Sul-africanos pressionam por Copa com cara do país

População consegue forçar venda de ingressos em bilheterias, e não só online, e inclusão de artistas do país na abertura do evento

The New York Times |

O mascote oficial da primeira Copa do Mundo com sede na África - um leopardo de cabelo verde espetado - foi feito na China. O hino oficial do campeonato, "Waka Waka", foi escrito pela cantora colombiana Shakira. O restaurante oficial? McDonald's.

E a menos de três semanas do maior evento esportivo do mundo, apenas 36 mil dos 3 milhões de ingressos haviam sido vendidos na África fora da sede, a África do Sul. Em um continente no qual a maioria da população vive do lado errado do abismo digital, os ingressos foram comercializados principalmente online.

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O mascote da Copa do Mundo 2010 à venda em um shopping na Cidade do Cabo, África do Sul. Na etiqueta está escrito Made in China

"Essa não é a nossa Copa do Mundo", explicou Greg Fredericks, autoridade de alto escalão do comitê organizador da Copa do Mundo da África do Sul. Ele disse que a Fifa, órgão regulador do futebol com sede na Suíça, tem um papel dominante no evento. "Essa é a Copa do Mundo da Fifa. Nós somos apenas um palco."

Isso poderia ter sido o fim da história, mas estamos falando da África do Sul, um país que encerrou a segregação racial de um vicioso sistema há 16 anos para criar uma democracia barulhenta, rebelde e vibrante. Colocar o dedo na cara da autoridade está no DNA nacional. Portanto, os sul-africanos têm pressionado por mudanças.

Não é uma surpresa que muitos sul-africanos pobres e trabalhadores tenham ficado ofendidos com a dificuldade imposta para que comprassem ingressos.

Torcedores discriminados que não têm cartões de crédito ou acesso à internet ligaram para programas de rádio para reclamar de Danny Jordaan, presidente do comitê organizador da África do Sul, e ele levou a reclamação à Fifa.

Para comprar ingressos com dinheiro os fãs tinham que enviar uma inscrição por escrito em um banco, um processo que para muitos era custoso e desnecessariamente complicado. No final, a Fifa reconheceu os problemas e bilhetes passaram a ser vendidos diretamente ao público no dia 15 de abril.

As filas eram tão longas que algumas pessoas faziam comparações com as que se formaram durante a primeira eleição democrática da África do Sul, em 1994.

Desde então, 230 mil ingressos foram vendidos em bilheterias - elevando o total de vendas aqui a mais de um milhão, mais do que em qualquer outro país. Os Estados Unidos estão em segundo, com 130 mil ingressos vendidos.

Da mesma maneira, os sul-africanos, orgulhosos de seu rico patrimônio musical, ficaram furiosos quando perceberam a pequena presença de artistas locais na cerimônia de abertura do evento, também planejada pela Fifa, e a escolha de Shakira para o hino, algo dificilmente atenuado pelo fato de ela ser acompanhada por uma banda local, a Freshlyground

Oficiais da Fifa responderam que o campeonato é um evento mundial e a música deveria ser de "artistas internacionais contando com elementos da África do Sul". Mas músicos da África do Sul e seu sindicato não ficaram muito felizes e ameaçaram fazer um imenso protesto gratuito contra a Fifa no mesmo dia.

No dia 4 de maio a Fifa anunciou a programação oficial, incluindo nomes predominantemente sul-africanos.

*Por Celia W. Dugger

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