The New York Times Magazine: depois da disputa

Quarenta e sete anos depois de ter olhado pela última vez por entre as grades de dentro de um presídio da Carolina do Sul, onde estave preso por liderar um protesto contra a segregação em Columbia, James Clyburn ocupa um cobiçado gabinete localizado no segundo e terceiro pisos do Capitólio americano, bem ao lado do presidente do Congresso americano. Na parede acima de sua poltrona está a fotografia em preto e branco do Reverendo Martin Luther King Jr. discursando sobre um palco em Charleston, com o jovem Clyburn e um grupo de homens ao fundo.

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Quando conversei com Clyburn, naquele dia do início de junho, Barack Obama, que tem a mesma idade de uma das três filhas de Clyburn, tinha acabado de ser nomeado o representante de seu partido para a campanha presidencial. Clyburn, o parlamentar negro que ocupa o mais alto posto em Washington, me contou que naquela noite da final das primárias ela havia saído do National Deomocratic Club apenas 15 minutos antes do horário que Obama estava agendado para falar. Clyburn voltou para casa para se resguardar, ele temia perder o controle de suas emoções.  

De repente, aqui estamos nós, 60 anos depois que Strom Thurmond dividiu o Partido Democrata por causa de uma coisa tão simples, algo que mal havíamos ouvido falar ¿ pois ele não queria que as forças armadas fossem integradas, disse Clyburn, lentamente. Aqui estamos nós, 45 anos depois do discurso Eu tenho um sonho. Quarenta anos após os assassinatos de Kennedy e de Luther King. E este partido, do qual faço parte por tanto tempo, este partido que já foi acusado de não ter dado valor aos negros, está prestes a nomear um afro-americano para o mais alto posto da nação. Como descrever isso? Todos aqueles anos que passei em celas de prisões, imaginando se algo do que eu estava fazendo teria algum impacto algum dia. Ele balançou a cabeça, em silêncio. 


Martin Luther King discursa no Lincoln Memorial, em Washington DC / Getty Images

Porém, enquanto os eleitores democratas negros de diversos distritos mostraram seu apoio a Obama, os 42 membros do Congressional Black Caucus - o bloco parlamentar de negros no congresso americano - se dividiram mais ou menos pela metade entre Obama e Hillary Rodham Clinton, e os ministros e prefeitos negros do país mostraram uma tendência favorável a Hillary. O próprio Clyburn se recusou a apoiar um candidato nas primárias deste ano até o final do processo, alegando que seu papel de liderança exigia sua neutralidade.  

É difícil para qualquer intruso compreender totalmente o pensamento que levou a muitos líderes negros da velha guarda a rejeitar a candidatura de Obama. Em um nível mais superficial, aqueles que apoiaram Hillary o fizeram em grande parte como resultado de uma combinação de familiaridade e fatalidade. Se em 2007 você fosse um ativista ou líder negro de longa data, baseado em sua própria experiência de vida, você provavelmente acreditaria que nenhum negro conseguiria a nomeação do partido, ainda mais a presidência. Você conheceria a personalidade dos Clintons, ou pelo menos saberia quem eram seus aliados na comunidade.

Porém, talvez o que não se sabia sobre Obama não fosse somente isso. O que ele sabia sobre você? Obama só tinha dois anos de idade quando Luther King fez seu famoso discurso. Compartilhar daquela experiência não era, necessariamente, um pré-requisito para ser aceito pela liderança negra, mas isso também não significava que Obama reconheceria, por completo, os sacrifícios feitos por eles.


Martin Luther King lidera protesto por direitos civis / Getty Images

A transição entre as gerações que está reordenando os negros na política não começou este ano. Isto já vem ocorrendo, de forma gradual e silenciosa, há pelo menos uma década: jovens afro-americanos, e Barack Obama está entre eles, vêm desafiando os mais velhos em distritros tradicionalmente negros.

O que a luta para a nomeação dos Democratas deste ano acarretou foi acelerar tal transição, expondo a situação como nunca havia antes ocorrido. Para muitos jovens afro-americanos, a resistência da geração dos direitos civis à candidatura de Obama representou o fracasso de seus pais em aceitar o sucesso de sua própria luta ¿ para aceitar a idéia de que a política negra pode estar se extinguindo no meio da política americana, da mesma forma que o governo de países como a Irlanda e a Itália há muito tempo se juntaram à tendência de centro.

A evidência mais recente de tensão entre Obama e alguns outros líderes negros estourou na TV no mês passado, depois que um microfone do programa Fox News captou a fala do Reverendo Jesse Jackson, que dizia cruamente que não se importaria nem um pouco em castrar o candidato escolhido pelo seu partido. 

O reverendo estava irritado porque, durante uma palestra no South Side de Chicago no Dia dos Pais, Obama havia tecido críticas severas aos pais negros por fugirem de suas responsabilidades. Para Jackson, aquilo deve ter soado como um candidato à presidência dos Estados Unidos tentando garantir sua boa reputação junto aos brancos à custa dos negros - algo que ele se recusou a fazer veementemente mesmo durante sua segunda campanha presidêncial em 1988, quando conseguiu muito mais votos do que qualquer um pudesse imaginar .

Uma das reações públicas mais interessantes partiu do filho de reverendo, Jesse Jackson Jr, congressista de 43 anos do Estado de Illinois e co-responsável pela campanha de Obama. Em uma declaração virulenta, o jovem Jackson afirmou estar profundamente ultrajado e decepcionado pelo homem a quem se referiu, com um pouco de frieza, como Reverendo Jackson.


Oratória é um dos pontos fortes do democrata / Getty Images

Esta troca de farpas entre os dois Jacksons atingiu um ponto básico do choque de gerações: qual é o verdadeiro significado de liderança negra. Quase todos os líderes negros que alcançaram poder politico nos anos subseqüentes ao movimento pelos direitos humanos eram membros do clero ou do próprio movimento, e eles sempre definiram liderança como o ato de falar pelos negros americanos. Para eles, confrontar um sistema inerentemente branco e racista era a principal missão.

Para quase todos os politicos negros de talento dos anos pós-guerra, como James Clyburn e Charles Rangel, o ápice do poder era conseguir chegar ao governo municipal ou à Câmara dos Deputados. Isto era o máximo que um político conseguia alcançar através de um eleitorado predominantemente negro.

Entretanto, essa nova classe emergente de politicos negros, homens (e algumas poucas mulheres) de idade próxima à de Obama e de Jesse Jr., buscam uma carreira política mais ampla. Confortavelmente encaixados dentro do sistema vigente, educados em universidades ao invés de seminários, eles provavelmente se vêem muito mais como embaixadores da comunidade negra do que como porta-vozes da mesma, o que muitas vezes significa exaltar valores da classe média em bairros urbanos, como o fez Obama na ocasião do Dia dos Pais. As ambições destes políticos vão muito além de conseguir um lugar seguro, destinado aos negros.

A candidatura de Obama foi recebida friamente pela elite negra de Washington. Ele se juntou ao Congressional Black Caucus quando chegou em 2005, mas participou apenas de algumas reuniões. Como era o único senador do grupo, tinha pouca interação diária com seus colegas deputados.

A maioria dos membros do Caucus não levava a nomeação de Obama muito a sério, que era vista da mesma forma pelos envolvidos na campanha de Hillary. Eles calculavam que seria necessária uma fatia enorme do eleitorado negro para arrancar a nomeação das mãos de Hillary. Ainda assim, os conselheiros da candidata, tanto os brancos como os negros, consideravam tal fato quase impossível. 

Em nossa campanha, havia uma arrogância e uma total rejeição em relação a Obama -ele era considerado um peso leve, que não conseguiria o apoio dos negros, me contou recentemente um assessor de Hillary. Muitos líderes negros não o conheciam, não o consideravam negro o suficiente, não achavam que ele era parte do movimento pelos direitos civis.

A questão sobre Obama ser suficientemente negro frequentemente vinha à tona durante discussões. Ela se referia à noção compartilhada por alguns líderes negros de que Obama não havia vivenciado a experiência afro-americana, e ponto final. O pai de Obama era um acadêmico queniano; sua família veio para a América através de bolsas de estudos, não acorrentada.


Carismático, Obama é tratado como "estrela do rock" por onde passa / Getty Images

Internamente, os estrategistas de Hillary traçaram a meta de conseguir a metade dos votos negros nas primárias do sul do país, embora calculassem que precisariam de apenas 30 por cento do eleitorado para vencer Obama. No último outono, com a aproximação das primárias, suas pesquisas mostravam que teriam mais de 60 por cento do eleitorado negro.

Poucas horas antes da vitória de Obama no estado de Iowa, o apoio dos negros à Hillary começou a enfraquecer. Os eleitores negros, tanto os jovens como os mais velhos, até então não haviam acreditado que um negro pudesse vencer em Estados brancos; quando ele o fez, uma onda de orgulho varreu os bairros afro-americanos do Sul. Depois de Iowa, as pesquisas internas de ambos os candidatos mostraram que Obama conseguira os votos de 75 a 80 por cento dos negros nos Estados primários.

No mês de março, afetado pela controvérsia persistente em virtude dos comentários oriundos dos sermões do Reverendo Jeremiah Wright, um ícone da comunidade negra de Chicago e antigo pastor de Obama, o candidato proferiu o agora famoso discurso sobre o racismo.  Voltado principalmente para renovar a confiança dos eleitores brancos em relação à controvérsia de Wright, o discurso marcou também a primeira vez que Obama mencionou publicamente o choque entre as gerações negras nos Estados Unidos que sua própria campanha havia exposto. 

Para homens e mulheres da geração do Reverendo Wright as lembranças das humilhações, das dúvidas e do medo ainda não se foram, assim como a raiva e a amargura daqueles anos¿ Algumas vezes, essa raiva é explorada por políticos para angariar votos em linhas raciais ou para compensar seus próprios fracassos, disse Obama.

Muitos incumbentes negros que apoiavam Hillary agora se vêem tentando explicar como acabaram se afastando tanto de seus eleitorados; muitos deles estão se preparando para enfrentar as eleições mais desafiadoras dos últimos anos.

Políticos da geração pós-Black Power incorporam a principal dualidade da América negra moderna. De um lado, eles são os exemplos mais visíveis da crescente classe média empreendedora e de alto nível de escolaridade, apresentada pela primeira vez aos brancos americanos na década de oitenta através de marcos culturais, como The Cosby Show.

Segundo uma análise da Pews Economic Mobility Project, quase 37% das famílias negras está em um dos três patamares de renda mais alta em 2005, comparado com os 23% de 1973. Mas, por outro lado, esses líderes negros são constantemente confrontados em suas próprias cidades por bairros estagnados de predominância negra, locais onde a pobreza se prolifera.

No auge do movimento dos direitos humanos, os males e os objetivos eram relativamente claros: havia leis discriminatórias que negavam aos americanos negros seus direitos como cidadãos, e a meta era conseguir que tais leis fossem revogadas e uma legislação federal mais progressista fosse aprovada. Hoje em dia as desigualdades sociais são mais sutis ¿ escolas de nível inferior, falta de funcionários, carência de moradia de baixo custo ¿ e as soluções são mais ardilosas.

Esta confusão sobre a direção do movimento simplesmente imobilizou o principal grupo dos direitos civis da nação, o NAACP. Desde sua fundação por W.E.B. Du Bois e outros, em 1909, a organização é sinônimo da longa jornada em busca de igualdade racial.  Nos últimos anos, o NAACP vem perdendo lugar entre aos jovens negros americanos e agora é desafiado por uma nova classe de concorrentes negros on line. Estes ativistas estão focados em uma reforma das instituições ¿ isto é, o Congressional Black Caucus e o próprio NAACP ¿ que eles afirmam terem se tornado muito amarradas ao passado e afastadas demais de seus constituintes.

Dentre as vozes mais vibrantes deste debate está o Color of Change, site desenvolvido para repetir o modelo da iniciativa MoveOn entre os internautas negros. O Color of Change foi fundado em 2005 por dois ativistas de Bay Area, Van Jones e James Rucker, uma semana depois que começaram a aparecer imagens de bairros negros devastados em New Orleans. O grupo agora se orgulha de seus 425.000 membros, dos quais cerca de 50% é constiuído por brancos. A maior parte dos integrantes tem de 35 a 55 anos e provavelmente se enquadra nas categorias classe média ou afluente ¿ em outras palavras, o mesmo grupo de pessoas que constituíam a base de apoio da NAACP.

Não há muita coerência ideológica entre as raízes negras emergentes. Não há um plano de ação claro sobre como unir as diferenças entre as famílias negras de classe média e outras milhões de famílias que ficaram para trás. Mas existe uma forte percepção que os líderes da geração dos direitos humanos precisam, urgentemente, de um plano de aposentadoria.

Vítimas não fazem as coisas acontecerem, disse Rucker, que trabalhou para o MoveOn. As coisas estão mudando em relação ao que acontecia 30 anos atrás. As lutas estão mudando. E existe uma infra-estrutura que não está produzindo resultados. Vejam os índices de encarceramento, as diferenças entre brancos e negros. O que as antigas organizações estão conseguindo realizar?

O principal, é que as raízes negras tornam claro para politicos e defensores dos direitos civis que só o fato de ser negro não faz de alguém um líder. Ativistas on line atacaram o Congressional Black Caucus por, dentre outras coisas, apoiarem William Jefferson, o deputado negro acusado de receber propinas.

Alguns membros precisam partir ou se atualizar para serem justificados, disse Rucker. A questão não é se livrar da NAACP ou de nossos membros no Congresso. É simplesmente querer ter orgulho de nossos líderes.

Caso vençam em novembro, Obama e seus conselheiros irão se confrontar com um enigma nada familiar na política americana: como ser, ao mesmo tempo, presidente dos Estados Unidos e a voz mais poderosa da América negra.

Diversos políticos negros com quem conversei mostram claramente estarem preocupados que a presidência de Obama na verdade diminua a representatividade dos negros americanos em Washington, e não o contrário ¿ eles temem que o fim da política negra, se é isso que estamos testemunhando, na realidade poderá também significar o declínio abrupto da influência negra.


Campanha de Obama aposta no desejo de mudança ("change") do eleitorado / Getty

O argumento aqui é que, ao se tornar presidente, Obama seria vigiado de perto por quaisquer sinais de segmentarismo ou de ressentimento racial, teria menos espaço para advogar pela pobreza urbana, ou para desafiar a injustiça racial. Além disso, sua presença no Rose Garden pode minar a causa já enfraquecida em prol da ação afirmativa em contratações e admissões escolares. O próprio Obama ofereceu um apoio morno a um programa de ação que certamente o tornou apto a alcançar este momento.

Como candidato, Obama traçou um programa de governo em prol dos direitos civis e da justiça criminal, voltado primeiramente aos afro-americanos urbanos. Sua plataforma inclui direcionar o foco do Departamento de Justiça nos índices de criminalidade. Entretanto, os conselheiros negros de Obama advertem que ninguem deve esperar que ele se comporte como um líder dos direitos civis, colocando as causas negras à frente de qualquer outra.

(Matt Bai escreve sobre política para a revista do "The New York Times" e é o autor do livro The Argument: Inside the Battle to Remake Democratic Politics.)

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