Suposto inimigo combatente revela abusos durante anos de prisão em Guantánamo

LAHORE, Paquistão - Quando Muhammad Saad Iqbal voltou a essa cidade em agosto, depois de mais de seis anos sob custódia dos Estados Unidos, incluindo cinco anos na prisão de Guantánamo, Cuba, ele tinha dificuldade em andar, sua orelha esquerda estava gravemente infectada e ele dependia de um coquetel de antibióticos e antidepressivos.

The New York Times |

Em novembro, um médico paquistanês operou sua orelha, fisioterapeutas trataram seu problema de movimentação e um psicólogo tentava tirá-lo dos remédios que carregava consigo em uma sacola plástica branca.

Os problemas, segundo Iqbal, 31, leitor profissional do Alcorão, resultaram da soma de tortura, prisão e interrogatórios pelos quais seu advogado em Washington planeja processar o governo americano.
A gestão do presidente eleito Barack Obama considera o fechamento da prisão militar em Guantánamo, que muitos críticos rotulam de um sistema extrajudicial de prisão e abuso.

Mas a história completa de prisioneiros como Iqbal só agora começam a emergir, depois de anos nos quais eles foram transportados pelo mundo sob o esquema de extradição extraordinária da gestão Bush, que usou países estrangeiros para interrogar e prender suspeitos de terrorismo em locais afastados das cortes americanas.

Iqbal nunca foi condenado por nenhum crime, ou mesmo acusado de um. Ele foi silenciosamente libertado de Guantánamo com a rotineira explicação de que não era mais considerado um inimigo combatente, parte da tentativa da gestão Bush de reduzir a população da prisão.

"Eu tenho vergonha do que os americanos fizeram comigo neste período", disse Iqbal, falando pela primeira vez sobre seu martírio em entrevistas ao The New York Times.


Muhammad Saad Iqbal, de volta ao Paquistão, tem dificuldade para andar / NYT

Iqbal foi preso no começo de 2002 em Jacarta, Indonésia, depois de se exibir a membros de um grupo islâmico dizendo saber fazer uma bomba, de acordo com duas autoridades dos Estados Unidos que estavam na cidade na época.

Iqbal agora nega ter feito a declaração, mas dois dias depois de sua prisão, segundo ele, a CIA o transferiu para o Egito. Depois ele foi levado a uma prisão americana na Base Aérea Bagram no Afeganistão e, finalmente, a Guantánamo.

Muito do que Iqbal conta não pode ser verificado independentemente. Duas autoridades dos Estados Unidos confirmaram que ele foi "removido" da Indonésia, mas não comentaram ou confirmaram seu tratamento durante a custódia. O Pentágono e a CIA negam o uso de tortura e diplomatas americanos, militares e oficiais de inteligência concordaram em falar sobre o caso apenas sob condição de anonimato por causa da confidencialidade dos arquivos.

Depois que Iqbal foi detido em Jacarta e interrogado durante dois dias, oficiais americanos concluíram que ele não passava de um "presunçoso" que deveria ser libertado, afirmou um dos responsáveis na cidade. "Ele era um falador", disse a autoridade. "Ele queria acreditar que era mais importante do que realmente era".


Fotografia de Iqbal enquanto estava detido em Guantánamo / NYT

Não havia evidência de que ele houvesse conhecido Osama bin Laden, ou mesmo estado no Afeganistão, disseram os oficiais. Mas na atmosfera de medo e confusão que tomou conta dos meses que se seguiram aos atentados do 11 de setembro de 2001, Iqbal foi secretamente levado ao Egito para mais interrogatórios, afirmou um deles.

Iqbal conta que apanhou, foi acorrentado, coberto com um capuz e obrigado a tomar drogas, além de passar por choques elétricos e, por negar conhecer Bin Laden, impedido de dormir por seis meses. "Eles me cegaram e me obrigavam a ficar de pé por dias", afirmou ele em um inglês precário, querendo dizer que sua cabeça foi coberta com um capuz ou seus olhos com uma venda.

Depois de Guantánamo, ele foi levado em uma aeronave militar americana ao aeroporto de Islamabade, onde dois oficiais da embaixada americana no país, o primeiro tenente Brian Strait e Keith Easter, testemunharam sua libertação, de acordo com o documento do governo americano apresentado por Iqbal. Ele foi admitido em um hospital da cidade para tratamento e depois interrogado durante três semanas em uma casa de segurança da inteligência paquistanesa em sessões que qualificou como amigáveis. Oficiais de segurança depois o levaram a casa de parentes. "Para mim foi como uma nova vida", ele disse. "Eu nasci de novo. Não tenho palavras para explicar isso".

O caso de Iqbal será disputado em cortes dos Estados Unidos. Seu advogado, Richard L. Cys da companhia Davis Wright Tremaine, que o visitou em Guantánamo, disse que planeja processar o governo americano pela prisão ilegal de Iqbal. Cys também entrou com uma ação pela liberação das informações médicas de Iqbal durante sua prisão em Guantánamo, esperando poder confirmar os relatos de abuso que o homem diz ter sofrido no Egito.

Em Lahore, Iqbal quer voltar a ensinar o Alcorão. "Para os Estados Unidos é fácil dizer que não encontraram acusações", ele disse. "Mas quem será responsável por estes sete anos da minha vida?"

Reportagem de Jane Perlez, Raymond Bonner e Salman Masood. Perlez e Masood de Lahore, Paquistão, e Bonner de Jacarta, Indonésia

Leia mais sobre Guantánamo

    Leia tudo sobre: guantánamo

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG