Tentação corrói pacto de silêncio entre mineiros no Chile

Frequentemente citado acordo entre os 33 homens parece estar se desgastando; mineiros pedem de US$ 40 a US$ 25 mil por entrevista

The New York Times |

Os familiares dos 33 mineiros que ficaram presos por 69 dias tinham dito que uma missa especial no domingo seria uma chance de fechamento para eles.

Quando um deles, Omar Reygadas, 56, deixava o serviço religioso e caminhava com sua família até a barraca onde viveram enquanto os homens estavam presos, cinegrafistas e fotógrafos o cercavam. Sua bisneta de dois anos foi empurrada pela multidão e começou a chorar. Quando Reygadas a pegou no colo, cinegrafistas se aproximaram com suas câmeras.

“Eu tive pesadelos nestes dias”, disse Reygadas na apertada barraca, conforme repórteres se acotovelavam por espaço. “Mas o pior pesadelo de todos são vocês”.

Afirmando ter assinado um pacto para não revelar detalhes sobre o seu calvário, os mineiros têm dito pouco desde o resgate de quarta-feira.



Muitos deixaram claro, contudo, que a disputa por seus relatos pessoais já havia começado, refletindo a complexidade por trás de uma história de esperança e perseverança marcada pelos desafios econômicos enfrentados pelos mineiros do Chile.

Os mineiros pediram de US$ 40 a US$ 25 mil por entrevistas. Alguns meios de comunicação têm oferecido levar os mineiros para Japão, Alemanha ou Itália, para entrevistas exclusivas.

Mesmo um mineiro, Marcos Aciares, que deveria estar na equipe que ficou presa no fatídico cinco de agosto, mas não estava, tem lucrado com a situação. Aciares, 43, disse que cobrou de uma emissora de TV do Chile 2 milhões de pesos por uma entrevista.

Nem todos os mineiros têm se recusado a falar sem pagamento.

A uma curta caminhada da casa de Mamani em uma favela local, Susana Valenzuela, 52, companheira de um mineiro, Yonny Barrios, 50, não teve nenhum problema em falar.
Victor Ruiz Caballero/The New York Times
Omar Reygadas, um dos 33 mineiros, conversa com jornalistas no acampamento Esperanza


“Apenas me traga uma garrafa de sidra!”, ela disse a um grupo de notícias argentino, se referindo a uma bebida popular na Argentina.

Os argentinos prontamente despacharam um produtor para comprar uma garrafa. Mais tarde, o tranquilo Barrios apareceu na varanda para dizer olá.

“Eu perdi a esperança várias vezes”, ele disse sobre os primeiros 17 dias antes das equipes de resgate encontrarem os mineiros vivos. “Mas eu tinha Deus para me ouvir”, acrescentou. “Eu não posso dizer muito mais”.

O frequentemente citado pacto entre os 33 homens parece estar se desgastando. Por exemplo, a ABC News disse estar preparando uma entrevista exclusiva com Mário Sepulveda, 40, que deixou a mina sob aplausos entusiasmados das equipes de resgate.

“A ABC licenciou material da família”, disse Alison Bridgman, porta-voz da empresa, contestando a ideia de que a ABC pagou pela entrevista. Sepúlveda falou ao tablóide britânico The Mail no domingo porque o jornal tratou sua família “com dignidade e gentileza”, disse o artigo com base na entrevista.

* Por Alexei Barrionuevo e Simon Romero

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