Somália tenta se livrar de um destino amaldiçoado pela anarquia

A comunidade internacional entendeu tudo errado sobre a Somália?

The New York Times |

Depois de 17 anos, 14 governos de transição e mais de US$ 8 bilhões em ajuda estrangeira, o país está tão violento e sem leis ¿ e muitos dizem que sem esperança.

No começo do mês, um homem que administrava um orfanato há 18 anos foi morto com um tiro na cabeça. Alguns dias antes, 20 mulheres que varriam as ruas foram atingidas por uma bomba escondida sob uma montanha de lixo. Ninguém está seguro, e talvez nenhum lugar no mundo se assemelhe tanto à descrição do estado de natureza de Thomas Hobbes, onde a vida é suja, brutal e curta.

Nada parece tirar a Somália de sua maldição de anarquia. E parte do problema, argumenta um número cada vez maior de acadêmicos e profissionais somalianos, é que a maior parte de esforços estrangeiros se concentrou em criar um forte governo central, o que pode ser um anátema em um país onde a autoridade tende a ser difusa e baseada em clãs.

Governo sem popularidade

A ONU e outros países doadores injetaram milhões de dólares no Governo Federal de Transição, uma entidade essencialmente criada pelo órgão, com a idéia de trazer ordem à Somália hierarquicamente.

Mas o governo de transição está por um fio. Sua presença em Mogadishu, a capital, está limitada a poucos quarteirões que são constantemente bombardeados. É impopular e, como conseqüência, fraco. Seus líderes são consumidos por lutas internas.

O presidente Abdullahi Yusuf Ahmed, um senhor da guerra, tem certeza que o primeiro-ministro Nur Hassan Hussein, ex-funcionário da Cruz Vermelha, teve a ousadia de tentar atirar no prefeito de Mogadishu, outro ex-senhor da guerra ¿ o ex é algo mais formal porque ele é acusado de ter um grupo de extorsão.

Ken Menkhaus, professor da Faculdade Davidson, nos EUA, e especialista em Somália, comparou o governo de transição com uma ampulheta, sem nenhum nível profissional ou serviço civil em seu centro. Pelo contrário, existem vários ministros no topo, inúmeros soldados na base e nada no meio.

De baixo para cima

Mas pode haver outra resposta: regionalizar.

Muitos intelectuais somalianos e acadêmicos ocidentais estão procurando por uma forma alternativa que pode ser melhor para a fluidez da Somália, uma sociedade fragmentada e descentralizada. A nova idéia, na verdade algo antigo que parece estar voltando por causa das deficiências do governo de transição, é de reconstruir a Somália de baixo para cima.

Isso é chamado de abordagem da construção de blocos. Os primeiros seriam pequenos governos em níveis mais baixos, vilas e cidades. Isso seria a base de formação de administrações distritais e regionais. O último passo seria uni-las em uma federação nacional livre que controlaria, digamos, problemas de moeda e a costa infestada de piratas, mas não se alinharia com líderes locais.

É a única maneira viável, disse Ali Doy, um analista somaliano que trabalho junto com a ONU. Governos locais é onde está a verdadeira governança. É mais realista, sustentável e seguro.

Tecnicamente, o atual governo de transição é um sistema federal que teria que dividir o poder com várias regiões, mas não está claro, mesmo para aqueles dentro dele, o que isso significa exatamente.

História conturbada

A Somália sempre foi um lugar difícil para governar. Na superfície, parece como um dos países mais homogêneos do planeta: quase toda a sua população ¿ estimada entre sete e oito milhões ¿ têm a mesma língua, cultura, religião e etnia. Mas, na verdade, é uma das mais fragmentadas. No país, tudo se volta para os clãs.

Os italianos e britânicos colonizaram lugares diferentes, mas suas tentativas de impor leis ocidentais nunca funcionou de verdade. As disputas costumavam ser resolvidas pelos anciãos dos clãs. A ameaça era a chave: mate-me e você sofrerá a ira de todo o meu clã ¿ isso, para muitas pessoas, era ordem social.

Os lugares onde os costumes locais foram menos perturbados, como na Somalilândia, de administração britânica, parecem ter ido melhor no longo prazo, com menos lutas hoje do que em áreas onde a administração colonial italiana suplantou o papel dos líderes tradicionais.

Muitos somalianos tiveram suspeitas sobre um governo central forte, especialmente depois dos anos sombrios do general Mohammed Siad Barre, o ditador que governou de 1969 a 1991. O Estado nunca teve legitimidade nenhuma, disse Tobias Hagmann, um especialista em Somália da Universidade de Zurique.

Os senhores de guerra dos clãs derrubaram o general Siad Barre, depois se voltaram uns contra os outros. Em alguns locais, governos locais limitados apareceram para preencher o vácuo de autoridade. Em alguns lugares, eles se chamavam de administração e forneciam alguns serviços, como resolver disputas de propriedades ou julgar suspeitos de roubos em tribunais baseados no islamismo e na costumeira lei somaliana.

No começo de 2005, vários desses tribunais locais começaram a ganhar força, e, em 2006, eles se uniram sob uma bandeira islâmica de lutar contra os senhores da guerra que eram pagos pela Agência Central de Inteligência. Os tribunais islâmicos ganharam, desarmando e pacificando boa parte do centro-sul da Somália, seguindo sua própria versão da construção por blocos. Mas os EUA e a Etiópia consideraram os tribunais islâmicos uma ameaça, e os etíopes receberam ajuda norte-americana para invadir o país.

Obstáculos e desafios

O resultado hoje é uma força guerrilheira islâmica em ascensão, um governo de transição ferido e dividido e uma Etiópia cada vez mais impaciente. Junto com exploradores de guerra na Somália, incluindo contrabandistas de armas e importadores de leite em pó para bebês vencido, o país parece ser uma receita para o desastre a longo prazo.

Funcionários de instituições internacionais de ajuda dizem que a Somália parece estar caminhando rumo a fome, com quase três milhões de pessoas dependentes de ajuda alimentar de emergência, 1.5 milhão de desalojados, e muitos estrangeiros que estão lá para ajudar sendo mortos. Apesar disso, o governo local parece não ter sido reprimido. Em uma área, um grupo de somali-americanos usou seu próprio dinheiro para montar uma força policial e um sistema judiciário rudimentar baseado nos laços dos clãs.

Você não pode começar de cima para baixo; isso é um desperdício de energia, disse Mohamed Aden, 36 anos, um administrador de sistemas de saúde do Estado da Minnesota, EUA, que colocou em jogo sua poupança ¿ e sua vida ¿ para montar uma administração local no centro da Somália.

Ele explicou: você tem que começar de baixo. As pessoas não confiam umas nas outras. Você começa pequeno, e quando todas verem que está funcionando, elas irão se unir.

Mas a abordagem de construção de blocos tem seus desafios. A ONU tentou incentivar a criação de conselhos distritais representativos no começo dos anos 90, mas os senhores de guerra de Mogadishu se sentiram ameaçados e sabotaram os esforços.

Sempre haverá aqueles que tentam arruinar tudo no centro, disse Hassan Sheik Mohamud, reitor de uma pequena faculdade em Mogadishu. Idealmente, de baixo para cima seria muito bom para a Somália. Mas o problema são os senhores da guerra. Para fazer qualquer governo funcionar, eles precisam ser incluídos, de alguma maneira.

Existem também realidades burocráticas. Diplomatas ocidentais, doadores estrangeiros e a ONU preferem lidar com um governo, não 26. Não acho que o governo de transição seja tão eficiente, disse Ahmedou Ould-Abdallah, o principal enviado da ONU para a Somália. Mas é o que temos.

- Jeffrey Gettleman

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