The New York Times Magazine: o anti-iPod

Quando a Microsoft lançou o Zune, o tocador de MP3 portátil foi o último de uma longa lista de equipamentos eletrônicos fadado a aniquilar o iPod. E vamos deixar algo bem claro de início: esta coluna não faz qualquer sugestão que haja uma evidência incrível que isso esteja mesmo acontecendo.

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Os números mais recentes do NPD Group, empresa que coleta dados sobre o varejo, mostraram que o aparelho da Apple detém 70% do mercado de tocadores de MP3 portáteis, comparado a 3% para o Zune (estes dados colocam a Microsoft em terceiro lugar - atrás da SanDisk, que detém 10% do mercado).

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Zune na versão marrom
Zune na versão marrom
Ao invés disso, o que me pergunto através desta coluna é o seguinte: quem são os compradores do Zune, e por quê? Afinal, deixando de lado a fatia de mercado, mais de 2 milhões deles foram vendidos desde que sua primeira versão surgiu, no final de 2006. Robert Schaltenbrand sugere que esses consumidores simplesmente acham que o produto da Microsoft é superior.

A análise não causa surpresa, pois Shaltenbrand é o gerente de marca do Zune. Mas, sejamos justos: o produto oferece algumos recursos diferentes, como um transmissor de radio FM embutido. E há também o Zune Social, rede social que permite que seus usuários troquem músicas e playlists entre si, graças a seu suporte a redes sem fio.

Aliás, esta idéia ¿ e a comunidade que ela implica ¿ são intensamente promovidas: você e seus amigos do Zune podem trocar músicas; sente-se em um café e você poderá encontrar perto de você outros Zunesters, os usuários do Zune, e comparar suas preferências com as deles; e assim por diante.

Porém, o recurso mais marcante do Zune parece ser que o aparelho não é um iPod. Jesse Thorn, apresentador do programa de rádio público (e podcast popular) The Sound of Young America, é um fã assumido do Zune, elogiando, por exemplo, seu suporte ao sincronismo sem fio com o computador. Além disso, ele se gaba de ter conseguido atualizar seu Zune de primeira geração com o software desenvolvido para as versões mais recentes ¿ diferentemente do iPod Touch, da Apple, cujas atualizações são cobradas do usuário. 

Acontece que Thorn sempre teve uma certa resistência em comprar um iPod, tendo sido desmotivado, inicialmente, pelo preço e mais tarde pelo número cada vez mais crescente de pessoas satisfeitas consigo mesmas por estarem carregando um objeto onipresente.

Pode parecer hostil, mas Thorn na verdade é bastante bem humorado. Em Jordan Jesse Go, um podcast mais informal que ele co-apresenta com seu amigo Jordan Morris, a dupla regularmente faz piadas sobre o recurso que permite trocar músicas entre os usuários. Thorn também parece se divertir ao dar exemplos de algumas excentricidades no design do aparelho, como a inclusão do marrom dentro da opção de cores da primeira geração do Zune.  

Este não é o tipo de atitude associado à devoção fanática a uma marca. Da mesma forma, Julia Sliwinski, uma estrategista de mídia de Nova York, gosta do Zune que ganhou de seu namorado, mas nunca detectou aquele tipo de paixão por um produto cultuado, como o apego que tinha por seu aparelho de MP3 anterior - o Rio Karma. Ela ainda não trocou músicas com outros usuários do Zune - não conheço nenhum, disse ela. Quando questionada diretamente, ela admite que provavelmente não comparia um iPod, pois se diz um pouquinho anti-Apple.

Comunidade e familiaridade parecem ser um contra-ataque razoável da suposta atração do iPod como um possibilitador de individualidade, que permite que seus usuários se deixem envolver por suas próprias preferências musicais. Porém, na vida real, é bem menos provável que o cliente do café que busca outros usuários do Zune acabe encontrando algum do que desperte uma ligeira curiosidade sobre sua excêntrica escolha de produto.

Entretanto, ter um iPod parece uma atitude quase tão individualista como um terno de flanela cinza. Junte a isso aqueles anúncios da Apple mostrando um arrojado Mac contra a imagem infeliz de PC: eles podem até impulsionar as vendas, mas também já inspiraram causticidade entre aqueles que acham que os fiéis defensores da Apple são esnobes e presunçosos.

Provavelmente não ajudou muito quando um cara surgiu na internet com o logo do Zune tatuado pelo corpo, declarando ser fã incondicional do aparelho, e foi intimidado por insultos típicos do pátio de uma escola (em um sinal potencialmente desanimador, ele declarou recentemente sua decepção em relação ao progresso do Zune e sua intenção de recobrir pelo menos uma de suas tatuagens).

Schaltenbrand, o gerente de marca do Zune, insiste em afirmar que, deixando de lado a reação ao iPod, os fãs autênticos do Zune e seu elementos sociais são uma parte importante de seu crescimento (gradual). Ainda assim, é difícil negar que o antagonismo Microsoft-Apple de longa data é estranhamente distorcido no mercado de tocadores de MP3 ¿ o iPod, de uma certa maneira, parece ser tanto elitista como dominante no mercado. Isso acaba dando margem para alguma rivalidade injusta. Pode ser que a Microsoft não se veja dessa maneira, mas, é bem possível que, no caso do mercado de tocadores de MP3, ela esteja aprendendo a pensar diferente.

(Rob Walker escreve a coluna Consumed para a publicação The New York Times Magazine)

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