Territórios vizinhos ressaltam problemas da economia da França

Com taxa de desemprego de 8%, cidade de Sélestat, na Alsácia, se inspira na alemã Emmendingen, que tem 10 vezes mais oferta

The New York Times |

A tradicional cidade de Sélestat, localizada no centro da região da Alsácia, na França (ou Alsace para os francese) possui uma extraordinária biblioteca humanista estabelecida no século 15. Um motivo de pouco orgulho, no entanto, é o fato de a cidade ter uma taxa de desemprego de 8%, muito maior do que outras cidades do outro lado da fronteira, na Alemanha.

Há apenas 30 km de distância, a cidade de Emmendingen, com 27 mil habitantes e apenas um pouco maior que a vizinha Sélestat, tem uma taxa de desemprego menor que 3%. Entre aqueles com idade inferior a 25 anos, a taxa de desemprego bate 23%. Em Emmendingen ela é de apenas 7%.

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Franceses buscam emprego em agência de Sélestat, na França
As razões para as disparidades entre as duas cidades têm sido o foco da campanha de reeleição do presidente francês, Nicolas Sarkozy . Por mais de uma vez, Sarkozy manisfestou abertamente sua admiração pelo sistema germânico. Enquanto a França se debate com o maior índice de desemprego dos últimos 12 anos, a taxa na Alemanha está em 7,4%, a menor desde a unificação em 1991.

Se eleito, o mandatário francês propõe um referendo para aprovar regras para flexibilizar o mercado de trabalho e introduzir um sistema de aprendiz ao modelo alemão. Ele também quer estimular o trabalho em meio período e reduzir o salário desemprego, como os alemães fazem.

Os rivais socialistas de Sarkozy, como François Hollande, rejeitam a maior parte das ideias e se apegam a um modelo mais socialista, com aumento dos gastos do Estado em educação e empregos. Muitos franceses admiram o rigor e a disciplina alemães, mas não gostam da ideia de viver no mesmo modelo. É famosa a frase de que os franceses trabalham para viver, enquanto os alemães vivem para trabalhar.

Crise financeira

Com a crise financeira europeia, o relacionamento entre Sarkozy e a chanceler alemã, Angela Merkel, melhorou. A representante alemã até considerou a ideia de fazer campanha para Sarkozy, mas voltou atrás após perceber que a iniciativa poderia ser um tiro no pé do político francês.

Sarkozy tem esperanças que o eleitorado francês perceberá a profundidade da crise do país e será mais receptivo à adoção de ideias baseadas no modelo alemão. Mas isso, por enquanto, é apenas esperança.

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Uma coisa, entretanto, é certa. A economia alemã tem crescido e se fortalecido, aumentando ainda mais a diferença de poderio econômico com a França. A Alemanha tem mantido sua base industrial e competitividade, tanto em termos tecnológicos como de custo, enquanto a França sofre com a falta de um grande setor de indústrias de médio porte e depende muito mais de serviços. A porção de exportações da França tem caído sistematicamente, enquanto na Alemanha ocorre exatamente o oposto.

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Trabalhador da manufatureira Wehrle-Werk A.G., onde trabalha há de 21 anos em Emmendingen, na Alemanha
Em termos reais, os salários franceses aumentaram enquanto os alemães diminuíram, fazendo com que os trabalhadores franceses sejam mais caros e menos produtivos e competitivos. O seguro desemprego na França é de 23 meses para aqueles com menos de 50 anos e de três anos para aqueles com mais de 50, muitos dos quais nunca mais voltam a trabalhar. Na Alemanha, depois das reformas trabalhistas Hartz, o seguro desemprego dura 12 meses.

Garantias

Para pagar o benefício social, o custo por hora do trabalhador francês é 11% maior do que na Alemanha. Porém, os alemães contam com menos segurança de emprego e mais alemães têm empregos de meio período. Eles também não tem um salário mínimo, como os franceses.

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O resultado prático é uma disparidade visível nas duas cidades vizinhas. De acordo com a Agência Federal de Emprego da Alemanha, há 10 vezes mais ofertas de emprego por mês na cidade do lado alemão do que na cidade do lado francês.

Muitos alemães cruzam a fronteira para trabalhar. O mesmo não acontece com os franceses, pois eles não falam alemão e nem mesmo o dialeto alsaciano, que costumava ser falado nos dois lados. Os únicos franceses que cruzam a fronteira, o fazem para ir ao parque de diversões Europa-Park, o maior da Alemanha e o terceiro maior na Europa.

Os salários do lado alemão também são maiores para o mesmo tipo de trabalho, as mercadorias são mais baratas, o custo para empregar um funcionário em período integral é menor e o relacionamento entre patrão e empregado é mais flexível, livre do que as centralizadas regulamentações, ministérios e sindicatos, uma realidade tipicamente francesa.

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Centro de Sélestat, na região da Alsácia, na França
Cultura

Outra parte do problema é cultural. Na França, cursos vocacionais e profissionalizantes, típicos em um projeto de aprendiz, são sinais de estupidez ou de falta de inteligência. Na Alemanha, os jovens não seguem a tendência de ir para a faculdade, mas aos 16 eles começam a aprender algo que será usado na indústria, ao mesmo tempo em que eles estudam para um curso de formação técnica e trabalham por um salário. Na maior parte dos casos, eles conseguem um trabalho de tempo integral nas indústrias em que foram treinados.

Mas algumas mudanças já começam a acontecer. Roxane Pierrel, responsável por uma agência de empregos em Sélestat, diz que algumas empresas estão trabalhando em parcerias com escolas para promover programas de aprendizes e que cada vez mais jovens estão vendo a vantagem de ter um salário em vez de conviver com o desemprego.

O prefeito de Sélestat, Marcel Bauer, também já nota mudanças. Ele se diz satisfeito com os programas de aprendiz que estão sendo desenvolvidos na cidade e acredita que o modelo pode ser copiado no resto da Franca. No entanto, ele admite certas dificuldades, como o controle exagerado do Ministério da Educação francês em relação aos projetos. Bauer também lamenta o fato das constantes lutas trabalhistas na França, frequentemente não consensuais e agressivas.

“Na Alemanha, o povo aceita que uma certa dose de esforço tem de ser feita na hora da crise, trabalhar menos e ganhar menos para manter seus empregos. Mas, na França, a resposta imediata seria greves e pessoas batalhando nas ruas.”, observou.

Para melhorar a situação de emprego na cidade, Bauer vem promovendo aulas de alemão para estudantes locais e também tentando aumentar parcerias com o prefeito de Emmendingen, Schlatterer. Ambos os prefeitos são favoráveis à cooperação França-Alemanha. ”Quando França e Alemanha estão próximas uma da outra, a Europa funciona”, diz Schlatterer.

*Por Steven Erlanger

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