Sotaque de professores cria debate sobre direitos civis no Arizona

Investigação federal leva Estado americano a encerrar política que fiscalizava pronúncia de imigrantes em escolas

The New York Times |

Quando a professora Guadalupe V. Aguayo coloca a mão sobre o peito, olha para a bandeira americana no canto de sua sala de aula e lidera a classe do segundo ano na Pledge of Allegiance (Promessa de Lealdade, em tradução livre), ela pronuncia algumas das palavras –lealdade, república e indivisível – com um perceptível sotaque.

Quando ela pede a seus alunos, na maioria latinos, que concluam seu café da manhã, fiquem quietos ou peguem seus deveres de casa, o mesmo sotaque marca sua entoação.

NYT
Guadalupe Aguayo fala aos alunos em escola de Phoenix, no Arizona (21/09)

Guadalupe é professora da escola elementar do distrito de Creighton, no centro de Phoenix, no Arizona, e uma imigrante do norte do México que aprendeu inglês quando adulta. Confrontada sobre seu sotaque pela diretoria de sua escola há muitos anos, Aguayo frequentou uma aula de atuação, consultou um fonoaudiólogo e um especialista em redução de sotaque - nenhum deles transformou sua fala.

Durante a luta de Guadalupe, porém, outra coisa mudou. Depois de quase uma década enviando monitores para as salas de aula para verificar a articulação dos seus professores, o Arizona adotou recentemente uma mudança sobre o assunto. Uma investigação federal sobre possíveis violações dos direitos civis levaram o Estado a cancelar a sua política contra o sotaque.

"Até onde seu, não vimos políticas como essa em outros Estados", disse Russlynn H. Ali, secretária-assistente de educação para os direitos civis. Ela disse ser uma "boa notícia" que o Arizona tinha alterado a medida.

Silvério Garcia Jr., que dirige uma organização de combate à discriminação chamada Centro de Direitos Civis, foi quem pressionou pelo fim da política do sotaque. Em maio de 2010, ele registrou uma queixa coletiva no Departamento Federal de Educação, alegando que professores tinham sido injustamente transferidos e a educação com eles tinha sido negada aos estudantes. O Departamento de Justiça se juntou ao inquérito, mas os investigadores federais arquivaram a queixa de Garcia no final de agosto, depois que o Estado concordou em alterar as suas políticas. "Era como se uma cultura dissesse a outra cultura que ela não está falando corretamente", disse Garcia.

O Estado diz que sua análise dos professores estava de acordo com a política conhecida como No Child Left Behind (Nenhuma Criança Deixada para Trás), que exige que os professores sejam fluentes em inglês para ensinar os alunos que estão aprendendo inglês. Funcionários do setor de educação do Estado dizem que o sotaque nunca foi o foco de sua fiscalização.

"O que buscávamos era o constante mau uso da língua ou pronúncia do idioma", disse Andrew LeFevre, um porta-voz do Departamento de Educação do Estado. "É extremamente importante que os professores sejam modelos quando se trata da linguagem."

Mas a revisão federal descobriu que o Estado havia prejudicado professores por causa de sua pronúncia. Eles não foram demitidos, mas seus distritos escolares eram obrigados a trabalhar com eles para melhorar sua fala. Isso aconteceu até quando a escola local já havia avaliado os professores como fluentes em inglês.

"É uma forma de preconceito", disse Araceli Martinez-Olguin, uma advogada do Legal Aid Society Law Center em San Francisco, que representa Guadalupe em uma queixa de discriminação. "As pessoas ouvem um sotaque e acham que isso significa alguma coisa."

John Huppenthal, superintendente de instrução pública do Arizona, enviou sinais contraditórios sobre a posição do Estado em relação ao sotaque.

Em um artigo recente no jornal The Arizona Republic, ele disse que iria procurar a autoridade legislativa para permitir o monitoramento da fluência em inglês dos professores do Estado.

Na escola elementar do distrito de Creighton, onde cerca de uma dúzia de professores atraiu a atenção dos monitores do Estado, um especialista em redução de sotaque, Andy Krieger, foi trazido do Canadá no ano passado para lidar com as preocupações governamentais.

Krieger, que ensinou atores, executivos e outros profissionais de todo o mundo a falar “inglês americano”, disse que alguns dos professores tinham o que ele considera um sotaque pesado.

"Todos precisavam de ajuda", disse. "Se 10 pode ser considerado um sotaque muito ruim, alguns eram 7 ou 8, e alguns eram 10 mesmo".

Das dezenas que fizeram aulas com ele, cinco ou seis progrediram de maneira impressionante. Mas apenas um professor aceitou sua oferta de acompanhar o progresso posteriormente pelo Skype.

"Muitos são bons professores e têm outras grandes qualidades", disse Susan Lugo, diretora de recursos humanos do distrito de Creighton, onde 95% dos estudantes são membros de grupos minoritários e cerca de um terço dos estudantes fala outras língua além do inglês.

Susan não quis comentar o caso de Guadalupe.

Foi a diretora de Guadalupe - e não os monitores do Estado - quem questionou pela primeira vez seu sotaque e sugeriu que ela participasse da aula de Krieger. Como lhe foi dito que a política do Estado a proibia de ensinar alunos que estavam aprendendo inglês, ela entrou com uma queixa na Comissão Federal de Oportunidades Iguais de Emprego.

"Tenho as mesmas credenciais que muitos outros e não acho justo que eu seja diferenciada", disse Guadalupe, acrescentando que sua escola tem professores com uma variedade de sotaques regionais americanos. "Sei que tenho sotaque. É difícil me livrar dele e acho que vou tê-lo sempre."

A população do Arizona aprovou um referendo em 2000 limitando as aulas ao inglês. Antes disso, o Estado havia contratado centenas de professores da América Latina para ensinar crianças em espanhol, sua língua nativa.

Quando se trata de sotaques, não há unanimidade.

"As crianças devem se concentrar no material, e não em tentar traduzir o que o professor está dizendo", disse Bryan Miller, um estudante do Estado do Arizona.

Kimberly Lujan, um contador de Peoria, subúrbio de Phoenix, rebateu: "Se uma criança está aprendendo, se tem produtividade e está recebendo um bom ensino de um professor com um sotaque pesado, então por que isso importa?"

O sistema estadual que limita o ensino em inglês também está sendo analisado, com investigadores federais revendo a forma como o Estado separa por quatro horas diárias aqueles que são novos na língua. Críticos como Garcia argumentam que esses alunos nunca vão recuperar o atraso e que a eles está sendo negada a oportunidade de aprender o idioma com colegas que falam inglês.

"Estamos investigando tudo isso", disse Ali, do Departamento de Educação federal.

Por Marc Lacey

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