Sucesso no YouTube, sátira desafia o extremismo no Paquistão

Grupo formado por três jovens vira sensação com música que ironiza militares, conservadores religiosos e teóricos da conspiração

The New York Times |

Uma canção satírica que zomba do extremismo religioso, da militância e das contradições da sociedade paquistanesa se tornou um sucesso instantâneo no país, dando uma rara voz aos liberais do país.

A canção "Aalu Anday", que significa "Batatas e Ovos", é de um grupo de três jovens chamado Beygairat Brigade (ou A Brigada Sem Honra). Ela zomba abertamente dos militares, dos conservadores religiosos, dos políticos nacionalistas e dos teóricos da conspiração.

O vídeo no YouTube foi visto mais de 350 mil vezes desde a publicação em meados de outubro. A canção está recebendo críticas positivas na mídia local e é amplamente discutida – e compartilhada – em sites como Twitter e Facebook.

O próprio nome da banda é uma sátira dos nacionalistas e conservadores do Paquistão, que são frequentemente descritos na mídia local como a Brigada Ghairat, ou Brigada de Honra.

No passado músicos locais produziram canções difamando o Ocidente e especialmente os Estados Unidos, mas raramente eles ridicularizam os extremistas militares ou religiosos locais, e nenhum teve o sucesso da Beygairat Brigade.

Cantada em punjabi, a língua da província mais populosa e próspera do Paquistão, a música proporciona comentários mordazes sobre o meio sócio-político do país, em que o radicalismo religioso e a militância têm aumentado ao longo dos anos e a tolerância com as minorias religiosas está diminuindo.

Apenas este ano, um governador que se opôs À lei contra blasfêmia foi morto por um de seus guardas. O assassino foi depois celebrado por muitos no país, incluindo advogados que o receberam com pétalas de rosas e grinaldas.

A canção zomba do fato de que assassinos e extremistas religiosos são aclamados como heróis no Paquistão, enquanto alguém como Abdul Salam, o único cientista paquistanês ganhador do Prêmio Nobel, é muitas vezes ignorado porque pertencia à seita minoritária Ahmadi.

"Qadri é tratado como realeza", canta o vocalista, referindo-se Malik Mumtaz Qadri, o guarda da elite da polícia que matou o governador de Punjab, Salman Taseer, em janeiro, depois que ele desafiou a lei da blasfêmia.

Outra frase na canção, "onde Ajmal Kasab é um herói", faz referência ao único atirador paquistanês sobrevivente que esteve envolvido nos atentados terroristas de 2008 em Mumbai, na Índia.

Outra frase: "clérigo tentou fugir em um véu", alude ao clérigo chefe da Mesquita Vermelha de Islamabad – que foi alvo de um cerco em 2007 pelo governo paquistanês contra militantes islâmicos – que tentou sem sucesso romper o cordão de segurança através do uso de um véu.

A música chega a zombar do poderoso chefe do exército, o general Ashfaq Parvez Kayani, por ampliar seu mandato por mais três anos.

Batatas e ovos "nunca tiveram um gosto melhor", escreveu Fahd Husain em um comentário na terça-feira no jornal The Times, com sede em Lahore. "Eles vão sempre receber o crédito por agir de maneira politicamente incorreta quando mais se precisava disso e por dar voz a todos os paquistaneses que vivem com medo".

A popularidade da música na internet se tornou uma sensação na fronteira com a Índia, surpreendendo os membros da banda, que têm sido perguntados constantemente se sentem que têm colocado suas vidas em risco por ridicularizar os poderosos.

Veja o vídeo da música "Aalu Anday":

Existem, certamente, provocações suficientes para irritar nacionalistas e conservadores. Em determinado momento o vocalista diz, em inglês: "Este vídeo é patrocinado pelos sionistas".

Os membros da banda disseram ter optado por publicar a música no YouTube, em vez de entregá-la às redes de televisão locais porque seu o trabalho era muito feroz e poderia ser censurado. Não surpreendentemente, alguns criticaram a música e seus insultos como algo vulgar e de mau gosto.

"Não esperávamos uma resposta tão grande", disse Aftab Ali Saeed, 27, o vocalista, que mora em Lahore, uma cidade que muitas vezes é considerada a capital cultural do país. Ele disse que o assassinato de Taseer foi a inspiração para a música e sua letra.

Poesia e literatura de resistência não são novidades no Paquistão e a ajudaram a manter o espírito de luta durante os anos sombrios da ditadura militar.

Durante as manifestações de 2007, quando o movimento dos advogados liderou a campanha para derrubar o presidente Pervez Musharraf, os advogados cantavam e dançavam um poema escrito por Faiz Ahmad Faiz, considerado um gigante da literatura urdu.

Habib Jalib, outro famoso poeta paquistanês, escreveu vários poemas contra o general Mohammad Zia ul-Haq, o ditador militar na década de 1980. Mas "Jalib é irrelevante para a geração de jovens urbanos de classe média que segue a Beygairat Brigade", disse Nadeem Farooq Paracha, um crítico de cultura baseada em Karachi.

"Esta banda está oferecendo uma narrativa alternativa a esta geração e uma contra-narrativa aos conservadores e às noções conservadoras da política, da história e da sociedade defendidas por teóricos da conspiração e, claro, a mídia eletrônica de direita", acrescentou Paracha. "E que maneira melhor e mais eficaz de fazer isso do que usando a sátira e a música pop?"

Os membros da banda, por outro lado, não têm pretensões de ser revolucionários, ativistas ou intelectuais, embora sintam que a música representa aqueles que não acreditam no extremismo e querem viver pacificamente.

"No final", disse Saeed, o vocalista, "somos apenas músicos que levantaram algumas questões."

Por Salman Masood

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