Suriname: um campo de testes para as ambições da Holanda

PIKIN SARON, Suriname ¿ A Holanda abdicou em 1975 do controle que possuía sobre seu país na América do Sul, o Suriname. Entretanto, no último mês tal conjuntura parecia revertida, na medida em que o sargento Bart Cobussen ensinava técnicas de guerra para dois pelotões nas florestas do Suriname.

The New York Times |

Para começar, você deve ser sujo, cheirar mal e dormir em um local muito desconfortável, disse Cobussen, de 47 anos, que leciona um curso de guerra para fuzileiros navais da Holanda. O Suriname é o lugar perfeito para alcançar essas condições, de forma a nos proporcionar atividades de patrulha, ataques e seis dias de aula de tiros.

Tais atividades podem ser positivas para marinheiros holandeses, mas no Suriname a presença européia ainda causa desconfiança sobre as intenções da ex-colônia. Após a visita ao país do ministro de defesa da Holanda, Eimert van Middlekoop, surgiram especulações em jornais da capital de que a Holanda queria estabelecer uma base militar no país.

Na tentativa de acabar com os boatos, marinheiros organizaram o que denominaram de Dia VIP, convidando altos oficiais do exército militar do Suriname, embaixadores estrangeiros e mesmo alguns jornalistas para saber um pouco mais sobre o curso de guerra.

Não temos absolutamente qualquer agenda secreta no Suriname, disse Tanya van Gool, embaixadora holandesa. Algumas pessoas acreditam que estamos propondo uma base ilegal. Definitivamente não.

Mesmo assim, alguns continuavam a levantar dúvidas sobre a missão, enquanto o ônibus em que estavam chacoalhava de um lado para outro pelo caminho que ligava Paramaribo a Pikin Saron. Por que os holandeses têm tanto interesse na guerra da selva? Por que o Suriname, um dos países da América do Sul mais desconhecidos? E, afinal de contas, o que este curso objetiva?

As respostas que vieram de Cobussen e outros militares holandeses foram janelas entre as relações entre o país europeu e o Suriname, além de esboçarem o difícil modo como a Holanda tenta emergir como uma nação pós-colonial culturalmente sensível.

Ao aspirar à máxima transparência, instrutores da marinha construíram uma sala de aula ao ar livre em uma região da floresta amazônica. Com um modesto púlpito, eles engajaram os visitantes em uma vigorosa discussão sobre o que os levou ao país.

Quase 70% dos conflitos mundiais nos últimos 30 anos se passaram em áreas florestais, disse o major Eric Piwek, de 34 anos, que trouxe a 31° Companhia de Infantaria dos Marinheiros da Holanda da sua base na Europa para a América do Sul. Dessa forma, devemos estar familiarizados com tais localidades para resolvermos os problemas.

Desenvolver o exército militar da Holanda para missões no exterior se tornou uma prioridade após as tropas que serviram em Srebrenica, na Bósnia-Herzegovina serem caluniadas por falhas em conter o massacre de sérvios contra cerca de 8 mil bósnios muçulmanos em 1995.

No Suriname, onde a Holanda permanece entre os maiores fornecedores de assistência, as tropas encontraram a rara facilidade de falar em sua própria língua, que ainda é o idioma oficial aqui. A Holanda fornece ao governo do Suriname vários equipamentos, como caminhões, em troca da permissão para o envio de 60 tropas para o país duas vezes ao ano.

Os desafios que o curso demanda faz com que cerca de 10% dos membros desistam do treinamento. Autoridades militares do Suriname parecem entretidos com a chegada do curso, em um dia que culminou quando foi permitido que embaixadores atirassem em alvos na selva com um rifle M-16. Os cidadãos do Suriname passaram parte do dia falando em português com membros do exército brasileiro, com a fluência sendo resultado dos cursos de guerra no Brasil, país vizinho.

De fato, as relações militares com a Holanda parecem uma mera distração se comparadas ao treinamento militar do Brasil, ao auxilio da China com assistência e equipamentos militares e ao recente acordo com os Estados Unidos, que prevê o teste de veículos norte-americanos em terras do Suriname.

Entre um trago de cigarro e outro, o major R.J. Martopawiro do exército do Suriname diz ver o curso de guerra nas florestas do país como fruto do velho legado de laços estreitos com a Holanda.

De verdade, nós não damos mais uma grande atenção à Holanda, assinalou Martopawiro.

-Simon Romero


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