Soldados morrem cada vez mais jovens no Afeganistão

Os 125 militares dos EUA mortos neste ano tinham em média 25 anos - 3 a menos do que há dois anos; número de mortes supera 1 mil

The New York Times |

AP
Equipe de fuzileiros navais carregam caixão com corpo de soldado morto no Afeganistão (19/05/2010)
Ele era um adolescente irreverente com uma namorada grávida quando a ideia passou por sua cabeça pela primeira vez: entrar para as Forças Armadas dos EUA, criar uma família. Ela fez um aborto, mas a ideia permaneceu. Patrick S. Fitzgibbon, Saint Paddy para os amigos, tornou-se o soldado Fitzgibbon. Depois de três meses de treinamento básico, ele foi para a guerra.

Desde seu posto avançado na Província de Kandahar, no Afeganistão, ele se queixava ao pai da escassez de cigarros, balas Skittles e refrigerante Mountain Dew. Mas se orgulhava de seu trabalho e se voluntariava a fazer as patrulhas necessárias. Em 1º de agosto de 2009, em uma dessas missões, Fitzgibbon pisou numa placa de metal conectada a uma bomba enterrada no solo. O céu azul ficou marrom por causa da poeira.

A explosão matou imediatamente Fitzgibbon, 19 anos, de Knoxville, Tennessee, e o oficial Jonathan M. Walls, um jovem pai de 27 anos de Colorado Springs. Uma hora mais tarde, um terceiro militar que ajudava a garantir a segurança da área, o soldado de primeira classe Richard K. Jones, 21, de Roxboro, Carolina do Norte, morreu por causa de outra bomba escondida. As duas explosões feriram pelo menos outros dez soldados.

Na terça-feira, o número de americanos mortos no Afeganistão ultrapassou 1 mil, depois que um homem-bomba em Cabul matou pelo menos cinco membros do Exército dos EUA . Depois de levar quase sete anos para chegar aos primeiros 500 mortos, a guerra matou outros 500 em menos de dois anos. Uma expansão da ação da milícia islâmica Taleban em quase todas as províncias, um governo central fraco e incapaz de proteger o seu povo e um número maior de soldados americanos no país contribuíram para acelerar o ritmo das mortes.

O caos do último mês de agosto, quando os afegãos realizaram eleições nacionais, foi um alerta para muitos americanos sobre a deterioração da situação no país. Naquele mês, 47 americanos morreram, mais do que o dobro do mesmo período um ano antes, fazendo de agosto o mês mais fatal dessa guerra.

Em muitos aspectos, Fitzgibbon foi o exemplo típico da nova onda de mortes em combate. Os soldados americanos morrem mais jovens, geralmente assim que deixam o treinamento, mostram os registros militares. De 2002 a 2008, a idade média de agentes em ação no Afeganistão era de cerca de 28 anos; no ano passado, ela baixou para 26. Este ano, os mais de 125 soldados mortos em combate tinham em média 25 anos de idade.

Nos últimos dois anos, o número de soldados mortos por bombas caseiras, que os militares chamam de dispositivos explosivos improvisados (ou IED, na sigla em inglês), aumentaram significativamente. Já, no início da guerra, granadas e trocas de tiros tiraram mais vidas. Mas, em 2008, pela primeira vez mais da metade das mortes americanas foram o resultado de IEDs, que - tal como aconteceu no Iraque - se tornaram mais potentes e abundantes no Afeganistão.

As mortes resultantes de IEDs acontecem em grupos: em agosto passado, por exemplo, 17 das 25 mortes causadas por IEDs - incluindo aquela que matou Fitzgibbon e Walls - envolveram ataques em que mais de um soldado morreu. Em histórias posteriores, o verão de 2009 pode servir como uma virada na guerra, um momento no qual não apenas a atenção pública americana se voltou para o Afeganistão, mas quando o governo Obama se sentiu obrigado a analisar e rever toda a sua abordagem em relação à guerra.

Os meses quentes há muito têm os mais intensos combates no Afeganistão, quando insurgentes emergem de seus refúgios nas montanhas para armar emboscadas e recrutar novos combatentes. Mas nas semanas que precederam a eleição presidencial em agosto, o alcance do Taleban foi mais amplo e potente do que em qualquer outro período desde que foram tirados do poder.

Não apenas o número de atentados e ataques suicidas dispararam, mas os próprios dispositivos se tornaram mais potentes, capazes de atingir até mesmo veículos fortemente blindados que antes pareciam imunes. Uma bomba de cerca de meio quilo matou sete soldados americanos e o seu intérprete em um veículo militar no outono passado.

Julho, agosto, setembro e outubro entraram para a história como os quatro meses mais fatais para as tropas americanas desde que a guerra começou.

Depois de receber um alarmante relatório sobre a guerra de seu principal comandante no Afeganistão, o presidente Barack Obama ordenou o destacamento de mais 30 mil soldados para a guerra, muitas das quais chegarão ao país neste verão.

Mas, ao pedir mais tropas, Obama e outros defensores do novo destacamento alertaram que o número de baixas, americanas e afegãs, certamente aumentariam antes que a segurança melhorasse. A violenta batalha na Província de Helmand este ano demonstrou que eles tinham razão, com 16 mortos em combate, em comparação aos 2 mortos em fevereiro do ano passado.

"Se o Taleban obteve controle político de partes importantes do país, a única maneira da situação melhorar será o uso de forças militares que contestem esse controle", disse Steven Biddle, especialista em políticas de defesa do Conselho de Relações Exteriores que faz parte de um grupo que analisou a estratégia americana no verão passado. "E isso deixará mortos: entre os combatentes deles, os nossos soldados e civis."

* Por James Dao e Andrew W. Lehren

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