Titanic: Vilarejo irlandês relembra perdas de 1912

Silêncio dá lugar a lembranças e homenagens aos Quatorze de Addergoole, jovens emigrantes que tentariam a sorte na América

The New York Times |

Durante décadas, chalés de pedra abandonados foram a única marca dos Quatorze de Addergoole, jovens emigrantes que deixaram a região dos pântanos do Condado de Mayo com sonhos de buscar a sorte na América e com isso em mente compraram passagens para embarcar no Titanic em seu último porto de saída, Queenstown, Irlanda.

Trajeto: Cruzeiro refaz viagem do Titanic com parentes de vítimas do naufrágio

NYT
Patricia Keigher e Toss Gibbons em sino da igreja que tocará pelos 14 emigrantes que tentaram buscar a sorte na América

Essas pessoas de Addergoole, que fica no oeste da Irlanda, optaram por lamentar silenciosamente a sua perda, resultado de uma das tragédias mais famosas do século 20. A dor era demais para os moradores da cidade suportarem, já que haviam perdido muitos de seus parentes no êxodo decorrente da pobreza que atingia o país.

Hoje, 100 anos após o naufrágio do Titanic, o silêncio da cidade foi substituído por uma cacofonia de lembranças para os 11 membros dos Quatorze de Addergoole que morreram no acidente e os 3 que sobreviveram. Um documentário sobre a tragédia da cidade foi feito com depoimentos dos moradores, uma peça de teatro encenada e uma semana de eventos comemorativos preparada.

É uma ironia que a decisão da cidade de demonstrar sua tristeza de uma maneira tão pública seja feita à medida que Addergoole é mais uma vez parte de um drama maior que ela própria.

Crise

A crise financeira que atinge a zona do euro está assustando os jovens irlandeses e levando-os a buscar trabalho no exterior após um breve período em que, pela primeira vez após décadas, muitos emigrantes haviam voltado para casa para conseguir melhores oportunidades de emprego.

No ano passado, Addergoole, que possui uma população de menos de 1mil pessoas, perdeu pelo menos 50 homens e mulheres na cada dos 20 anos de idade para a emigração e as crianças de uma escola local - que ainda mantém um registro de longa data de estudantes que foram para os Estados Unidos em busca de trabalho - falam novamente sobre deixar o país para procurar trabalho.

"O que há de errado com esse país que não consegue trabalho para os nossos jovens?", perguntou Pauline Barrett, 60 anos, cujo tio-avô James Flynn morreu aos 28 anos a bordo do Titanic com destino a Nova York, onde sonhava encontrar um emprego. "Isso já aconteceu tantas vezes. E está acontecendo de novo." 

A Sociedade Titanic de Addergoole - formada há 10 anos, quando os recém-chegados perceberam que a região estava perdendo a sua história - expandiu enormemente suas ambições, que evoluíram de tocar um sino da igreja no aniversário das mortes a bordo do Titanic para uma semana de apresentações e atividades para marcar a data.

"Isso nos dá a habilidade de construir uma identidade", disse o Paul Nolan, presidente da sociedade, cujo filho Dylan está se preparando para se mudar para a Alemanha. "É um processo difícil conseguir atrair o turismo para nosso país e eu acredito que esse seja o primeiro passo para atrair as pessoas: um aspecto mais cultural da nossa sociedade."

*Por Doreen Carvajal

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