Vácuo de poder nas instituições civis egípcias fizeram com que militares preenchessem altos níveis do governo

Quando uma caldeira na Fábrica Militar 99 explodiu no início de agosto, matando um trabalhador civil e ferindo outros seis, um grupo de funcionários convocou uma greve para exigir condições de trabalho mais seguras, algo que eles têm direito de fazer de acordo com a lei egípcia.

No entanto, antes do mês acabar, oito deles foram a julgamento – em um tribunal militar – por "divulgar segredos militares" e "interromper ilegalmente a produção".

A mensagem era clara: as regras que se aplicam ao resto do Egito não se aplicam aos militares, ainda a instituição mais poderosa em um Estado autocrático e que enfrenta seu teste mais difícil em décadas, uma iminente sucessão presidencial.

Soldados egípcios patrulham região de mesquita Sultão Hassan, horas antes da visita de Barack Obama (4/6/2009)
Getty Images
Soldados egípcios patrulham região de mesquita Sultão Hassan, horas antes da visita de Barack Obama (4/6/2009)
29 anos

O presidente Hosni Mubarak tem governado o Egito com poderes ditatoriais há 29 anos, mas está doente e não deve continuar no cargo depois que seu mandato atual chegar ao fim em 2011.

Oficiais reformados, militantes políticos e outros analistas dizem que a exibição de força dos militares diante da greve dos trabalhadores civis foi parte de um esforço concertado para pôr o carimbo militar sobre a escolha do próximo presidente.

Tecnicamente, os eleitores egípcios determinarão o seu próximo líder nas eleições de 2011, mas na prática a vitória é quase certa para o candidato do partido do governo. A verdadeira luta pela sucessão ocorrerá a portas fechadas, e é lá que os militares irão tentar garantir a continuidade de seu status ou mesmo tentar impedir o filho de Mubarak, Gamal, de chegar ao poder.

Autoridades militares apresentaram ressalvas em entrevistas e na mídia egípcia sobre Gamal Mubarak, um dos possíveis sucessores do presidente mais citados. Oficiais reformados e outros analistas disseram que os militares não apoiariam a sua candidatura sem garantias de que sua chegada ao poder iria manter a sua posição proeminente nos assuntos da nação.

No mês passado, alguns oficiais reformados circularam uma carta aberta criticando a candidatura de Gamal Mubarak e disseram em entrevistas que têm dúvidas sobre a sucessão hereditária. De acordo com esses oficiais e analistas, os militares têm muito a perder no processo de transição.

Vácuo

Anos de poder nas mãos de um único homem deixaram à margem instituições civis do Egito, criando um vácuo nos mais altos níveis do governo que os militares preencheram de boa vontade. "Já não há nenhuma instituição civil a qual podemos recorrer ", disse Michael Hanna, pesquisador da Fundação Century, que tem escrito sobre o exército egípcio. "É uma questão em aberto quanto poder os militares têm, e pode ser que nem mesmo eles tenham a resposta a isso".

Os militares egípcios, que receberam quase US$ 40 bilhões em ajuda dos EUA ao longo dos últimos 30 anos, transformaram-se em uma gigante força que controla não apenas a segurança e uma indústria de defesa cada vez maior, mas também tem ramificações em empresas civis, como as de construção de estradas e habitação, bens de consumo e gestão turística.

Para aumentar seu poder e prestígio, as Forças Armadas se ocultam por trás de um véu de sigilo, respondendo diretamente ao presidente, não ao primeiro-ministro ou a membros do gabinete.

*Por Thanassis Cambanis

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