seus quintais e pescam robalo no rio enquanto discutem se a safra do algodão será melhor este ano do que a do famoso amendoim do condado de Bertie.

Era apenas mais uma calma noite quando o tornado atingiu o campo, levou Molly pelos ares e destruiu os sete trailers que Dunlow mantinha alugados para renda de aposentadoria (um dinheiro que nunca mais verá uma vez que não possui seguro).

Ele saltou por cima de algumas árvores e atingiu outro trailer no norte da cidade. Viajando a talvez 90 quilômetros por hora, ele atingiu a Rua Morris Ford, onde Ava Moore Daniels, 47, coordena algumas casas de repouso para pessoas com impedimentos físicos e mentais.

A parede

Seu sobrinho, White, estava ajudando a cuidar de seis pessoas em uma das casas quando viu os dois funis de vento que vinham em sua direção. Ele acompanhou todos até o banheiro e, em seguida, viu o tornado arrancar o telhado. Tudo acabou em 15 segundos, disse ele.

Todo mundo estava bem, então ele saiu e viu que a casa ao lado tinha desmoronado. Ele correu e ouviu, apesar da fúria de granizo e ventos e trovões, gritos de "Glen, socorro!"

Uma mão acenava sob uma parede desabada. "Eu levantei aquela parede como se ela não estivesse lá", disse ele. "Eu não sei de onde tirei a força".

Ele a segurou até que algumas pessoas da primeira casa e um bom samaritano que estava passando por ali correram para ajudá-lo a sustentar o muro enquanto os moradores saiam de baixo dele.

Quatro moradores e um agente sobreviveram, mas uma mulher em seu 60 anos e um homem de 52 anos de idade foram encontrados mortos sob os escombros.

O casal

O furacão então abateu a pequena casa em frente a um milharal que James Levon White, 58, compartilhava com sua esposa, Hattie White, 49. Ele trabalha em um centro de equipamentos agrícolas. Ela é uma agente penitenciária.

O céu escureceu de repente. Tudo o que ele conseguia pensar foi em chegar até o armário do quarto. Ela caiu. Ele agachou-se sobre ela. Eles seguraram um ao outro.

"De repente eu ouvi um barulho, como quando pregos são puxados da madeira, e era muito alto", disse ele. "Nós fechamos os olhos e quando acordamos novamente estávamos lá fora”.

O tornado destruiu toda a sua casa, com exceção da varanda. Eles foram jogados no ar, voando cerca de 10 metros. A tempestade os deixou no quintal, machucados e cortados, com os ombros torcidos.

"Quando pousamos lá fora, estávamos a apenas dois metros de distância um do outro", disse ele. "Eu consegui estender a mão e tocá-la. Fomos abençoados".

Outros foram menos afortunados. Nos próximos minutos, o furacão passaria sobre a estrada U.S. 42 e mataria um casal e a mãe idosa que vivia com eles. Um homem morreu na Rua Nowell Farm, juntamente com mais duas pessoas na vizinha Rua Harrell, disse Jennifer Stalls, 29, uma trabalhadora do resgate que trabalhou naquela noite. A última vida foi perdida perto da Rua Glovers Cross, segundo os bombeiros.

Depois, a tempestade virou para o norte, cortou a Virginia e saiu para o mar.

Haverá limpeza a fazer e funerais a planejar. As pessoas vão esperar para ver se suas seguradoras irão ajudá-las a reconstruir suas vidas. Eles irão contar suas bênçãos como choram suas perdas, e falar do plano de Deus e da obra de Deus. E eles vão saudar a resiliência da mula mais famosa da cidade.

"Molly vai fazer mais um Natal", disse Tiffany Everett, 44, o bom samaritano que ajudou a salvar o grupo preso debaixo da casa destruída.

Por Kim Severson

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