Soldado diz que atrocidades do governo sírio fizeram dele um desertor

Ammar Cheikh Omar, que retornou da Alemanha para a Síria, afirma ter sido forçado a atirar em manifestantes e presenciar torturas

The New York Times |

Ammar Cheikh Omar ainda se lembra da primeira vez em que foi obrigado a disparar contra uma multidão de manifestantes na Síria. Ele apontou sua AK-47 um pouco acima de suas cabeças, rezou a Deus para não se tornar um assassino e puxou o gatilho.

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Ammar Cheikh Omar assiste a um vídeo que ele mesmo gravou em Antakya, na Turquia

Omar, 29 anos, filho de pais sírios que imigraram para a Alemanha na década de 1950, cresceu em Rheda-Wiedenbruck, uma vila cheia de casas de madeira do século 16, onde ouvia Mariah Carey e sonhava acordado com o dia que poderia voltar para a Síria.

Hoje, ele ainda está tentando entender como é que sua transformação de um aluno alemão obediente para um assassino do regime brutal do presidente sírio Bashar al-Assad aconteceu e, finalmente, como tudo isso o levou a se tornar um desertor. "Eu tinha muito orgulho de ser sírio, mas quando percebi havia me tornado um soldado de um regime que tinha a intenção de matar seu próprio povo", disse Omar recentemente, fumando um cigarro em um café na cidade fronteiriça de Hatay, Turquia. "Agradeço a Deus todos os dias por ainda estar vivo."

Grupos de direitos humanos e ativistas disseram que ele foi um dos milhares de sírios que serviram inadvertidamente como soldados de um regime que, de acordo com estimativas das Nações Unidas, já matou mais de 5 mil desde que a repressão aos manifestantes teve início em março.

Os soldados são normalmente recrutados ao completarem 18 anos, com a maioria dos soldados rasos sendo sunitas e aqueles pertencentes à minoria alauíta, o mesmo grupo religioso que Assad, muitas vezes servindo como oficiais de alto escalão ou no departamento de segurança do Estado. Omar, um sunita com ótima educação, que fala árabe impecavelmente, foi convocado para uma unidade de segurança ligada ao Ministério do Interior.

Grupos de direitos humanos estimam que existam pelo menos 5 mil desertores; é difícil obter um número exato pois muitos permanecem escondidos. "A história de Omar se encaixa em um padrão aterrorizante no qual os soldados são chamados para servir longe de suas cidades natais para ajudar a garantir que não irão recusar a ordem para matar", disse Ole Solvang, um pesquisador da Human Rights Watch que entrevistou dezenas de dissidentes da Síria, incluindo Omar. "Ele foi um dos sortudos, pois conseguiu escapar."

Não há muito que possa confirmar a jornada de Omar como assassino do regime de Assad. Embora grupos de direitos humanos e ativistas que operam na Síria digam que sua história se encaixa no padrão de centenas dos desertores que fugiram do país, ela ainda não passa da história de um homem. Tudo começou em 2004, quando ele se mudou da Alemanha para Aleppo, com o objetivo de entrar em contato com suas raízes, estudar Direito, melhorar seu árabe e encontrar uma esposa.

Ele conseguiu fazer tudo isso, entrou para a faculdade de Direito, se casou com uma médica e teve uma filha. Seus pais se mudaram de volta para Aleppo, porque seu pai queria viver os últimos anos no país de origem.

No final de 2010, Omar foi recrutado para fazer parte do Exército sírio, poucas semanas antes de um vendedor de frutas tunisiano ter se matado e iniciado a onda de protestos regionais que eventualmente atingiram a Síria, cujo presidente autoritário está determinado em manter a linhagem de sua família no poder.

Inicialmente, Omar disse que sempre se sentiu como um estrangeiro na Alemanha e que tinha orgulho de estar servindo o seu país. Primeiramente, os soldados foram informados que sua principal tarefa seria defender o país contra Israel. Mas quando as manifestações aconteceram, eles foram informados de que os manifestantes eram "terroristas" ou "gangues armadas" , patrocinadas por forças estrangeiras. O acesso à televisão não-estatal, celulares ou a internet era estritamente proibido; a violação dessas regras podiam render até dois meses de prisão.

A primeira vez que Omar serviu ele foi enviado para a cidade de Daraa, perto do Jordão, onde ele e sua unidade de 350 homens armados estiveram em março para ajudar a reprimir manifestações. Ele disse que tinha recebido ordens para prender e atirar em dezenas de manifestantes, incluindo muitos jovens estudantes que tinham rabiscado pichações contra o governo nas paredes da cidade.

"O Exército queria pegar todo mundo. Foi muito brutal", disse. "Mas se um oficial da Mukhabarat está ao lado", acrescentou, referindo-se à temida força de segurança do país, "você não tem outra escolha a não ser atirar".

Cada soldado tinha 60 balas e ganhava uma nova leva de munição toda noite, de acordo com Omar, que disse ter presenciado a forma com qual as forças de segurança disparararam contra manifestantes que se aglomeraram perto da mesquita de Omari, matando pelo menos seis e ferindo dezenas de outras.

Ele disse que sua unidade havia atirado em manifestantes de cima de um telhado que dava para a mesquita. Um de seus colegas começou a gritar incontrolavelmente quando percebeu que seu irmão de 18 anos de idade, que fazia parte dos manifestantes na rua, havia sido baleado. O soldado enterrou seu irmão dois dias depois.

Abalado com o que viu, Omar estava determinado a desertar. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ele foi enviado para Duma, ao nordeste de Damasco, a capital do país, para trabalhar em uma unidade de segurança que interrogava os detidos.

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Omar disse que foi convidado a fazer anotações durante o interrogatório dos prisioneiros, alguns dos quais eram apenas adolescentes de15 anos de idade. Ele disse que os manifestantes haviam sido vendados e forçados a se despir antes que suas mãos fossem amarradas atrás das costas.

Os interrogatórios eram conduzidos por quatro ou cinco soldados e oficiais em um quarto escuro, sem janelas. Ele disse que os oficiais resopnsáveis pediram que ele escrevesse confissões que indicavam os líderes do protesto, confissões nas quais os detidos eram forçados a estampar com seus dedos em vez de assinar pois suas mãos estavam amarradas.

Para forçar os detentos a confessar, os soldados torturavam os presos com equipamentos de marcar gados, batiam ou urinavam neles. Alguns desmaiavam. Outros sangravam muito. Outros simplesmente desapareceram.

"Os soldados exigiam saber por que eles tinham ido para as ruas e quem pagou para para que o fizessem", lembrou Omar. "Foi doloroso de se assistir. No começo eu não conseguia dormir, mas depois de um tempo, me acostumei a lidar com isso. Mas eu não poderia viver comigo mesmo se tivesse continuado participando desta atrocidade."

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Ammar Cheikh Omar, no centro, pjoga cartas com refugiados sírios em Antakya, Turquia

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À medida que os protestos aumentavam ao longo do verão, Omar foi enviado para Hama, onde ele não teve mais que utilizar sua AK-47 e, em vez disso, recebeu um escudo e uma arma de choque, disse. Com milhares de pessoas nas ruas da cidade, ele disse que esperava poder desaparecer no meio da multidão. Ao meio-dia em 26 de julho, ele e dois colegas soldados decidiram fugir de sua base do Exército, colocando roupas de civis e pulando o muro.

Eles encontraram refúgio em casas de pessoas que se opunham ao regime e cobriram seus rostos com lenços para esconder suas identidades.

Temendo que pudesse ser sequestrado ou "desaparecesse" na Síria sob algum pretexto falso, Omar gravou um vídeo, que publicou no YouTube, para provar que havia desertado.

Os desertores seguiram em direção à fronteira turca, em plena luz do dia, eventualmente abandonando o carro que usavam e caminhando pela mata para evitar que fossem encontrados. Às 7h no dia 30 de julho eles cruzaram a fronteira ilegalmente para Hatay, onde se encontraram com membros do Exército de Libertação da Síria, estabelecendo-se em um campo de refugiados.

No acampamento, Omar, que estava magro e pálido, gravou outro vídeo para publicar no YouTube, no qual disse que tinha vergonha de ter participado das forças armadas de Assad.

"Eu nunca vou esquecer os cadáveres dos homens velhos e jovens, mas também os de mulheres e crianças, todos jogados nas ruas", disse, usando um uniforme do Exército de Libertação da Síria e posicionado ao lado de uma bandeira síria.

Apelando diretamente para a Alemanha, ele acrescentou: "Hitler morreu na Alemanha, mas reapareceu na Síria." A Alemanha eventualmente ajudou a tirá-lo do campo de refugiados para que pudesse obter um visto em seu passaporte para permanecer na Turquia.

Omar se juntou ao Exército rebelde, um grupo com cerca de 10 mil soldados, cuja missão é proteger os civis do regime. Ele agora é um oficial ajudando a contrabandear rebeldes feridos para a Turquia, alguns dos quais abriga em sua própria casa. Ele disse que apoiou a manifestações políticas contra o governo, mas advertiu: "Não podemos nos dar o luxo de enfrentar armas apenas com slogans e discursos.”

Ele teme por sua família, incluindo sua esposa, sua filha de 1 ano de idade e seus pais. Após sua fuga, seu cunhado foi demitido de seu emprego como arquiteto e a casa da família em Aleppo foi vandalizada. Mas ele disse que não se arrependia. "Minha família sabe que eu fiz a escolha certa."

Por Dan Bilefsky

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