Swinger desafia hábitos sexuais da China

Condenação de professor por orgias expõe desejo de limitar privacidade em país que muda com crescimento econômico e a internet

The New York Times |

Em público, ele era um professor de informática duas vezes divorciado, dedicado aos seus alunos e aos cuidados de uma mãe idosa que sofre de Alzheimer.

Em privado, o professor Ma Yaohai, de 53 anos, levava uma vida que se tornou intolerável para as autoridades chinesas: nos últimos seis anos, ele foi membro de um clube informal de swingers que praticava sexo em grupo e trocava de parceiros. Em salas de bate-papo online, seu nome era Fogo Viril. Ele organizou e participou de pelo menos 18 orgias, a maioria delas em seu apartamento de dois quartos em Nanjing onde vivia com a mãe, segundo o Ministério Público.

AP
Ma Yaohai fuma enquanto conversa com jornalistas na cidade de Nanjing, em Jiangsu (06/04/2010)

Na quinta, um tribunal condenou o imprudente Ma a três anos e meio de prisão, uma pena severa por um crime que o governo chinês qualifica como "reunião amoral". Ma, agora o swinger mais famoso da China, permanece desafiador e planeja apelar da decisão, dizendo que sua vida sexual é da sua conta e não um assunto sujeito à lei, desde que não cause perturbações sociais, de acordo com seu advogado, Yao Yong'an. "A vida privada deve ser protegida", disse Yao em uma entrevista.

O caso de Ma, que foi preso em agosto e passou por julgamento no mês passado, chamou a atenção em toda a China não apenas por seus detalhes curiosos, mas também porque levanta questões sobre a tentativa de um governo autoritário de restringir a liberdade sexual e limitar a privacidade em uma sociedade na qual o rápido crescimento econômico e a onipresença da internet têm invertido valores tradicionais.

Bordéis - geralmente mal disfarçados como salões de beleza ou casas de massagem - e sex shops se espalham pelas cidades e até mesmo vilas, e o sexo pré-marital é comum entre os jovens casais.

Milhares de chineses praticam o swing (ou troca de parceiros, que é uma tradução mais adequada do termo usado em chinês), de acordo com Li Yinhe, principal sexólogo da China. O website Happy Village tem uma sala de bate-papo abertamente dedicada à prática.

Em uma entrevista com repórteres chineses depois de sua prisão, Ma, um homem pequeno de rosto angular que usa grossos óculos pretos, defendeu seu estilo de vida. "Casamento é como água", disse. "Você tem de beber. O swing é como vinho. Algumas pessoas acham delicioso na primeira vez que experimentam, então continuam bebendo. Algumas pessoas acham ruim e não bebem mais. Mas tudo é completamente voluntário. Ninguém obriga você a nada."

O Partido Comunista já não mantém controle sobre a vida privada como fazia décadas atrás. No entanto, algumas autoridades ainda tentam processar cidadãos com base em leis que parecem cada vez mais defasadas em relação aos costumes sociais. Um exemplo disso é a lei 301, sob a qual Ma e 21 colegas swingers foram processados e que pode resultar em até cinco anos de prisão para os culpados.

Os usuários da internet e até mesmo algumas organizações de notícias da China debateram o caso. Juristas afirmam que a Corte do Distrito de Qinhuai, que processou Ma, levou um tempo excepcionalmente longo para chegar ao veredicto, o que poderia indicar que as autoridades tiveram de ponderar uma série de fatores jurídicos e políticos para decidir a aplicação dessa lei.

"Como o caso estimulou tanto debate, as pessoas estão cada vez mais conscientes de que seus direitos e liberdades sexuais estão sendo usurpados", disse Li, que em março tentou persuadir conselheiros legislativos a abolir a lei sem êxito. Li é pesquisador na Academia Chinesa de Ciências Sociais.

"E acho que o processo de reflexão das autoridades chinesas é sempre tentar gerir e controlar a população, as pessoas", ela acrescentou. "Além de processar atividades criminosas, acreditam que podem controlar as pessoas de acordo com os seus padrões e normas."

A lei contra o sexo em grupo, geralmente interpretado pelos juízes como envolvendo três ou mais pessoas, vem de uma determinação anterior contra o "vandalismo", que era usada para processar as pessoas que faziam sexo fora do casamento, disse Li. A norma foi suprimida em 1997. Um notável caso de swingers ocorreu no início dos anos 1980, quando o líder de um clube de swingers que envolvia quatro casais de meia-idade foi executado, acrescentou.

Pelo menos três pesquisas recentes indicam que a perseguição de pessoas que praticam sexo em grupo não tem amplo apoio público atualmente. Diversos sites de notícias chineses publicaram editoriais repercutindo esse sentimento depois que o veredicto foi anunciado. "Esse tipo de comportamento é parte da liberdade pessoal de um cidadão; essa é uma parte dos direitos privados do cidadão", escreveu Yi Bo em um site mantido pelo Departamento de Propaganda da Província de Shanxi.

Sexo em grupo

Ma não atendeu a pedidos para comentar o veredicto. Em inúmeras entrevistas a repórteres chineses, ele contou a história de como entrou para a subcultura do swing. Após dois divórcios, começou a tentar conhecer mulheres pela internet. Ele trocou mensagens com uma mulher de 23 anos cujo nome online era Fênix Apaixonada. Depois, ela foi a Nanjing e disse a Ma que viajava o país em busca de outros casais para a prática do swing.

Os dois foram morar juntos. No ano novo de 2004, eles experimentaram seu primeiro swing com um casal de uma pequena cidade da Província de Jiangsu. Os quatro jogaram strip poker (em que peças de roupa são tiradas à medida que se perde uma jogada) e então trocaram de parceiros. Mas Ma sofreu um caso de impotência. "Quando chegou a hora, fiquei nervoso demais", disse a um repórter.

Eventualmente, porém, ele superou sua ansiedade. Em 2007, deu início a uma sala de bate-papo na internet chamada "Viagem Independente para Maridos, Esposas e Amantes". Em conversas online, as pessoas o chamavam de professor Ma. A adesão havia crescido para mais de 200 pessoas. Ma disse aos jornalistas que o maior sexo em grupo do qual fez parte envolveu quatro casais.

A policia prendeu Ma depois de invadir um quarto de hotel em Nanjing em agosto do ano passado e deter cinco pessoas suspeitas de participar da troca de parceiros. Os detidos entregaram às autoridades uma longa lista de nomes de outros swingers, incluindo o de Ma. As autoridades eventualmente acusaram 22 pessoas de 35 atos de "reunião amoral" entre 2007 e 2009, 18 dos quais Ma havia participado ou organizado, disseram. Ma foi o único acusado que se recusou a reconhecer a culpa.

A Associated Press relatou que, no início do julgamento de dois dias em 7 de abril, Ma disse: "Como  posso perturbar a ordem social? O que acontece na minha casa é um assunto privado." Ma pediu demissão de seu trabalho como professor da Universidade de Tecnologia de Nanjing e agora vive de economias e da pensão de sua mãe.

"Definitivamente será difícil encontrar trabalho", disse em uma entrevista anterior a um jornalista chinês. "Talvez possa me tornar o porta-voz oficial de uma companhia de brinquedos para adultos."

*Por Edward Wong

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