Supostos destroços de tsunami no Japão chegam à costa americana

Catadores de lixo em praias dos EUA dizem que evidências da tragédia começaram a chegar pelo mar

The New York Times |

John Anderson, encanador por profissão e limpador de praia em seu tempo livre, tem percorrido as margens da Península Olímpica no Estado de Washington há mais de três décadas. Ao longo de sua trajetória, encontrou quase todo tipo de coisas na praia: brinquedos, geladeiras e até mesmo uma mensagem em uma garrafa.

Mas, nos últimos meses, Anderson tem feito novas e surpreendentes descobertas: dezenas de boias marcadas com palavras japonesas - que ele acredita ser um resultado do tsunami catastrófico que atingiu o Japão no ano passado.

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Tom Baty procura lixo em praia de Point Reyes, na Califórnia (09/03)

"O tsunami acabou completamente com algumas cidades. Só consigo imaginar que outro tipo de coisa poderia aparecer por aqui", disse Anderson, 58, de Forks, Washington. "Já ouvi dizerem ter visto cofres cheios de dinheiro japonês flutuando pelo mar."

O tsunami - que atingiu a costa do Japão depois de um terremoto no mar no dia 11 de março de 2011 – fez com que uma parede de água varresse grande parte da costa leste do Japão. Isso criou mais de 20 milhões de toneladas de escombros de casas, carros, barcos e pertences pessoais. Embora não esteja muito claro qual porcentagem dos destroços foram sugados de volta para o mar, o que é certo é que alguns dos destroços estão lentamente aparecendo na costa americana.

Os computadores da Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA, na sigla em inglês) e pesquisadores da Universidade do Havaí preveem que os detritos se deslocaram do leste da costa do Japão impulsionados pelas correntes e ventos marítimos.

Os modelos predizem que pedaços de detritos irão começar a aparecer nas ilhas do noroeste do Havaí e ao longo da costa ocidental dos Estados Unidos nesta primavera e no Canadá no início de 2013.

"Não achamos que exista uma enorme quantidade de destroços flutuando por aí", disse Nancy Wallace, diretora do Programa de Lixo Marinho da NOAA. "É provável que os destroços apareçam em pouca quantidade aqui e ali ao decorrer dos anos."

Pesquisadores dizem que a grande maioria nunca vai chegar a costa e ao invés disso ficará preso em uma região no meio do Oceano Pacífico que tem um enorme redemoinho e muitas correntes, conhecida por coletar e recircular o lixo flutuante.

Mas os limpadores de praia como Anderson afirmam que os escombros já começaram a chegar na costa. "Me sinto como Paul Revere andando pela cidade dizendo: 'Os ingleses estão chegando!'", disse o oceanógrafo aposentado Curtis Ebbesmeyer. "Os detritos do tsunami estão aqui, mas ninguém está me ouvindo."

Co-autor do livro “Flotsametrics and the Floating World”, Ebbesmeyer, 69, também publica o “Beachcombers Alert” ou “Alerta dos Limpadores de Praia”, um boletim informativo sobre todas as coisas que dizem a respeito ao lixo e destroços encontrados na praia. Ele disse que cerca de 10 mil pessoas que fazem parte da rede de catadores de praia por hobby leem seu boletim de notícias e reportam os seus achados.

Ebbesmeyer disse ter recebido mais de 400 avistamentos documentados de grandes boias de plástico e de isopor encontradas entre Kodiak, no Alasca, e Humboldt, na Califórnia. Muitas das boias tinham inscrições em japonês, incluindo nomes de empresas de ostras destruídas pelo tsunami. As boias condizem com a modelagem computacional feita por Ebbesmeyer e por um colega oceanógrafo que previram que os detritos começariam a chegar na costa americana no outono de 2011.

Apesar do aumento no interesse pelos destroços e relatos de avistamentos, oficiais do governo não confirmaram que qualquer um dos itens encontrados ao longo da costa ocidental eram de origem japonesa. "Vemos escombros da Ásia que acabam na praia o tempo inteiro e nem sempre são consequências de um tsunami ", disse Wallace.

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Tom Baty mostra inscrição japonesa em boia encontrada em Point Reyes, na Califórnia (09/03)

Até agora, apenas dois grupos de destroços relacionados a um tsunami foram confirmados: um barco de pesca japonês naufragado foi avistado por um navio russo que havia saído de Vladivostok, na Rússia, para Honolulu em setembro, e outro navio localizado pela Guarda Costeira dos Estados Unidos mais próximo ao Japão, em agosto do ano passado.

Tom Baty, um ávido pescador, passa até três horas por dia andando pelas praias de Point Reyes, na Califórnia, onde coleta dejetos e, às vezes, acompanha a localização dos restos de plástico com um GPS.

Baty, 54, regularmente encontra pedaços de lixo marcados com caracteres japoneses, chineses e coreanos, que o fazem duvidar dos relatos sobre a chegada de supostos destroços do tsunami na costa oeste americana.

Ainda assim, ele disse que estava curioso esperando a chegada de qualquer evidência flutuante desse evento violento. Baty faz parte do exército de detetives não oficiais à beira-mar, que fornecem informações úteis sobre os paradeiros do lixo do oceano para oficiais do governo e grupos ambientalistas.

"Você avista algo flutuando na maré", disse ele, "coça a cabeça e pensa: de onde será que isso veio?"

Por Malia Wollan

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