Técnicas chinesas inspiraram os interrogatórios de Guantánamo

WASHINGTON, EUA ¿ Treinadores militares que seguiram para a base de Guantánamo em 2002 dedicaram uma aula inteira aos métodos de interrogatório presentes em uma cartilha que mostrava os efeitos das ¿técnicas coercivas de tratamento¿ aplicadas em possíveis prisioneiros, incluindo ¿privação do sono,¿ ¿imobilização prolongada¿ e ¿exposição ao frio.¿

The New York Times |

O que os treinadores não disseram - e muitos não devem saber - é que a cartilha foi copiada na íntegra de um estudo de 1957 da Força Aérea dos EUA sobre técnicas usadas por comunistas chineses durante a Guerra da Coréia para obter confissões, muitas delas falsas, sobre prisioneiros norte-americanos

A cartilha reciclada é a mais viva evidência de como os métodos de interrogatório que os EUA tanto descreveram como tortura, tornaram-se a base para interrogatórios tanto em Guantánamo quanto no CIA.

AP

Especilistas apontam a origem das técnicas
empregdas em Guantánamo (foto)

Alguns métodos foram usados em um pequeno número de prisioneiros de Guantánamo antes de 2005, quando o congresso baniu o uso de técnicas coercivas pelos militares. A CIA é autorizada pelo presidente Bush a usar alternativas secretas de interrogatório. Diversos documentos de Guantánamo, incluindo uma cartilha esquematizando métodos coercivos, foram trazidos a público no Comitê do Senado para Serviços Armados, criado em junho, para examinar como essas técnicas eram empregadas.  

Mas o comitê investigador não sabia que a origem da cartilha estava em um artigo publicado há meio século, em uma conexão que foi divulgada ao "New York Times" por um especialista em interrogatórios independente, que falou sob a condição de que o seu nome não fosse revelado. 

O artigo de 1957 de onde a cartilha foi copiada era intitulado Tentativas comunistas que de conseguir confissões falsas de prisioneiros da Força Aérea norte-americana e foi escrito por Alfred D. Biderman, um sociólogo que servia à Força Aérea, morto em 2003. Biderman entrevistou os prisioneiros norte-americanos que retornavam da Coréia do Norte, alguns deles foram filmados pelos interrogadores chineses confessando terem praticado guerra bacteriológica e outras atrocidades.

Essas confissões orquestradas geraram as alegações de que os prisioneiros norte-americanos passaram por uma lavagem cerebral, e levaram os militares a reforçarem o treinamento e darem aos soldados uma amostra da aspereza dos métodos empregados pelos inimigos.  

Sobrevivência, Evasão, Resistência, Fuga

Em 2002, o programa de treinamento, conhecido como SERE, Sobrevivência, Evasão, Resistência, Fuga (Escape, em inglês), se tornou um exemplo de interrogatório tanto para a CIA com para os militares. No que os críticos chamam de amnésia histórica, oficiais que criaram o SERE aparentemente esqueceram que o método foi inicialmente criado como resultado de uma preocupação com as confissões falsas dadas por prisioneiros norte-americanos.

O senador Carl Levin, Democrata pelo estado de Michigan, presidente do Comitê do Senado para Serviços Armados, disse depois de rever o artigo de 1957 que todos os norte-americanos deveriam estar chocados pela origem do documento de treinamento.  

O que torna esse documento duplamente impressionante é que essas técnicas eram para obter confissões falsas, e nós repetimos isso. Mas nós não precisamos de falsas informações de inteligências.

Um porta-voz do Departamento de Defesa, Tenente Coronel Patrick Ryder, disse que não poderia comentar a cartilha de treinamento de Guantánamo. Não posso especular sobre decisões anteriores sobre técnicas de interrogatório do Departamento de Defesa, disse Ryder. O que eu posso dizer é que a política do Departamento está clara ¿ nós tratamos todos os detentos com humanidade.

O artigo de Biderman de 1957 descreve uma forma de tortura usada pelos chineses que consistia em forçar o prisioneiro norte-americano a ficar de pé por um longo período de tempo, algumas vezes em condições de extremo frio. Métodos desse gênero, escreve, eram mais comuns que violência física. Deixar o prisioneiro de pé por tempo prolongado e expô-lo ao frio  foi um método usado por militares norte-americanos e pela CIA no interrogatório de suspeitos.

Interrogadores eram instruídos a aplicar técnicas
como "privação do sono" e "imibilização prolongada"
A cartilha também lista outras técnicas usadas pelos chineses, incluindo fome parcial, exploração de ferimentos e ambientes sujos e infestados e seus efeitos: deixa a vítima dependente do interrogador, enfraquece a resistência mental e física e reduz o nível de preocupação com o prisioneiro a níveis animais.

A única mudança proposta pela cartilha apresentada por Guantánamo foi a de mudar o título: Métodos Coercivos para Conseguir Colaboração.  

Os documentos revelados mês passado incluem uma troca de e-mail entre dois treinadores do SERE reportando um viagem para Guantánamo entre 29 de dezembro de 2002 a 4 de janeiro de 2003. A proposta, diz a mensagem, era a de apresentar aos interrogadores a teoria e a prática da pressão física utilizadas durante o treinamento.

As sessões incluíam uma aula profunda dos princípios de Biderman, dizia a mensagem, referindo-se ao artigo de 1957 escrito por Biderman. Versões da mesma cartilha, muitas vezes identificada como Cartilha de Coerção do Biderman, circulam em sites na Internet contrários às seitas baseadas no fanatismo religioso. Os métodos da cartilha são utilizados por esses sites para demonstrar como tais seitas controlam os seus membros. 

O psiquiatra Robert Jay Lifton, que também estudou o retorno de prisioneiros de guerra e escreveu um artigo complementar na mesma publicação que a do artigo de Biderman, disse em uma entrevista que ficou perturbado ao saber que as técnicas chinesas foram recicladas e utilizadas em Guantánamo.  

Isso me entristece, disse Lifton, autor de um livro publicado em 1961 sobre aquilo que os chineses chamam de reforma do pensamento e os norte-americanos chamam de lavagem cerebral. Ele chamou o uso das técnicas chinesas pelos interrogadores norte-americanos de Guantánamo com uma guinada de 180º

Acusados de Terrorismo

O mais cruel interrogatório de Guantánamo foi o de Mohammed al-Qahtani, membro de da al-Qaida suspeito de planejar os ataques de 11 de setembro. O interrogatório de  Al-Qahtani's envolveu privação do sono, posições de estresse, exposição ao frio e outros métodos usados pelos chineses. 

Acusações de terrorismo contra  al-Qahtani foram retiradas inesperadamente em maio. Oficiais disseram que as acusações podem ser instaladas mais tarde e recusou a respoder se a decisão foi influenciada pela preocupação com o tratamento dado a al-Qahtani's.

Bush defendeu o uso de métodos rígidos, dizendo que eles ajudam a conseguir informações críticas à inteligência e prevenir novos ataques terroristas. Mas o assunto continua a complicar os processos já atrasados de Guantánamo. 

Abd al-Rahim al-Nashiri, membro da al-Qaida acusado de ser um dos pincipais mentores do bombardeio a um destróier norte-americano na base de Cole no Iêmen em 2000, foi acusado de assassinato e outros crimes na última segunda-feira. Em declarações anteriores,  al-Nashiri, que foi submetido ao "afogamento afirmou ter confessado falsamente a sua participação no ataque porque estava sendo torturado.

Por SCOTT SHANE

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