Tony Blair tem livro de memórias como hit e legado de protestos

Homem de contradições, ex-premiê britânico enfrenta multidões irritadas, como em Dublin, onde teve de cancelar noite de autógrafos

The New York Times |

''Você é o meu 10º primeiro-ministro", disse a Rainha Elizabeth a Tony Blair quando o conheceu no Palácio de Buckingham em seu primeiro dia no cargo, em 1997, de acordo com A Journey: My Political Life (A Jornada: Minha Vida Política, em tradução livre), novo livro de memórias de Blair. "O primeiro foi Winston. Isso foi antes de você nascer".

É uma cena memorável, que (juntamente com uma outra que descreve o príncipe Philip fazendo um churrasco de família) já teria desagradado a rainha, pois é considerado rude e grosseiro que um primeiro-ministro revele detalhes sobre encontros privados com a família real. Mas, no que foi o último estágio de uma campanha publicitária cuidadosamente coreografada para o lançamento do livro de Blair, verifica-se que a rainha pode não ter dito exatamente o que Blair afirma que ela disse.

Ou talvez ela tenha dito, mas só nos filmes. Em A Rainha, filme de 2006 sobre as consequências da morte de Diana, Princesa de Gales, Helena Mirren, no papel de Elizabeth, cumprimenta Michael Sheen, como Blair, dizendo em parte: "Você é o meu 10º primeiro-ministro, Sr. Blair. Meu primeiro foi Winston Churchil".

Getty Images
Na Grã-Bretanha, A Journey vendeu 92 mil cópias em menos de uma semana
Peter Morgan, roteirista de A Rainha, disse que a cena do filme foi inteiramente ficcional, baseada em sua imaginação. Como é pouco provável que ele tenha "adivinhado com absoluta perfeição", Morgan disse ao jonal Daily Telegraph, talvez Blair "tenha bebido um gin e tônica a mais" e – como Ronald Reagan antes dele – "confundiu a cena do filme com o que realmente aconteceu". Blair sempre afirmou que nunca assistiu A Rainha', que o descreve como alegre e cativante, mas também politicamente astuto.

A porta-voz da editora Knopf repetiu essa afirmação na quarta-feira – a acusação é apenas ''um bom golpe de relações públicas de Morgan para levar as pessoas ao seu DVD", disse o porta-voz, Paul Bogaards, que está atuando como representante de Blair para o livro. Assim, o mistério da coincidência terá de continuar.

Em qualquer caso, o livro de Blair não parece estar sofrendo por conta disso.

Contradições

Tony Blair sempre foi um homem de contradições, e a mais recente é esta: mesmo conforme o protesto de multidões irritadas forçam o cancelamento de eventos de publicidade planejados há muito tempo em Londres, seu livro está vendendo como se ele fosse a pessoa mais popular viva. Na Grã-Bretanha, segundo a Nielsen BookScan, – a melhor semana de abertura para uma autobiografia, desde que a empresa começou a manter registros em 1998.

Nos Estados Unidos, onde sua editora imprimiu um adicional de 25 mil cópias desde sua primeira impressão de 50 mil exemplares, o livro deve estreiar na lista dos mais vendidos do New York Times em No. 3 no dia 19 de setembro. Na Amazon.com, ele já é o n º 13 entre todos os livros.

''Tem sido absolutamente notável", disse Fiona Allen, porta-voz da rede de livrarias Waterstone’s na Grã-Bretanha. "Nós emitimos um comunicado no final do dia 1º, dizendo que este era a memória política de venda mais rápida de todos os tempos. O livro está quebrando todos esses recordes e está vendendo mais do que qualquer outra autobiografia que já tivemos. Mais, por exemplo, do que a autobiografia de David Beckham, com a sua atraente fotografia de capa.

Isso não é aparente por causa da veemência dos protestos anti-Blair. Apesar de A Journey ter recebido críticas mistas, os críticos têm levado o livro a sério, com muitos elogiando Blair por ter escrito obviamente ele próprio e por ser excepcionalmente sincero sobre as vicissitudes da vida em um cargo de alto poder. Assim, o antigo primeiro-ministro foi, provavelmente, surpreendido quando, ao chegar em uma livraria em Dublin no final de semana, ele foi saudado por uma multidão de manifestantes gritando bem alto "Butcher Blair" (Blair açougueiro, em tradução livre), tentando penetrar no perímetro de segurança ao redor da loja e atirando ovos, garrafas de plástico e outros objetos contra ele.

Getty Images
Protestos contra o então primeiro-ministro britânico Tony Blair, aliado de George W. Bush na guerra do Iraque (15/6/2008)
O incidente se provou debilitante o suficiente para que Blair cancelasse seu grande evento de autógrafos do livro em Londres, que teria sido realizado na hora do almoço na quarta-feira na principal loja Waterstone's em Piccadilly. E então ele cancelou sua festa privada do livro, uma comemoração planejada na galeria Tate Modern, na noite de quarta-feira, explicando que não queria submeter seus amigos ''a experiência desagradável e assustadora de lidar com manifestantes".

''É triste, de certa forma, porque você deveria ter o direito de autografar livros ou ver seus amigos se quiser", disse Blair numa entrevista na televisão na quarta-feira. "Mas isso iria causar muito aborrecimento".

Os protestos têm eco fraco em outro retrato ficcional de Blair, sob o disfarce do ex-primeiro-ministro Adam Lang no filme de Robert Harris, The Ghost. No livro, que foi levado para o cinema por Roman Polanski no filme The Ghost Writer, Lang, uma versão disfarçada de Blair, mal consegue sair da casa sem ser perseguido por manifestantes anti-guerra do Iraque. Rejeitado na Grã-Bretanha, ele vive quase em exílio nos Estados Unidos, se animando com as visitas de seu grupo de admiradores cada vez menor, a maioria deles no governo dos Estados Unidos.

Não é tão ruim assim com Blair. Os manifestantes, liderados por um grupo chamado Stop the War Coalition, não o levaram a fugir do país, por exemplo.

''Nem todo mundo o odeia", disse Andrew Rawnsley, jornalista político e autor do livro The End of the Party (O Fim do Partido, em tradução livre), sobre o longo adeus do governo trabalhista. "Há um pequeno grupo de pessoas que absolutamente o odeia. Mas há um grupo de pessoas que ainda o admira e gosta dele – lembre-se, ele ganhou três eleições. E uma grande parte das pessoas tem sentimentos muito ambíguos, mas são fascinadas por ele".

Segundo Fiona, da Waterstone's, o livro de Tony Blair se tornou ''uma leitura obrigatória para pessoas que desejam participar da vida pública. "Um livro pode chegar ao ponto de que se você não o leu e você não sabe do que trata, então está fora do circuito", ela disse.

Além disso, segundo ela, livros de memórias políticas, em particular de ex-primeiros-ministros, há algum tempo vendem com rapidez. "Há definitivamente uma atmosfera de interesse e um apetite para a leitura de livros políticos", disse Fiona.

Eventos

Blair tem uma série de eventos programados nos Estados Unidos na próxima semana, segundo Bogaards. Entre eles uma conversa com Katie Couric; uma participação no The Daily Show com Jon Stewart, e uma aparição no Centro Nacional Constitucional na Filadélfia, onde irá receber a Medalha da Liberdade de 2010 do ex-presidente Bill Clinton.

Esses eventos, sem dúvida, irão ajudar a levantar as vendas. Como Denny salientou: "O número de manifestantes ainda é muito pequeno comparado ao número de compradores do livro".

*Por Sarah Lyall

    Leia tudo sobre: tony blairbiografiaguerraoposiçãoreino unidolivro

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG