Ted Kennedy ajudou a moldar carreira política de Mitt Romney

De inimigo de campanha, senador democrata que morreu em 2009 passou a amigo de republicano, quem influenciou sobre reforma de saúde

The New York Times |

Quando o governador Mitt Romney assinou em abril de 2006 uma lei que exige que a maioria dos moradores de Massachusetts tenha direito a um plano de saúde, o senador Edward M. Kennedy estava ao seu lado, sorrindo como um pai orgulhoso. Eles estavam no palco do histórico Faneuil Hall, em Boston, um local que tinha um significado especial para ambos políticos.

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Doze anos antes, eles haviam compartilhado esse mesmo palco, mas como adversários, em uma disputa pelo Senado. Naquela época, Romney acusou Kennedy de ter feito ataques pessoais "falsos, injustos e sórdidos". Posteriormente, o governador republicano apresentou o senador democrata como um "colaborador e amigo."

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Complicada relação com Ted Kennedy marcou carreira de Romney

A complicada relação entre Romney e Kennedy - de inimigos de campanha para parceiros no apoio ao plano de saúde universal - ajudou a moldar tanto a sua carreira política quanto a sua imagem. Hoje, como candidato republicano à presidência, ele está cortejando os eleitores conservadores, um eleitorado que tem uma forte opinião a respeito de Kennedy e a abordagem de Romney em relação ao plano de saúde, que deve passar por enorme escrutínio esta semana, quando o Supremo Tribunal irá avaliar de forma semelhante a proposta defendida pelo presidente Barack Obama.

Mas por mais que tente se distanciar, Romney não consegue escapar da influência que Kennedy exerceu em sua vida política. Durante a campanha, ele usa o senador, que morreu em 2009, como um exemplo, denunciando as "políticas liberais de assistencialismo social" de Kennedy e gozando de como Kennedy "teve de hipotecar sua casa para ter certeza de que iria conseguiria me derrotar".

Ele disse que perder para Kennedy havia sido "a melhor coisa" que poderia ter acontecido com ele "porque ele fez com que eu me voltasse ao setor privado".

A tentativa de Romney de colocar dois membros da família Kennedy contra si mesmos em 1994, o levou a tomar posições em questões como o direito ao aborto e os direitos dos homossexuais das quais desde então têm se afastado, dando origem a acusações de que não se mantêm fiel a suas crenças. As propagandas políticas usads pela campanha de Kennedy, que retratavam Romney como um administrador frio e calculista dificultaram sua perda na disputa, disse um amigo.

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"Eu acho que eles não falavam a mesma língua", disse Scott M. Ferson, um assessor de Kennedy e ex-vizinho de Romney, que se tornou uma ponte entre os dois.

Mas eles chegaram a manter um certo nível de cortesia entre si. Kennedy deu seu apoio à construção de um templo mórmon em Belmont, Massachusetts, um projeto a poucos minutos da casa de Romney e muito importante para ele. Mais tarde, como governador, Romney apareceu durante a Convenção Nacional Democrata em Boston, em 2004, na inaguração de parques em homenagem à mãe de Kennedy, Rose.

Impacto

Mas foi o trabalho de Ted Kennedy no setor da saúde, uma paixão pessoal, que pode ter tido impacto mais duradouro em Romney.

A disputa de 1994 deu a Romney, na época um novato político, a sua primeira oportunidade de poder expor e explicar seus pontos de vista para os eleitores. Como um republicano do Estado liberal de Massachusetts, ele teve pouca escolha a não ser a de disputar com uma plataforma moderada. Mas Todd Domke, um republicano estrategista de Boston, acredita que os conselheiros de Romney estavam muito dispostos a "catalogá-lo" como um defensor do direito ao aborto e dos direitos dos homossexuais. (Os principais estrategistas de Romney em 1994, Charley Manning e Robert Marsh, não responderam a solicitações de comentários.)

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Vídeo do New York Times mostra Romney na época em que era governador de Massachusetts
Seis anos se passaram antes que Romney e Kennedy fossem vistos juntos em público novamente.

Romney não deu muita importância à saúde pública quando concorreu ao cargo de governador, em 2002. Mas, no outono de 2004, novas circunstâncias em Washington fizeram com que ele prestasse mais atenção ao assunto e entrasse em uma parceria com Kennedy.

Em 1997, o senador havia negociado um acordo com o governo federal que deu a Massachusetts a oportunidade de administrar o seu programa de saúde Medicaid, incluindo dinheiro extra para os hospitais que cuidavam dos pobres. Mas o governo do ex-presidente George W. Bush queria cortar esta verba, privando o Estado de receber cerca de US$ 385 milhões ao ano.

Como um governador republicano, Romney poderia argumentado por si mesmo com os republicanos de Washington. Mas Kennedy tinha certa influência em Washington e uma boa amizade com Tommy Thompson, secretário de saúde do governo de Bush. O envolvimento do senador deu a Romney uma "cobertura política", disse John McDonough, professor de saúde pública de Harvard que na época administrava um grupo de defesa dos planos públicos de saúde.

Em janeiro de 2005, no último dia de Thompson como secretário da Saúde, os dois homens o convenceram a deixar Massachusetts ficar com o dinheiro - desde que o Estado o usasse para cobrir os não segurados e aprovasse um projeto de lei depois de um ano para que isso pudesse ser feito.

Caminho

Para Kennedy, o acordo parecia um caminho para a saúde pública universal - se Massachusetts

aprovasse uma lei, ele pensou, isso poderia vir a servir como um modelo para a legislação nacional. Romney, no entanto, enxergava a saúde pública como uma preocupação fiscal e não moral. Ele via um sistema de financiamento que era "opaco e problemático", disse Tim Murphy, seu secretário de saúde na época, e pensava que conseguiria melhorar sua proposta.

Tanto para o senador quanto para o governador, o projeto de saúde foi um momento fundamental. Atualmente, Romney tem problemas ao defender a lei de Massachusetts enquanto aprova a revogação da lei federal, e busca não falar sobre sua parceria com Kennedy. No outono do ano passado, em um debate em seu Estado natal de Michigan, ele foi perguntado sobre isso.

"Obrigado por lembrar a todos sobre esse assunto", disse Romney ironicamente.

*Por Sheryl Gay Stolberg

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