Sul-coreanos tentam adivinhar próximo alvo da Coreia do Norte

Após ataque à ilha de Yeonpyeong, população da Coreia do Sul está convencida de que vizinho fará nova ofensiva

The New York Times |

Choi Cheol-Yeong recorda vivamente o choque e o medo que sentiu durante o bombardeio letal feito pela Coreia do Norte à pequena ilha de Yeonpyeong, e diz estar nervoso por acreditar que um outro ataque virá.

"Eu tenho um mau pressentimento de que algo pode acontecer, mas estamos prontos se isso for verdade", disse Choi, um oficial da cidade, apontando para um armário perto de sua mesa onde mantém uma máscara de gás.

Duas semanas depois de um ataque de artilharia da Coreia do Norte atingir a comunidade de pescadores na Ilha de Yeonpyeong e gerar temores na Coreia do Sul sobre seu vizinho fortemente armado, muitos sul-coreanos estão convencidos de que o Norte vai atacar de novo e passam o tempo questionando qual será o alvo.

Analistas políticos sul-coreanos e estrangeiros dizem que o Norte está cada vez mais desesperado, enfrentando escassez de alimentos no inverno e ao mesmo tempo tentando garantir a sucessão do filho mais novo do ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il. Nessa situação, dizem os especialistas, o governo normalmente recorre a ações militares hostis e provocadoras como forma privilegiada de pressionar o economicamente mais rico e, portanto, mais vulnerável Sul a fornecer a ajuda e o investimento que a Coreia do Norte precisa para sobreviver.

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Revestimento de foguete lançado pela Coreia do Norte na ilha de Yeongpyeong (27/11)

"O passado mostra que a Coreia do Norte vai atacar de alguma forma imprevisível", disse Kim Jong-ha, professor de estudos de defesa e segurança da Universidade Hannam, em Daejeon, Coreia do Sul. "Ele pode não vir por alguns meses, mas temos de estar prontos ou o choque e o susto serão muito grandes".

A questão de um outro ataque adotou um significado maior depois que o bombardeio e naufrágio do navio sul-coreano Cheonan, em março, aparentemente por um torpedo norte-coreano, expuseram fraquezas inesperadas nas forças armadas tecnologicamente superiores sul-coreanas. Atingido por críticas sobre a resposta anêmica dos militares, o presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, substituiu seu ministro da Defesa pelo presidente aposentado do Estado Maior, Kim Kwan-jin, que imediatamente prometeu reforçar as forças da Coreia do Sul e responder de forma mais enérgica a futuros ataques do Norte.

"Há uma possibilidade de que eles irão atacar novamente de forma inesperada", disse Kim no dia 03 de dezembro em uma audiência de nomeação na Assembleia Nacional, o Parlamento sul-coreano. "Acredito que nosso país inteiro é um possível alvo para suas provocações".

Analistas militares estão divididos sobre o que esperar em seguida. Mas eles concordam que a Coreia do Norte é perita em procurar e explorar os pontos fracos nas forças melhores financiadas e provisionadas da Coreia do Sul. No bombardeio da ilha Yeonpyeong, por exemplo, as defesas projetadas para repelir uma invasão marítima eram praticamente inúteis para responder a um ataque de artilharia, segundo analistas.

"A Coreia do Sul foi sobrepujada em Yeonpyeong", disse Daniel Pinkston, analista da Coreia do Norte para o International Crisis Group. "A Coreia do Norte está sempre procurando por fraquezas e não pelo ataque de força sobre a força".

É impossível prever onde a Coreia do Norte irá atacar em segudia, caso ataque. Mas os analistas apontam para várias possibilidades.

Uma delas seria o Mar Amarelo: Yeonpyeong é uma das cinco ilhas cercadas pelas águas que são reivindicadas por ambas as Coreias e foram os pontos mais comuns de disputa nos últimos anos. As opções da Coreia do Norte vão desde um outro ataque de artilharia até um ataque terrestre. O Norte também pode escolher outro alvo naval, como um dos navios de guerra ou bases flutuantes que o Sul mantém nestas águas. Analistas apontam para o Cheonan como um caso clássico da Coreia do Norte atacar pontos fracos: enquanto o Sul tem construído navios de guerra mais fortes e mais rápidos que os do Norte, o país aparentemente esqueceu de considerar a possibilidade de um ataque submarino.

Alguns analistas dizem que o Norte não tem queixas legítimas na sua disputa de fronteira marítima com o Sul no Mar Amarelo. Outros dizem que ele está usando a disputa para legitimar suas provocações e evitar aborrecimentos com a China, seu único aliado. Eles dizem que a China poderia perceber qualquer outro ataque como uma afronta às suas atuais iniciativas diplomáticas para convocar uma reunião de emergência entre a Coreia do Norte e outras nações.

Outro alvo deria a DMZ. Há especulação na mídia sul-coreana de que a Coreia do Norte pode atacar em algum lugar ao longo da zona desmilitarizada, ou DMZ, na fronteira pesadamente fortificada que divide a península desde a Guerra da Coreia de 1950 a 1953. Uma teoria é que o Norte pode montar um ataque de artilharia limitado através da fronteira na província de Gyeonggi, que cerca Seul, o coração político e financeiro da Coreia do Sul.

O ataque seria destinado a abalar os nervos do Sul e minar a sua vontade de lutar, dizem os analistas, ao invés de tentar infligir o máximo de dano a civis. Mesmo um pequeno ataque pode ser suficiente para causar pânico financeiro, dizem eles, prejudicando o mercado da Coreia do Sul e assustando investidores estrangeiros.

O próximo golpe também pode vir na forma dos chamados ataques assimétricos, que contornariam as vantagens militares do Sul, com ataques das cerca de 180 mil forças especiais do Norte a alvos fáceis em áreas civis.

Isso poderia ser uma bomba em um metrô ou trem, ou um ataque cibernético a um banco sul-coreano. Analistas dizem que há sinais de que o Norte pode estar desenvolvendo capacidades na tecnologia da informação, num momento em que as agências de segurança sul-coreanas acusam cada vez mais agentes norte-coreanos de usar a internet para espalhar propaganda no Sul, uma das sociedades mais conectadas do mundo.

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Soldados da Coreia do Sul fazem patrulha na ilha de Yeonpyeong

Pelo menos um especialista em segurança, Baek Seung-joo, do Instituto de Análises de Defesa da Coreia, disse esperar que a provocação da Coreia do Norte seja menos mortífera, talvez um outro teste nuclear ou de mísseis de longo alcance. Ele disse que as ações estratégicas seriam destinadas a pressionar não apenas o Sul a novas negociações sobre o desmantelamento do programa de armas da Coreia do Norte em troca de ajuda alimentar, mas também os Estados Unidos em negociações sobre as garantias de segurança para o governo da família Kim.

Por enquanto, os militares sul-coreanos estão concentrando a sua atenção em fortificar Yeonpyeong e as outras quatro ilhas do Mar Amarelo, após críticas por sua aparente fraca resposta semanas atrás. Os defensores da ilha atacaram com menos da metade das 170 rajadas disparadas pela Coreia do Norte, e as fotografias de satélite mostram que muitos de seus tiros acertaram fora do alvo, sem vítimas nos campos dos agricultores.

"Os militares da Coreia do Norte têm sido vistos como tigres de papel, devido à escassez de combustível e abastecimento", disse Kazuhisa Ogawa, analista militar com sede em Tóquio, "mas os militares da Coreia do Sul também revelaram que não estão prontos".

Na Ilha de Yeonpyeong, Choi, o oficial da cidade, disse que a prefeitura agora funciona 24 horas por dia e está pronta para levar o pequeno número de moradores que permaneceram na ilha a abrigos no caso de outro ataque.

"Não dormimos muito", disse ele, "mas eles não vão nos pegar desprevenidos novamente".

Por Martin Fackler

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