Temporada aberta contra jornalistas na Rússia

Onda de ataques contra jornalistas e ativistas políticos revela cultura de impunidade no país

The New York Times |

Mikhail Beketov foi alertado, mas não deixou de escrever sobre estranhas negociações de terras, empréstimos dúbios e dinheiro por baixo dos panos. Tudo isso era evidência, segundo ele, da extrema corrupção existente no subúrbio de Moscou.

"Na primavera passada, eu pedi a renúncia da liderança da cidade", disse Beketov em um de seus últimos editoriais. "Alguns dias depois, meu carro explodiu. O que acontecerá comigo agora?"

Não muito tempo depois, ele foi agredido na frente de sua casa e seu corpo abandonado sangrando na neve. Seus dedos foram esmagados e, três dias depois, tiveram de ser amputados, como se os seus agressores quisessem ter certeza de que ele nunca escreveria outra palavra. Ele também perdeu uma perna. Agora, aos 52 anos, está em uma cadeira de rodas, seu cérebro tão danificado que não consegue dizer uma palavra.

The New York Times
O jornalista Mikhail Beketov é visto em hospital no subúrbio de Moscou

A polícia prometeu uma investigação completa, mas mal olharam além de suas mesas. Vídeos de segurança foram ignorados. Vizinhos não foram entrevistados. Informações sobre a insatisfação de políticos com Beketov foram tratadas como "não confirmadas", de acordo com entrevistas com autoridades e moradores da região.

Procuradores, que repetidamente recusaram os pedidos de proteção feitos por Beketov, assumiram o caso, mas não conseguiram muita coisa. Os amigos mais próximos de Beketov disseram estar disponíveis para falar sobre quem do governo teria sido mais prejudicado por suas matérias. Mas nunca foram questionados.

Dezoito meses depois, nenhuma prisão foi feita.

A violência anunciada foi o início de uma onda de ataques e perseguições oficiais contra jornalistas, ativistas e políticos da oposição daquela região, que inclui os subúrbios de Moscou, mas não a própria cidade. Raramente, quando muito, alguém é responsabilizado.

Um editor foi agredido diante de sua casa e os agressores levaram apenas cópias de seus artigos e outros materiais que seriam disponibilizados na edição do dia seguinte, não a sua carteira ou celular. As autoridades locais insistem que ele se feriu porque estava bêbado.

Pyotr Lipatov, outro jornalista, foi socado por policiais à paisana após uma passeata. Tudo foi registrado em vídeo. Mesmo assim, a polícia liberou uma declaração dizendo que ele machucou a si mesmo ao ser acidentalmente empurrado pela multidão.

Estes tipos de ataques ou outros meios de intimidação, incluindo agressivos esforços por parte de magistrados para fechar grupos jornalisticos ou sem fins lucrativos, servem como desencorajadores alarmantes. E em alguns casos, nos últimos anos, a violência no país tem se transformado em assassinatos contratados.

A corrupção na Rússia é generalizada e o governo geralmente funciona mal. Mas a maioria dos jornalistas e grupos sem fins lucrativos evita falar sobre estes problemas.

A cultura da impunidade na Rússia representa o exemplo mais gritante da incapacidade do país de estabelecer leis verdadeiras nas duas décadas desde o colapso da União Soviética. E este fracasso é refletido em toda a sociedade, transformando homens e mulheres comuns que estão tentando viver na nova Rússia, mas temem questionar a autoridade.

O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, tem lamentado o "niilismo legal" do país. Ainda assim, sob o governo de Medvedev e do primeiro-ministro Vladimir Putin, ele tem persistido. E entre os principais beneficiários estão os políticos do partido governante.

Ameaças e surras

Boris Gromov, governador da região de Moscou, comandou o 40º Batalhão do Exército durante a guerra soviética no Afeganistão, e seus adversários acreditam que ele governa com o sentimento de ordem de um general. Gromov, indicado por Putin, tem por sua vez indicado para os governos locais seus companheiros de guerra, incluindo o prefeito de Khimki, Vladimir Strelchenko.

Beketov muitas vezes chamou Gromov e Strelchenko de "botas de exército" e não acreditava muito em sua honestidade.

AP
Presidente Medvedev critica 'niilismo legal' da Rússia
Beketov era musculoso como um pugilista, de fala rápida, perpetualmente atrasado e inclinado a entrar para causas. Ele mesmo foi oficial no batalhão de para-quedistas do Exército, mas depois optou pelo jornalismo, trabalhando como correspondente de guerra no Afeganistão e na Chechênia. Sua vivência o deixou com aversão à postura dominadora de oficiais militares.

Ele estabeleceu seu próprio jornal, o Khimkinskaya Pravda (Khimki Verdade, em tradução literal), em 2006. Ele escrevia constantemente sobre o que considerava ser exemplos de corrupção entre oficiais locais, que eram muitas vezes membros do partido governante, o Rússia Unida.

Ele financiou o jornal por si mesmo. Com uma circulação de apenas cerca de 10 mil exemplares diários, o jornal tinha boa venda em Khimki, cuja população local chega a 185 mil, e nas cidades vizinhas, especialmente depois que Beketov emplacou dois tópicos centrais.

Seus artigos ressoaram nacionalmente quando ele questionou por que a cidade havia demolido um monumento que continha os restos mortais de pilotos combatentes soviéticos. O trabalho foi feito para ampliar uma estrada.

Ele se concentrava incessantemente no futuro da floresta de Khimki, uma região de mata virgem de carvalhos e animais selvagens, incrivelmente perto de Moscou. Sem que o público percebesse, o governo pretendia construir uma grande estrada até São Petersburgo que atravessaria a floresta. Beketov suspeitava que os oficiais secretamente lucrariam com o projeto.

Autoridades locais, desacostumadas com este tipo de crítica, se revoltaram em público. Beketov recebeu ameaças pelo telefone. Ele pediu ajuda às autoridades, mas foi rejeitado, dizem seus colegas. Ele voltou para casa um dia para encontrar seu cão morto em sua porta. Então o seu carro explodiu.

Ao invés de investigar a explosão, promotores de justiça abriram um inquérito criminal contra seu jornal. Seus amigos dizem que Beketov lhes contou que um oficial da cidade o havia alertado sobre seus artigos.

Mas ele não parou.

"Você pode imaginar quanto dinheiro as autoridades planejam lucrar com essa chamada infra-estrutura", ele escreveu sobre o plano da nova estrada. "Durante quatro anos eu observei as autoridades", ele disse. "Eu interagi com muitos oficiais de alto escalão, incluindo o próprio Strelchenko. Uma vez que a autoridades coletaram escândalos com assustadora regularidade, eu chego a uma lamentável conclusão: eles não têm vergonha".

Em uma noite de novembro de 2008, Beketov foi atacado, muito provavelmente por várias pessoas, diante de sua casa. Ele foi encontrado por um vizinho no dia seguinte.

Mesmo em coma, Beketov não estava seguro. Uma ameaça foi feita pelo telefone: vamos acabar com ele, disseram.

Seus amigos e colegas ficaram assustados e o transferiram de Khimki para um hospital melhor e mais seguro em Moscou.

Tanto a polícia quanto os promotores de justiça consideraram o caso difícil de solucionar.

Yuliya Zhukova, porta-voz da região de Moscou para a comissão de inquérito do procurador-geral em exercício, afirmou que o gabinete realizou um inquérito minucioso, mas finalmente teve de suspender as investigações por falta de provas. Ela disse que os investigadores teriam que entrevistar Beketov para fazer algum progresso, mas que os seus médicos não permitiriam isso. (Beketov não consegue se comunicar desde o ataque.)

Promessas, mas nenhuma prisão

Depois dos ataques em Khimki, Solnechnogorsk, Klin e outras regiões do país, as autoridades, aparentemente preocupadas porque a região havia desenvolvido uma reputação como zona de perigo para jornalistas, prometeram proteger os profissionais da imprensa.

"Ataques a jornalistas, naturalmente, têm repercussão especial", disse o gabinete de Gromov. "O governo regional acredita que cada caso de ataque contra jornalistas deve ser cuidadosamente investigado".

Mesmo assim, nenhuma prisão foi feita, em nenhum caso. E a perseguição não parou.

No dia 31 de março, o The New York Times entrevistou Zhukova, porta-voz dos investigadores, sobre o caso Lipatov. Segundo ele, no dia seguinte, investigadores se aproximaram dele no mercado central de Klin e disseram que queriam questioná-lo sobre o caso.

A sessão durou mais de seis horas. Lipatov disse que tentaram pressioná-lo a assinar uma declaração dizendo que havia tentado liderar uma multidão a atacar prédios da cidade, justificando assim a agressão policial. Ele disse que se recusou a assinar o documento.

Em Khimki, um novo jornal de oposição, o Khimki Our Home (Khimki Nossa Casa, em tradução literal), foi criado para dar continuidade ao trabalho de Beketov.

O editor, Igor Belousov, 50, é um homem profundamente religioso. Ele publica o calendário da Igreja Ortodoxa Russa em seu jornal. Antes de se tornar jornalista, ele foi funcionário de alto escalão da cidade, mas renunciou pelo que descreve como corrupção generalizada.

Pouco depois do lançamento da publicação, Belousov foi acusado de difamação pelos promotores de justiça e pelo prefeito Strelchenko. Em fevereiro, a polícia, sem qualquer notificação, o prendeu sob a acusação de vender cocaína. Documentos do tribunal mostram que o caso foi baseado exclusivamente no testemunho de um traficante de drogas de outra cidade que não se recordava de informações essenciais sobre o suposto crime.

"Nós tínhamos tantos jornalistas aqui, mas todos sofreram e desistiram", disse Belousov. "Só eu permaneci e agora eu vou desistir".

Por Clifford J. Levy

    Leia tudo sobre: rússiajornalismoviolência

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG