Taleban adota táticas modernas para ganhar terreno psicológico

Insurgentes evitam grandes embates e se voltam à intimidação, aos assassinatos planejados com cautela e aos ataques simbólicos

The New York Times | 07/10/2011 08:04

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Pontualmente às 20h, todas as noites, os sinais de celulares desaparecem na capital provincial de Lashkar Gah, Afeganistão. Sob pressão do Taleban, as principais operadoras desligam suas torres de sinal, cortando a maioria das conexões com o resto do mundo.

Foto: NYT

Comerciante conversa ao celular em uma loja em Cabul, capital do Afeganistão

Isso agora ocorre em mais da metade das províncias do Afeganistão e concretiza as novas e mais sutis táticas adotadas pelo Taleban, ao mesmo tempo em que os generais da Otan falam dos insurgentes como uma força menos capaz de manter terreno. Uma questão mais relevante é se o Taleban precisa de fato "manter terreno" a fim de influenciar a população. Cada vez mais, ao que parece, a resposta é não.

Táticas como a ofensiva aos celulares têm permitido ao Taleban projetar sua presença de forma muito mais insidiosa e sofisticada, usando instrumentos da modernidade que antes evitava. O desligamento envia um lembrete diário a centenas de milhares, senão milhões, de afegãos de que o Taleban ainda tem domínio sobre o seu futuro.

Essa é apenas parte de uma mudança mais ampla na estratégia do Taleban, que tem como cerne a intimidação, assassinatos cuidadosamente preparados e ataques limitados, mas espetaculares. Embora muitas vezes evitem o combate em larga escala com as forças da Otan, o Taleban e seus aliados da rede Haqqani efetivamente minaram as negociações de paz com o governo afegão do presidente Hamid Karzai e procuraram abrir caminho para um retorno gradual ao poder conforme as forças americanas começam a diminuir suas operações militares no país.

Ataques como o dos mísseis contra a Embaixada dos Estados Unidos em Cabul, em 13 de setembro, pelo qual as autoridades americanas culparam o Haqqani, efetivamente transfere a luta para as cidades, onde é mais difícil para a Otan responder com poder aéreo por medo de acertar alvos civis. Isso também permite ao Taleban a captura das ondas aéreas por horas, especialmente nos meios de comunicação de áreas urbanas saturadas, o que alimenta uma aura de crise.

Da mesma forma, o assassinato de Burhanuddin Rabbani, líder do Conselho de Paz do Afeganistão, em Cabul, dominou o noticiário e reabriu fissuras perigosas entre os país dari e pashtun do país, em um único e calculado golpe. O novo Taleban não aspira matar muita gente, mas sim, aparentemente, apenas um seleto grupo de pessoas nos lugares certos e em posições de poder.

O assassinato de Rabbani não apenas demonstrou que os insurgentes rejeitam o processo de paz, mas também lembrou às pessoas de sua capacidade de moldar o próximo capítulo na história do país conforme os americanos se preparam para partir. Da mesma forma, o Taleban tem procurado modificar sua imagem como forma de se posicionar para desempenhar um papel de destaque no futuro do Afeganistão. É uma estratégia em duas vertentes.

Entrevistas com dezenas de afegãos sugerem que, em todo o país, o Taleban tem alinhado campanhas terroristas locais com uma nova flexibilidade em questões como educação e desenvolvimento de negócios.

A combinação brinca com a incerteza dos afegãos sobre a retirada dos EUA, enquanto aproveita ao máximo os recursos limitados da insurgência. O objetivo do Taleban é minar o governo afegão, fazendo os moradores questionarem se ele pode protegê-los, ao mesmo tempo em que tenta projetar a imagem de um grupo que está mais aberto para o mundo do que aquele que governou o país nos anos 1990.

Por enquanto, especialmente em áreas de etnia pashtun, o Taleban, formado por essa etnia, parece ter atingido o seu objetivo de deixar o futuro em aberto.

"A moral dos civis em Kandahar, no Oruzgan, em Helmand e em Cabul está no nível mais baixo que já vimos", disse Ahmad Nader Nadery, vice-diretor da Comissão Afegã Independente de Direitos Humanos. "Os cidadãos dizem que, primeiro, a capacidade do governo afegão de melhorar as medidas de segurança é mínima e eles percebem a crise que o governo passa. Além disso, veem que a retirada da comunidade internacional já teve início."

Certamente, enquanto as tropas da Otan estiverem no Afeganistão o Taleban não poderá impor suas ideias – mas com a transição em curso, ninguém duvida que os soldados ocidentais estão partindo. Assim, enquanto a Otan insiste que o Taleban está perdendo terreno físico, os insurgentes podem estar ganhando espaço psicológico.

"Sua campanha militar de 2011 não se materializou da maneira como previam porque eles estão sob uma pressão sem precedentes", disse o tenente-coronel Jimmie E. Cummings Jr., um porta-voz do quartel-general da Otan. O Taleban pode ter sido "impedido de recuperar o impulso" que tinha antes do aumento das tropas, disse ele.

A Otan também vê menos apoio da população civil ao Taleban. "Vimos que, depois que os combatentes se esconderam durante o inverno, eles voltavam para comunidades que já não os apoiavam", disse Cummings. "Eles perderam seus esconderijos, fábricas de bombas improvisadas, esconderijos de armas e liberdade de movimento."

Comandantes da Otan admitem que ataques espetaculares, como o da embaixada dos Estados Unidos, são "vitórias IO" – IO significa operação de informação, na sigla em inglês – disse o general John R. Allen, comandante geral para as forças da Otan no Afeganistão. Eles resistem igualando isso a ganhos maiores, embora em particular alguns oficiais admitam que a capacidade do Taleban para alternar e desligar os celulares é mais uma vitória desse tipo.

Diplomatas, por sua vez, esperam que os métodos mais psicológicos do Taleban possam ser um precursor para negociações de paz, mas também admitem que eles podem ser uma estratégia inteligente para conservar as suas forças até que o Ocidente retire mais tropas.

"Temos os prejudicado, mas eu não sei até onde", disse Ryan C. Crocker, o embaixador dos Estados Unidos no Afeganistão. "E eu não tenho certeza que nós vamos saber."

Por Alissa J. Rubin

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