Técnicos podem ser última chance de evitar desastre em Fukushima

Cerca de 180 trabalhadores enfrentam radiação e fogo para impedir que Japão seja palco de um acidente na magnitude do de Chernobyl

The New York Times |

As últimas pessoas restantes na usina nuclear Fukushima Daiichi, uma pequena equipe de técnicos que enfrentam radiação e fogo, talvez sejam a última chance do Japão de evitar um grande desastre nuclear.

Eles rastejam por labirintos de equipamentos na mais completa escuridão, interrompida apenas por suas lanternas, e usam seus ouvidos em busca de sinais de explosões periódicas conforme o gás hidrogênio que tem escapado dos reatores inflama em contato com o ar.

Eles respiram através de respiradores ou carregam desconfortáveis e pesados tanques de oxigênio em suas costas. Eles se vestem de branco, com macacões de corpo inteiro com capuzes, que fornecem pouca proteção contra a radiação invisível que atinge seus corpos.

AFP
Imagem de satélite mostra planta nuclear de Fukushima Daiichi, no Japão
Sã os 180 agentes sem rosto e sem nome que ficaram para trás. Eles se apresentaram como voluntários ou foram escolhidos para bombear água do mar sobre o combustível nuclear perigosamente exposto, que de acordo com algumas estimativas já está parcialmente em fusão e expelindo material radioativo, para evitar sua dissolução completa, que poderia lançar milhares de toneladas de poeira radioativa no ar e colocar em perigo milhões de seus compatriotas.

Na terça e quarta-feira eles lutaram para manter centenas de litros de água do mar fluindo através de bombas temporárias até os três reatores atingidos. Entre os muitos problemas que as autoridades reconheceram nesta quarta-feira estava o que pareceu ser ainda mais um incêndio na fábrica e indicações de que o vaso de contenção em torno de um reator pode ter rompido. Esse reator, o número 3, parecia estar liberando vapor radioativo.

Aos trabalhadores são solicitados sacrifícios cada vez maiores – e talvez existenciais – que até agora estão sendo apenas implicitamente reconhecidos: o Ministério da Saúde do Japão anunciou na terça-feira o aumento do limite legal da quantidade de radiação a que cada trabalhador pode ser exposto, de 100 millisieverts (mSv) para 250 mSv - cinco vezes a exposição máxima permitida para trabalhadores de usinas nucleares nos Estados Unidos.

A mudança significa que os trabalhadores podem permanecer mais tempo no local, informou o ministério. "Seria impensável aumentá-la ainda mais do que isso, considerando a saúde dos trabalhadores", disse o ministro da Saúde japonês, Yoko Komiyama. Também houve uma sugestão na quarta-feira de que mais trabalhadores podem ser trazidos para ajudar a salvar a estação de energia.

Cenário

A Tokyo Electric Power, a operadora da usina, não disse quase nada sobre os trabalhadores - a empresa não mencionou quanto tempo um trabalhador poderá ficar exposto.

As poucas informações que a Tokyo Electric disponibilizou revelam um cenário desolador. Cinco trabalhadores morreram desde o terremoto e outros 22 ficaram feridos por diversas razões, enquanto outros dois estão desaparecidos. Um funcionário foi hospitalizado depois de tocar o peito repentinamente e não conseguir ficar em pé, e um outro precisou de tratamento após ter sido alvo de uma explosão de radiação perto de um reator danificado. Onze trabalhadores ficaram feridos em uma explosão de hidrogênio no reator número 3. Operadores de reatores nucleares dizem que sua profissão é caracterizada pelo mesmo tipo de "esprit de corps" (senso de honra) encontrado entre bombeiros e unidades militares de elite. Conversas na cafeteria das usinas frequentemente se voltam para aquilo que os trabalhadores fariam em uma situação de emergência grave.

O consenso é sempre que eles iriam avisar sua família para fugir antes de permanecerem em seus postos até o fim, disse Michael Friedlander, um antigo trabalhador sênior de três usinas dos Estados Unidos, que esteve no ramo por um total de 13 anos. "Você certamente fica preocupado com a saúde e a segurança de sua família, mas tem a obrigação de permanecer na usina", disse ele. "Há um senso de lealdade e camaradagem quando você treinou com os caras e já fez turnos com eles por muitos anos".

Somando-se a essa ligação natural, há o fato de que o emprego no Japão confere identidade, exige lealdade e inspira um tipo especial de dedicação. As dificuldades econômicas arranharam a ideia sagrada de um emprego para toda a vida, mantida por muitos japoneses, mas o trabalho continua a ser uma poderosa fonte de comunidade. Friedlander disse não ter nenhuma dúvida de que em um acidente idêntico nos Estados Unidos, voluntários seriam encontrados para ficar para trás depois que todos fossem evacuados de um ambiente extremamente perigosos. Mas mais importante é que os japoneses são educados para acreditar que os indivíduos devem se sacrificar pelo bem do grupo.

Os trabalhadores do reator enfrentam riscos extraordinários. A Tokyo Electric retirou centenas de membros da equipe de emergência das usinas atingidas na terça-feira, quando os níveis de radiação aumentaram. Em comparação, a quantidade de pessoas normalmente mantida nos três reatores ativos da General Electric seria de 10 a 12 em cada um, incluindo supervisores – uma indicação de que a pequena equipe deixada para trás é um pouco maior do que o contingente de plantão em um dia tranquilo.

Chernobyl

Daiichi não é sinônimo de Chernobyl, em termos da gravidade da contaminação. O reator ucraniano explodiu e expeliu enormes quantidades de radiação durante 10 dias em 1986. Mas os trabalhadores nas usinas têm um vínculo.

Entre os funcionários e bombeiros da Usina de Chernobyl, muitos se ofereceram para tentar domar, e depois enterrar, o reator atingido – embora não seja claro se todos sabiam a verdade sobre os riscos. Em três meses, 28 deles morreram por exposição à radiação. Pelo menos 19 deles foram mortos por infecções, que resultaram em grandes áreas de sua pele queimadas por radiação, de acordo com um relatório recente de uma comissão científica da ONU. Outros 106 desenvolveram doenças decorrentes da contaminação radioativa, como náuseas, vômitos, diarreia e baixa contagem de sangue que os deixou altamente vulneráveis a infecções. As pessoas que sofreram contaminação por radiação desenvolveram outros problemas mais tarde, de acordo com o relatório: catarata, cicatrizes severas por conta da queimadura da radiação na pele e um aumento no número de mortes por leucemia e outros cânceres do sangue.

Alguns desses trabalhadores de Chernobyl foram expostos a níveis de radiação muito além do que foi medido até hoje em Daiichi. Especialmente os pilotos de helicópteros que voaram pela fumaça carregada de radiação para vaporizar químicos de extinção de incêndios químicos sobre a usina.

Níveis

A radiação perto dos reatores chegava a 400 mSv na terça-feira, horas depois de uma explosão no interior do reator número 2 e fogo no reator número 4, mas desde então caiu para o valor mínimo de 0,6 mSv no portão da usina. A Tokyo Electric e os reguladores japoneses não liberaram nenhuma estatística sobre os níveis de radiação no interior dos edifícios de contenção, onde os engenheiros estão tentando desesperadamente consertar os sistemas elétricos, bombas e outros equipamentos destruídos pelo terremoto seguido de tsunami na sexta-feira passada.

Mas especialistas nucleares disseram que os níveis de radiação no interior tendem a ser maiores porque os edifícios de contenção provavelmente ainda estão impedindo a maioria da radiação de sair da usina.

O local agora está tão contaminado com radiação, dizem os especialistas, o que tornou difícil para os funcionários trabalharem perto dos reatores por longos períodos de tempo. Segundo o relato de um perito nos procedimentos de emergência nuclear, os trabalhadores estão agindo em ciclo dentro e fora das partes mais afetadas da usina.

Em alguns casos, quando se trata de uma tarefa em uma área altamente radioativa da usina, os trabalhadores podem se alinhar e lidar com uma tarefa apenas alguns minutos por vez antes de passar o posto para outro trabalhador, disse Katsuhiko Ishibashi, ex-professor do Centro de Pesquisa em Segurança Urbana da Universidade de Kobe.

A Tokyo Electric se recusou a divulgar os nomes ou qualquer outra informação sobre os trabalhadores que ficaram para trás, tampouco os executivos da empresa disseram algo sobre como os funcionários serão substituídos à medida que ficarem cansados ou doentes. Alguns daqueles que lutam contra as chamas pulverizando água nos reatores de Daiichi são membros da Força de Autodefesa do Japão, policiais ou bombeiros. Outros são funcionários privados enviados para a fábrica.

Para limpar o local após o acidente de Chernobyl, a União Soviética recrutou trabalhadores em proporção ao tamanho de cada uma das suas repúblicas, e desenvolveu um sistema para limitar sua exposição. "Eles mandaram até 600 mil pessoas para limpar os detritos radioativos em torno da usina e construir um sarcófago", disse John Boice, um dos autores do estudo e professor de medicina em Vanderbilt e diretor científico do Instituto Internacional de Epidemiologia em Rockvillle.

Os trabalhadores, conhecidos como "liquidadores", foram enviados para as zonas contaminadas por períodos limitados. "Até o momento há muito pouca evidência de efeitos adversos", disse Boice. "Foi muito inteligente. Um grande número de pessoas recebeu uma dose relativamente pequena de radiação. Pode haver um pequeno risco de leucemia, mas nada é conclusivo".

O texto original do NYT falava em 50 trabalhadores, mas o número foi atualizado para 180, a partir de informações da agência Associated Press

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