Toda a costa alagada de Mianmar tem o cheiro de podridão e morte

BOGALAY, MIANMAR ¿ A água não recuou completamente, e poucos caminhões de ajuda humanitária chegaram aqui. Somente um helicóptero, do Exército de Mianmar, foi visto na sexta-feira, deixando pacotes de macarrão instantâneo por uma área devastada do delta que precisa de muito mais. Win Kyi, uma mãe que procura seu filho perdido, estava chorando, seu corpo tremia enquanto seus braços se esticavam pedindo por comida, dinheiro, água, qualquer coisa.

The New York Times |

Eu não tenho nada, ela disse, se confundindo em um estado de choque. Tudo foi embora.

Seis dias depois de um ciclone devastar a planície costeira de Mianmar, é óbvio que o estrago é grande e que pouca ajuda chegou para os milhares de moradores por toda a costa ao sul da capital, Yangun. O cheiro de podre e de morte está no ar aqui, parte de um único distrito onde o governo militar afirma que 10 mil pessoas morreram.

Mesmo assim, é difícil saber o real número de mortes, mesmo em um cenário de árvores destruídas e casas e animais flutuando que lembra a devastação do tsunami de 2004 que matou 181 mil pessoas. Pelos 112 quilômetros de estrada ¿ a única ¿ de Yangun até aqui, não existia um único corpo visível. Mesmo assim, grupos de ajuda e os poucos jornalistas na terra ainda não tiveram acesso completo a algumas áreas que foram relatadas como mais atingidas, especialmente no mar Andaman.

E as pessoas comentam de vilas que foram riscadas do mapa, um dano contado não pelos mortos, mas pelos sobreviventes, que de tão poucos fica mais fácil de contar.

AFP
AFP
Crianças fazem fila em monastério para receber porção de arroz

Na vila de Day Da Nam, a 53 quilômetros de Yangun, moradores disseram que os remanescentes dos 28 fazendeiros mortos na tempestade ainda flutuavam nas águas da enchente. Thein Tun, um motorista de ônibus de 44 anos que agora está desempregado porque todos os ônibus foram destruídos, disse que a comida era rara e a água do poço estava contaminada.

A diarréia está chegando, ele disse, enfatizando uma grave preocupação entre os oficiais de ajuda de que o número de mortos pode subir rapidamente se água limpa e remédios não chegarem aqui logo.

Sem alternativas, os moradores estão comendo bananas cheias de água e outras frutas apodrecendo, ele disse. Normalmente fazíamos duas refeições, disse Thein Tun. Agora comemos apenas uma vez.

Mesmo assim, das duas dúzias de pessoas entrevistadas nas vilas destruídas e plantações de arroz alagadas pela estrada, ninguém disse estar morrendo de fome. A maioria das reservas de arroz se molharam durante a tempestade, mas os moradores colocaram os grãos em grandes tapetes de plástico para secar. O arroz tem um cheiro mofado, mas os fazendeiros dizem que sua única escolha é comê-lo.

Tem um gosto ruim, mas se podemos comer, então será assim, disse Than Tun, 43 anos, cultivador de arroz. Se não, jogaremos aos porcos.

Como centenas de outros fazendeiros aqui, ele mora em uma estrutura de 90 centímetros na margem da estrada desde que sua casa foi destruída. Muitos moradores fugiram para o lado relativamente mais seguro da estrada quando chegou a tempestade porque tem uma altura um pouco mais alta do que os arredores.

Mas as águas da enchente não voltaram completamente para o mar. É salgada, um problema para os humanos, mas nem tanto para o arroz: um pouco de sal, eles dizem, não prejudica as plantas. O maior problema é que muitos fazendeiros não tem sementes.


                  Mianmar está localizada no sudeste asiático

Tudo se foi com o vento, disse Zaw Win, um fazendeiro em Leyaim, a meia hora dos limites de Yangun. Suas reservas de arroz, que poderiam ter durado até novembro, foram levadas pela tempestade. A colheita principal normalmente é plantada esse mês e colhida em novembro.

Para ajudar com as necessidades imediatas, o mosteiro na vila Painal Kone distribuiu arroz de seus estoques na sexta-feira. Alguns moradores, especialmente nas áreas mais ao sul, disseram que o governo estava dando rações de arroz.

Qualquer um com o telhado destruído recebe uma ou duas xícaras de arroz, disse Htayl Lwin, um comerciante de ovos de pato. Na entrada de sua casa construída em cima do rio que corre ao lado de Bogalay, seus livros manchados e ainda úmidos estão secando. Ele se considera sortudo que ninguém de sua família morreu. Nos dias depois da tempestade, vários corpos passaram flutuando pela sua casa.

Htayl Lwin disse que as áreas mais afetadas eram ao longo da costa. Em uma vila, Kyme Kyoung, somente duas pessoas sobreviveram.

Cerca de 400 pessoas sem casas buscaram abrigo no salão de oração do monastério local, incluindo Win Kyi, que foi separada de seus dois filhos quando o ciclone atingiu a cidade. Ela também perdeu sua casa.

Desde então, todo dia ela viaja até o posto de controle da polícia para buscar os nomes dos mortos. Na sexta-feira, a polícia disse que um de seus filhos havia sido localizado, apesar de ter se ferido na tempestade. Eles se abraçaram por um longo tempo, ela disse, quando se reencontraram.

Ele me disse, estou vivo. Todo meu corpo dói, mas eu voltei para minha mãe, ela disse.

Win Kyi ainda espera por notícias de seu outro filho.

              Clique na imagem e veja o infográfico sobre a formação dos ciclones

Veja também:

Leia mais sobre: Mianmar - ciclone

    Leia tudo sobre: mianmar

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG