Suprimentos de substância radioativa usada em testes médicos estão em falta

WASHINGTON ¿ Está começando a faltar, no mundo todo, uma substância radioativa essencial para testes de doenças cardíacas, câncer e o funcionamento dos rins em crianças. A carência se deve ao fechamento para a manutenção de dois reatores nucleares, que fornecem a maior parte do suprimento do mundo.

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Braços robóticos são manipulados por técnicos no Laboratório Nacional Oak Ridge

O reator construído há 51 anos, que fica em Ontário, no Canadá, e produz a maior parte da droga, um isótopo radioativo, está fechado desde 14 de maio devido a problemas de segurança. O equipamento continuará fechado até pelo menos o fim deste ano. Alguns especialistas temem que ele nunca seja reaberto. O isótopo, chamado tecnécio-99m, é usado em mais de 40 mil procedimentos médicos por dia nos EUA.

A perda do reator de Ontário criou uma falta de suprimento nas últimas semanas. Mas, no sábado passado, um reator da Holanda, que é o maior fornecedor, também ficará fechado por um mês. O resto do material produzido está agora a caminho dos hospitais e consultórios médicos. O reator holandês, em Petten, foi construído há 47 anos, e mesmo que seja reaberto na data prevista, o equipamento terá de ser fechado por vários meses para reparos, em 2010, de acordo com operadores.

Esse é um grande baque, disse Dr. Michael M. Graham, presidente da Society of Nuclear Medicine (Sociedade de Medicina Nuclear, em tradução livre) e professor de radiologia na Universidade de Iowa.

Há técnicas substitutivas e materiais para alguns procedimentos que necessitam do isótopo, de acordo com Graham e outras pessoas. No entanto, esses materiais geralmente são menos eficientes, mais perigosos ou caros. Com a perda da capacidade de diagnóstico, algumas pessoas serão operadas sem precisar e vice e versa, disse.

Dr. Andrew J. Einstein, professor assistente de medicina clínica na Universidade de Columbia na Faculdade de Físicos e Cirurgiões, disse que o isótopo é usado para determinar se o paciente tem uma obstrução na coronária, que necessite de uma angioplastia ou um stent (tubo usado para aliviar o fluxo sanguíneo diminuído devido à obstrução). Sem o exame, Einstein disse esses procedimentos invasivos serão feitos em pessoas que não precisam deles. Seu hospital já está usando doses da substância radioativa menores do que o especificado, disse.

Em pacientes com câncer, a droga localiza tumores adicionais nos ossos. No local do tumor, um novo osso se desenvolverá e seu crescimento absorverá o material radioativo.

Na cirurgia de câncer de mama, o isótopo radioativo é injetado para localizar o nódulo linfático mais próximo do tumor, para que se possa fazer uma biópsia em busca de sintomas de câncer e determinar se uma cirurgia mais abrangente é necessária. A alternativa é injetar um corante que às vezes não permite ao cirurgião achar o nódulo.

Sem a ferramenta, disse Graham, a qualidade do sistema de saúde retorna ao que era nos anos 1960.

Nesta terça-feira, o deputado Edward J. Markey, democrata de Massachusetts, que é um dos críticos mais duros da indústria nuclear na Câmara, declarou que os EUA estão enfrentando uma crise na medicina nuclear.

Markey, presidente do subcomitê da Câmara de Energia e Comércio de energia, exigiu a construção de uma nova produção de instrumentos nos EUA. Ele se juntou à posição do republicano no subcomitê, deputado Fred Upton de Michigan, para introduzir um plano que autorize US$ 163 milhões nos últimos cinco anos, para garantir uma nova produção.

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Piscina do reator de Alto Fluxo no Laboratório de Oak Ridge

A Casa Branca está coordenando os esforços da inter-agência para encontrar novas fontes de suprimento, envolvendo a Comissão Nuclear Regulatória, a Foods and Drugs Administration (órgão que regula a segurança dos alimentos e drogas medicinais), o Departamento de Energia e outras agências. No entanto, oficiais dizem que o processo pode levar meses.

Os reatores são tipicamente pequenos ¿ às vezes, não é maior do que um balde de lixo ¿ mas uma estrutura completa custa dezenas de milhões de dólares.

O tecnécio emite um raio gama que torna sua presença óbvia. Ele tem uma meia-vida de seis horas, o que significa que perde metade de sua força nesse tempo. Por isso, o material faz o serviço rapidamente, sem uma demora que necessitaria uma dose maior ao paciente. Mas isso também quer dizer que o isótopo deve ser produzido e usado mais rápido que outras substâncias.

O material é o produto de outro isótopo, o molibdênio-99, que também tem uma meia-vida curta de 66 horas. Por isso, uma semana após ser feito, resta menos de um quarto do material. Estocar a matéria-prima não é prático.

Você perde cerca de 1% por hora, disse outro especialista, Kevin D. Crowley, diretor do Quadro de Estudos de Radiação e Nuclear no Conselho de Pesquisa Nacional. Então o tempo é importante.

O molibdênio-99 é feito quando o urânio-235 se divide, mas apenas cerca de 6% dos fragmentos da cisão é molibdênio. A purificação tem de ser feita em um prédio de contenção bem protegido.

O método comum é colocar um urânio como alvo em meio a nêutrons produzidos no reator quando o urânio se divide. Mas o material preferido é o urânio -235 de alta pureza, que também serve como bomba de abastecimento.

Markey e outros cientistas estão tentando fazer a indústria mudar para o urânio de baixo enriquecimento ¿ que não serve para armamento.

Crowley disse que isso poderia ser feito, embora a indústria esteja resistindo. A péssima condição dos reatores é óbvia há algum tempo. Em 2007, reguladores de segurança canadenses disseram que o reator de Ontário não deve ser reativado, mas o Parlamento do Canadá anulou essa exigência.

Por MATTHEW L. WALD

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