Sudaneses lutam para sobreviver a bombardeios intermináveis

Conforme divisão do Sudão se aproxima, governo de Cartum lança campanha agressiva para liquidar movimentos rebeldes

The New York Times |

Fatima Ramadan, mãe de seis filhos, congelou seus olhos fixos no céu. "Antonov!", ela gritou. Menininhas largaram as pedras com que brincavam. Crianças, percebendo o perigo, começaram a chorar. Cerca de duas dezenas de pessoas agarraram os mais jovens e correram para uma caverna na montanha. Estava quente e escuro lá dentro, e os olhos das crianças estavam arregalados de medo.

"Eu não gosto deste lugar", disse Kaka, uma menina de 10 anos de idade. Ninguém gosta. Ainda assim, milhares de pessoas vivem dessa maneira.

Conforme a divisão do Sudão - marcada para o dia 9 de julho - se aproxima, o governo de Cartum está agindo de maneira agressiva para acabar com qualquer rebeldia no território que permanecerá seu.

Suas forças têm agido de maneira implacável nas montanhas da região de Nuba, usando bombardeiros Antonov, para forçar milhares de combatentes rebeldes a abandonar as armas e oferecer mais autonomia para o povo de Nuba. Centenas de civis foram mortos, incluindo crianças.

Conforme a área se aproxima de estar totalmente envolta em guerra, as cavernas em Nuba oferecem um refúgio crucial. Todas as manhãs ao nascer do sol, Ramadan sobe uma colina de cerca de 300 metros de altura, carregando potes, jarros de água, colchões e cobertores, com as crianças atrás de si.

"Isso tudo é sobre a terra", disse Saida Bakhait, que também está escondida em uma caverna com seus filhos. "Bashir precisa da nossa terra e quer nos liquidar", diz ela, referindo-se ao presidente do Sudão, Omar Hassan al-Bashir.

Histórico

Como foi subjugado pelos governantes árabes do Sudão ao longo de gerações, o povo de Nuba ficou do lado dos rebeldes durante a segunda metade da última guerra civil do Sudão, disputada entre norte e sul nas décadas de 80 e 90.

O governo respondeu bombardeando as encostas, destruindo aldeias e prendendo centenas de milhares de pessoas de Nuba em chamados acampamentos de paz, onde muitos foram forçados a se converter ao islã na mira de armas. As pessoas fugiram para as cavernas naquela época também.

Um tratado de paz assinado em 2004 pedia que o povo de Nuba pudesse dizer algo na determinação de quanta autonomia iriam ter, mas a autonomia nunca veio.

Agora, ao que parece, o súbito interesse do governo em Nuba acontece por causa da independência do sul, que será formalizada no sábado. Cartum pode sentir que tem de enviar um sinal de que mesmo após a separação do sul, resultado de décadas de luta pela libertação, ele não tolerará outros movimentos de secessão.

"Eles perderam o sul do Sudão com amargura e agora estão projetando essa amargura em nós", disse um homem Nuba chamado Kuku.

*Por Jeffrey Gettleman

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