Tombamento histórico não é proteção suficiente em Pequim

Conservacionistas lamentam demolição de prédio no qual viviam famosos arquiteros que lutavam pela preservação do patrimônio

The New York Times |

Mesmo em seu auge, a casa no número 24 da Rua Beizongbu Hutong em Pequim, na China, nunca foi nenhuma joia arquitetônica, apenas uma das inúmeras casas de tijolo, madeira e jardim que obstruíam o coração labiríntico desta antiga capital imperial.

Mas durante sete anos na década de 1930, ela abrigou um dos casais mais lendários da China moderna, Liang Sicheng e Lin Huiyin, ambos arquitetos educados no exterior que tinham voltado para casa para defender a ideia de que uma grande nação precisa conservar seus patrimônios históricos.

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As ruínas do prédio histórico onde viviam os arquitetos Lianf Sicheng e Lin Huyin em Pequim, na China (01/02)

Foi Liang, filho de uma ilustre família de intelectuais, que pediu aos comunistas vitoriosos que preservassem muralhas e construções da dinastia Yuan, em Pequim. Mao, o insensível líder do país, não concordava com esse pensamento.

Então, quando preservacionistas arquitetônicos acordaram no fim de semana passado e descobriram que a casa do casal havia sido reduzida a escombros, houve uma onda previsível de indignação, mas também uma sensação de desamparo. Como uma "relíquia cultural" poderia ser tão facilmente destruída por uma empresa imobiliária afiliada ao governo?

Os burocratas culturais que supervisionam a preservação de sítios históricos no distrito de Dongcheng não ficaram comovidos com a demolição do edifício. "Uma réplica será construída", disse uma autoridade aos meios de comunicação estatais.

Em uma cidade que tem presenciado seus patrimônios culturais serem encobertos pelo crescimento constante de torres de vidro ou, em alguns casos, recriações pastiche do passado, a destruição da casa do número 24 da Rua Beizongbu Hutong não passa de uma ironia cruel, dadas as paixões de seus ex-ocupantes. Em alguns artigos e editoriais da semana passada, a imprensa nacional denunciou a demolição como uma violação arbitrária das leis do país e uma afronta à história chinesa.

Até mesmo o serviço de notícias do Estado, que é normalmente impassível, como a agência Xinhua, deixou claro sua crítica. "Casa demolida, cultura ferida" foi a manchete de sua página principal na quinta-feira passada.

Mesmo abalado pela perda de uma casa que tinha feito de tudo para salvar, He Shuzhong, um dos defensores da preservação mais conhecidos da cidade, disse ter se consolado com a revolta da população em geral.

"Liang Sicheng e Lin Huiyin, afinal, promoviam o ideal de que os intelectuais e peritos no assunto devem comprometer-se com a melhoria da sociedade e da nação", disse ele, cujo grupo sem fins lucrativos, o Centro de Proteção da Herança Cultural de Pequim, lutou para fazer com que a casa fosse sido declarada um marco histórico em 2009.

"Acredito que muitas pessoas acham que a China moderna não tem um senso de devoção, razão pela qual a perda do prédio significou muito."

Por Andrew Jacobs

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