Sua Majestade ainda reina

O banco traseiro de uma limusine alongada fazendo uma curva fechada não é lugar para passar lápis no olho, mas Queen Latifah não titubeou. A caminho de uma reunião na Cover Girl, onde ela é o rosto ¿ e o nome ¿ de sua coleção Queen (maquiagem para mulheres negras), ela deu uma rápida retocada. Olhando-se no espelho, ela esticou o olho e, enquanto o carro dobrava à esquerda, desenhou uma linha perfeita. Encarei o lápis.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Ali é a Cover Girl? perguntei.

É, ela disse, sem tirar o olho do espelho. Se é que te interessa. Ri enquanto ela o deixou cair rapidamente dentro da bolsa e puxou um grosso tubo laranja de Lash Blast para os cílios. Aqui é a Cover Girl.

Com ou sem maquiagem, o rosto de Latifah está no centro da sua fortuna. Com seus olhos em formato de castanha e bochechas curvilíneas, ela poderia ter sido pintada por Gauguin, apesar de sua beleza ser própria, animada por uma autoconfiança inata, quente e bem-humorada que a maioria das mulheres adoraria ter. Sua fama, nos filmes e na televisão, veio do talento de interpretar personagens secundárias ou forasteiras, a garota cheia apenas no corpo, cujo coração e cérebro são a melhor defesa contra os ricos malvados, magrelos e competitivos.

Durante os dois dias que passei com Latifah, vi pessoas reagirem a esse rosto diferente com gritos de animação e felicidade. A história dela é bem conhecida por muitos deles.

Dana Owens de Newark foi criada como batista e se nomeou Latifah quando criança, depois que descobriu que em árabe era delicada, sensível e bondosa. Aos 38 anos, ela já tem várias carreiras. Lançou o primeiro álbum, All Hail the Queen, aos 19, o qual, com o sucesso Ladies First a estabeleceu como a mulher mais conhecida do rap, proclamando uma mensagem de autorrespeito e fortalecimento feminino em um gênero famoso pela misoginia. Ela ganhou um Grammy por melhor performance solo de rap em 1994 e foi indicada outras seis vezes, incluindo o jazz-vocal Dana Owens Album, que está pronto.

Em dezembro vai lançar um novo cd de rap produzido por Cool and Dre.
 Desde 1991, quando apareceu em um papel pequeno em Jungle Fever, de Spike Lee, Latifah fez quase 30 filmes e recebeu uma indicação ao Oscar pelo papel de Mama Morton, a matrona da cadeia em Chicago. Na televisão, ela apresentou o próprio talk show por dois anos e participou da série da Foz Living Single. No ano passado, na HBO, estrelou no filme Life Support, pelo qual ganhou um Globo de Ouro e uma indicação ao Emmy. Ela foi também um dos produtores executivos, assim como em muitos de seus projetos.

Com a mãe, Rita Owens, e o amigo de infância, Shakim Compere, ela fundou a Flavor Unit Entertainment, empresa de gerenciamento e produção, quando tinha 20 anos. Com a ajuda de Compere, Latifah ainda gerencia a própria carreira; a Flavor Unit representa o ator Terrence Howard e a rapper Eve, entre outros.

Ela voltou das férias de um mês ¿ Egito, Mykonos, Barcelona, Ibiza, Londres ¿ um dia depois do dia do trabalho, e na manha seguinte fomos para a Cover Girl. Menos de 48 horas antes ela tinha saído de Toronto, onde seu filme mais recente, The Secret Life of Bees, estreou no festival de cinema da cidade. O filme é baseado no romance best-seller de Sue Monk Kidd e também conta com a presença de Dakota Fanning, Sophie Okonedo, Alicia Keys e Jennifer Hudson. O lançamento é no dia 17 de outubro.

Enquanto entrávamos no prédio em Hunt Valley, Maryland, as secretárias se aglomeravam nas portas e acenavam. Quatro executivos da Procter & Gamble que representam a Cover Girl se reuniram na grande sala de conferência.

Latifah tem sido porta-voz da companhia desde 2001. Ela a encorajou a criar a coleção Queen em 2005, sabendo como é difícil para mulheres negras encontrar tons de maquiagem adequados para a pele, principalmente a preços acessíveis. Apesar de a Cover Girl não revelar os ganhos com a coleção Queen, os executivos disseram que a linha está crescendo mais rápido do que qualquer outra marca de cosmético étnico.

Estou pensando em escurecer debaixo dos olhos, disse Latifah. Devemos pegar algumas daquelas idéias de hidratantes Olay para esconder olheiras. Ele cura enquanto cobre. Hidrata e iguala o tom da pele. Os executivos tomaram nota.

Fico pensando sempre em lenços, continuou Latifah. Produtos capilares escorrem pela pele, e gostaria de uma refrescante limpada. Não sei como esse negócio funciona, mas devíamos investigar e ver se é viável. Pode ser embalado em uma promoção. Talvez uma parceria com o Lash. Ver se as pessoas respondem a isso. Eles prosseguiram anotando.

Dois empresários narraram uma apresentação de slides, cheios de clichês, sobre quem é a consumidora da coleção Queen e o que ela quer. Compere verificou as mensagens debaixo da mesa e Jarrod Moses, executivo de marcas e marketing que ajuda a gerenciar o negócio de Queen Latifah na Cover Girl, batucou os dedos em cima dela. Latifah manteve os olhos na tela, até que interrompeu. Você pulou o No. 2 delicadamente, afirmou. Como cuidar da pele agora afeta a aparência mais adiante na vida. O que traz de volta aos meus lenços. Essa consumidora sou eu.

Ele então repetiu rapidamente uma série de sugestões para alcançar o consumidor por meio de promoções e eventos. Olhou para um slide intitulado Produtos Baseados em Minerais. O que é isso exatamente? perguntou.

A última moda em massa, lhe disseram, significando mercado de massa. Ela notou o imenso número de vendas na tela. Ei, aqui está um meio feliz, disse. Que tal nossos próprios lenços minerais? Com esses números, acho que vale a pena investigar.

A cena se tornou quase surreal, como se isso não fosse a vida de maneira nenhuma, mas um dos filmes de Latifah, em que uma mulher qualquer abre caminho em uma reunião e é, sem esforço, mais esperta do que o resto. Pense na garota trabalhadora que encontra Cinderela, com Latifah fazendo papel duplo como sua própria Fada Madrinha, porque como acontece com tanta freqüência em seus filmes, ela inventa o próprio resgate várias vezes. Fora das telas, a magia vai para o caminho fora de moda, de trabalho persistente, complicado. Aprendi cedo, ela me disse, que tinha que trabalhar mais do que as crianças brancas e mais do que os meninos.

Tenho 11 idéias aqui, um executivo se espantou, olhando a lista.

O último conselho de Latifah era a necessidade de expandir as marcas pelos oceanos. É um bom pensamento, um dos executivos disse, ansioso para continuar. Latifah não estava. Cheguei na hora no Oriente Médio, ela falou, e as mulheres sauditas cobertas até aqui vêm e dizem, Posso tirar uma foto com você? Elas usam muita maquiagem, não se engane. Elas superam essa cara. E em Londres, não conseguia andar meio quarteirão em Brixton sem ser reconhecida. Uma das garotas estava tão ocupada me perseguindo para fora da loja que passou por mim. Tudo que estou dizendo é que quando recebo esse tipo de atenção em dois lugares diferentes desse jeito, como podemos nomear essa coisa de Queen Latifah? Precisamos continuar erguendo o que temos aqui. São mercados disponíveis.

Foi difícil argumentar contra isso. Eles lhe garantiram que iriam averiguar. De volta à limusine, ela ergueu os pés, contente. Foi um golaço, e ela sabia. Naquela hora, um carro parou do nosso lado. Nós te amamos! uma mulher gritou. Latifah baixou o vidro e acenou. Obrigada, disse.

Corta. Imprime. Dava para ver os créditos passando praticamente. Filmado em Hunt Valley, Maryland.

A Flavor Unit Entertainment está baseada em um pequeno prédio dos bombeiros renovado em Jersey City, em frente a uma fábrica Manischewitz abandonada. Uma Latifah menos glamorosa entrou. Era de alguma forma inevitável que no segundo dia de volta das férias, a estrela brilhasse menos intensamente.

Oi para todos, disse, um pouco cansada. Vestia jeans pretos, uma camiseta preta e tênis pretos, e portava uma jaqueta da Nike com a etiqueta ainda ali.

Depois de uma reunião com Compere, ela e eu descemos as escadas para a sala de conferências para uma conversa particular. Compere nos seguiu, incomodando-a para que ligasse para alguém que ela obviamente não gostava. Aquele lá é esperto como uma bola de basquete, disparou.

Prometa-me que quando terminar você vai fazer essa ligação antes de sair do prédio, Compere disse. Ela não respondeu.

Encontrei muito de minha mãe nesse papel, o que não é algo que eu faço comumente, ela falou sobre The Secret Life of Bees. Ela interpreta August Boatwright, apicultura e a mais velha de três irmãs que administra uma loja de mel na Carolina do Sul no início dos anos 1960. Ela abriga uma criança de 14 anos órfã de mãe e o negro que detém a guarda dela, os quais fugiram de uma cidade interiorana.

A forma com que August lida com as situações é de um lugar de confiança, ela prosseguiu. Ela é estudada, é dona de propriedade e de um comércio, e praticamente uma mãe para as irmãs. Muito dela me lembrou a minha mãe porque ela era professora e também uma pessoa reservada. Nossa casa era sempre um porto seguro para mamãe.

A mãe de Latifah, Rita Bray, se casou com Lance Owens, veterano do Vietnã e policial de Newark, em 1965, quando ela tinha 16 anos. Tiveram um filho, Lance Jr., que era dois anos mais velho que Dana. Quando ela tinha 8 anos, seus pais se separaram e depois se divorciaram. Rita, deixando as crianças no conjunto habitacional, foi para a faculdade, se formou e se tornou professora de arte do Ensino Médio.

Rita Owens ainda é uma dona do Flavor Unit. Lance Jr., que Latifah descreveu longamente como seu melhor e mais próximo amigo, se tornou um policial em East Orange, N.J. Ambas as crias compartilhavam uma paixão por motos, e Latifah ajudou o irmão a comprar uma no seu aniversário de 24 anos, em 1992. Ela morreu quando a pilotava. É um peso sobre o qual ela falou com freqüência antes, dizendo que, durante cinco anos depois de sua morte, ela estava aqui, mas não aqui. No entanto ela conseguiu retornar para a moto. E ainda a pilota.

A mãe e ela estabeleceram uma fundação em homenagem a Lance Jr., e a cada ano ela garante bolsas para universidades para quatro alunos. Ela se mantém próxima aos pais, após um período de distanciamento do pai durante a adolescência.

Ele não estava presente em alguns aspectos, financeiramente, quando precisávamos da ajuda dele, disse. O Vietnã teve muito a ver com isso, e ele estava lidando com um problema de drogas na época. Ele conseguiu se livrar disso.

Lance Owens é hoje um fornecedor, e também oferece segurança para a filha nas locações dos filmes e trabalhou como o motorista dela. Ele não trabalha para mim, ela trabalha comigo, ela corrigiu. Ele tem tentado mesmo fazer um esforço para compensar o tempo perdido à sua própria maneira. Sou uma pessoa que perdoa, então está tudo bem por mim.

A tranqüilidade dela é louvável, mas ajuda saber que ela não foi sempre assim. Ela admite que teve comportamentos selvagens na juventude. Envolveu-se com tráfico de drogas ¿ Fiz isso um par de vezes para ver se conseguia; aos 16 fez sexo com um homem de 40 anos e recebeu 50 dólares. Houve outras manobras consideradas erradas: em 1995 estacionou sua BMW no Harlem, onde ela e o amigo Sean Moon tiveram o carro roubado, e Moon levou um tiro que o machucou severamente na frente dela. No ano seguinte ela foi parada por excesso de velocidade, e foi presa quando a polícia encontrou uma pistola calibre .38 carregada e maconha no carro. Ela pagou uma multa e recebeu dois anos de condicional.

Ela aprendeu a ser menos acessível através dos anos, recusando-se a dizer onde mora em Los Angeles e em New Jersey. Nem todos são amigos, não é seguro, afirmou. Algumas pessoas não estão com os parafusos no lugar. Você tem que ter cuidado.

Latifah mantém laços fortes com a família, diz, incluindo tias, tios, primos e os outros filhos do pai, apesar de falar que a base da autoconfiança vem dos pais.

Conheço pessoas que são duas vezes mais criativas que eu, duas vezes mais espertas, falou, mas não fizeram nada porque temeram entrar em uma sala e abrir a boca. Meus pais me disseram que, para conseguir de fato as coisas na vida, haveria ocasiões em que eu ficaria sozinha. Pode ser assustador, mas é o que é exigido. Então, quando tive que ficar sozinha, eu consegui. Entendi de onde vinha, então espero que todos os demais consigam um dia.

Era hora de ir. Ela me acompanhou até lá em cima para que eu pudesse me despedir de Compere. Mal havia acabado de sair e ele estava falando com ela de novo para ligar para o cara que ela não queria. Vai, Dana, ouvi, mas a porta se fechou e não pude ouvir a resposta.

Esperei ainda um momento, mas a porta permaneceu cerrada, Meu palpite é que ela ligou. No dia anterior foi a estréia de Cinderela. Neste dia, como na maioria dos outros, era a vez de a Fada Madrinha se apresentar e cuidar dos assuntos.

Por Alex Witchel, escritor da revista do The New York Times

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