Soldados iraquianos feridos reclamam do abandono do governo

BAGDÁ - Dawoud Ameen, ex-soldado iraquiano, está de cama, suas pernas amputadas, mas sua maior preocupação é o pagamento do aluguel da casa onde sua família de cinco pessoas vive.

The New York Times |

As pernas de Ameen foram atingidas por uma mina terrestre em setembro de 2006 e agora, como muitos dos membros das forças de segurança iraquianas, ele esta endividado e luta para sobreviver. Por enquanto, ele recebe cerca de US$125 por mês em doações de membros de sua antiga unidade, instituições de caridade e o que sua mulher Jinan consegue com familiares. Mas ele teme que pode perder ainda mais.

Nos Estados Unidos, a questão dos feridos de guerra gira em torno quase totalmente dos cuidados recebidos pelos 30 mil veteranos americanos. Mas os soldados e policiais iraquianos foram feridos em números maiores, afirmam os médicos, e receberam um tratamento muito pior de seu governo.

Os cerca de doze iraquianos gravemente feridos entrevistados para essa matéria afirmaram que foram excluídos das forças de segurança sem pensão, ou recebem uma ajuda parcial que pode ser retirada a qualquer momento. Além de lidar com ferimentos graves, geralmente amputações, eles são forçados a pagar por médicos particulares ou a usar os deficientes hospitais públicos do Iraque, que há menos de um ano eram controlados pelas milícias que seqüestravam e matavam os pacientes (principalmente equipes de segurança de unidades rivais).

Não se sabe o número exato de veteranos iraquianos, pois o governo não mantém registro deles. Em um relatório de 2006 realizado pelo Serviço de Pesquisa do Congresso, o Major General Joseph Peterson, comandante dos Estados Unidos responsável pelo treinamento da polícia iraquiana, afirmou que em apenas dois anos, de setembro de 2004 a setembro de 2006, cerca de 4 mil policiais iraquianos foram mortos e 8 mil feridos. Esse número não inclui os soldados do exército iraquiano, que é muito mais maior, segundo afirmam os comandantes iraquianos.

Tratamento "indiferente e vingativo"

Em um discurso ao Conselho de Relações Estrangeiras em 2006 Donald H. Rumsfeld, então secretário de defesa dos EUA, afirmou que as forças de segurança iraquianas estavam sendo mortas e feridas a uma taxa "quase duas vezes maior de todas as forças de coalizão". Caso essa taxa tenha se mantido, o número de veteranos feridos pode ultrapassar 60 mil.

As autoridades do governo iraquiano afirmam que os feridos são bem tratados e que uma lei que garante os cuidados aos veteranos está em fase de aprovação. Em geral, segundo eles, os veteranos feridos recebem salários do Ministério de Defesa.

"Os soldados feridos continuam a receber seus salários mesmo depois de seus acidentes, dependendo dos relatórios dos comitês médicos", disse o porta-voz do Ministério da Defesa, Major General Muhammad Al-Askari. "Nós esperamos a lei de Serviço e Pensão para veteranos do Parlamento Iraquiano, mas eles ainda serão pagos até que a lei seja colocada em vigor".

Os veteranos entrevistados para essa matéria discordam das declarações de Al-Askari e dizem que receberam apenas frações de seus salários, ou nada. Eles descreveram o tratamento do governo como indiferente e até mesmo vingativo.

No dia que as forças norte-americanas chegaram à Bagdá em abril de 2003, Hussein Ali Hassan, sargento do exército de Saddam Hussein foi atingido por um tanque. Suas pernas foram esmagadas e queimaduras cobriram grande parte de seu corpo. Ele foi levado ao hospital de Bagdá, onde sua perna esquerda foi rapidamente amputada.

Mas no caos que se seguiu à queda do governo de Hussein, a equipe médica abandonou o hospital. "As pessoas roubaram camas e tiraram canos das paredes ao meu redor", disse Hassan.

Seus amigos e familiares cuidaram dele até que a equipe médica voltou ao trabalho. Semanas mais tarde, depois que os médicos lhe disseram que o hospital estava perigosamente tomado por bactérias infectuosas, sua família o levou para casa.

Uma organização não-governamental italiana negociava um visto para que Hassan pudesse ser tratado na Itália. Mas a violência aumentou e no outono de 2003 o grupo fechou suas operações no país antes que o visto fosse emitido.

Necessitando de outras cirurgias, Hassan pediu dinheiro emprestado e passou por diversos tratamentos em Al Jabechi, um hospital particular de Bagdá, gastando cerca de US$13,000. "Eu teria que esperar meses nos hospitais públicos e os cuidados não são bons por lá", ele disse.

Hassan diz que nos cinco anos desde que foi ferido, seus repetidos pedidos de pensão por deficiência foram ignorados. Há duas semanas, no entanto, ele ficou sabendo que iria receber uma pensão de US$165 por mês por seus 23 anos de serviços militares (mas nenhuma assistência médica e nenhum reconhecimento de sua deficiência).

Antes da aprovação de sua pensão, Hassan diz que foi contatado pelo governo do Iraque apenas uma vez (quando uma autoridade sanitária pediu uma propina de US$3,000 para aprovar sua viagem à Alemanha para cuidados médicos, o que ele recusou).

Segundo ele, ter sido parte do exército sunita de Saddam não ajuda no seu caso com a administração xiita atual.

Para pagar suas dívidas e sustentar sua família, Hassan dirige um táxi, com sua muleta apoiada no teto enquanto ele vaga pelas ruas de Bagdá. Dada a alta taxa de desemprego no Iraque, ele se considera sortudo em ter um meio de sobrevivência.

Com a incerteza das pensões do governo e a difícil situação econômica do país, alguns membros da força de segurança permanecem na ativa mesmo feridos, sabendo que essa é a única chance de sustentar sua família.

Forçado a voltar à ativa

Nubras Jabar Muhammad, um soldado de 26 anos, foi atingido por um atirador em maio de 2007 quando estava em serviço num posto de observação em Bagdá. Ele quase sangrou até a morte, perdendo um rim e parte de um fígado, além de sofrer danos a sua mão direita. Seu torso ainda tem cicatrizes e dois dedos estão permanentemente curvos.

Ele diz que ainda sente dores nas costas e que raramente dorme uma noite inteira, por causa da dor. Ele tem dificuldade em digerir comida. Mas o exército se recusou em lhe conceder uma pensão por invalidez, dizendo que seu corpo é capaz e ele foi forçado a voltar à ativa depois de nove meses. Ele diz que já gastou US$2.100 de seu próprio dinheiro em operações, vendendo jóias e uma pistola para conseguir o dinheiro.

Apesar de receber instruções médicas para evitar ficar de pé por longos períodos o exército o colocou de volta ao posto de observação, onde ele fica de pé o dia todo em temperaturas de até 48ºC. "Eu pedi que meus superiores me dessem um trabalho de escritório", disse Muhammad. "Eles me disseram que se eu continuasse reclamando me mandariam embora do exército".

Dr. Waleed Abdul Majeed, que tem ampla experiência no tratamento de soldados feridos, acredita que eles recebem os cuidados necessários. Mas admite que precisam esperar, em parte porque três centros médicos militares do governo de Saddam (Al Rashid, Hamaad Shihib e o Hospital da Força Aérea) foram fechados.

"Agora o fardo está sobre os ombros dos hospitais civis", ele disse. "Seria melhor se eles estivessem em um hospital militar. Os soldados recebem um bom tratamento no momento da emergência, mas não há acompanhamento depois disso".

Mas com muitos médicos fugindo das milicias sectárias, pode não haver doutores competentes para trabalhar nos hospitais. "Ao menos 25% dos médicos deixaram o país", disse Majeed. "Eu vejo de 120 a 150 pacientes por dia; de 30 a 40 precisam de cirurgia todas as semanas, então têm que esperar. As próteses também são um grande problema. O Ministério da Saúde não tem equipamento especializado para isso".

Por MICHAEL KAMBER

Leia mais sobre: Iraque

    Leia tudo sobre: iraque

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG