Socialistas da Europa sofrem mesmo com maus tempos do capitalismo

PARIS ¿ Um espectro está assombrando a Europa ¿ o fantasma do lento colapso do socialismo.

The New York Times |

Mesmo em meio a um dos maiores desafios do capitalismo em 75 anos, envolvendo uma crise no sistema financeiro devido à exuberância irracional, à ganância e à fraqueza dos sistemas reguladores, os partidos socialistas europeus ou com tendências esquerdistas não encontraram uma reação convincente da população e muito menos formas de tirar vantagem dos fracassos da direita.

Os eleitores alemães acabaram com o Partido Social Democrata no domingo, deixando a ele 23% dos votos, seu pior desempenho desde a Segunda Guerra Mundial.

Eles também puniram os candidatos com tendências esquerdistas nas eleições do Parlamento Europeu, no meio deste ano, e nocauteou os socialistas franceses em 2007. Quando a esquerda detém o poder, como na Espanha e na Grã-Bretanha, ela fica sob ataque. Nos países em que ela está na oposição do governo, como na França, na Itália e agora na Alemanha, ela fica dividida e apática.

Alguns conservadores dos EUA demonizaram o estímulo fiscal e a reforma na saúde propostos pelo presidente Barack Obama considerando-os uma virada perigosa em direção ao socialismo do estilo europeu ¿ mas é a direita europeia, e não a esquerda, que está determinando sua agenda política.

Os partidos europeus de centro-direita abraçaram muitas ideias da esquerda: os generosos benefícios do bem-estar social, a nacionalização do sistema de saúde, as rigorosas restrições nas emissões de carbono e ceder, em partes, à soberania da União Europeia. Mas eles ganharam votos com promessas de agir mais eficientemente do que a esquerda, ao mesmo tempo em que trabalham para baixar os impostos, melhorar a regulamentação financeira e lidar com o envelhecimento da população.

Michel Winock, historiador do Paris Institut d´Etudes Politiques, disse que os europeus conservadores se adaptaram à modernidade. Quando Nicolas Sarkozy da França e Angela Merkel da Alemanha condenam os excessos do modelo anglo-saxão do capitalismo enquanto louvam o poder protetor do Estado, eles estão usando ideias socialistas que se tornaram populares, explica.

Não é que a esquerda seja irrelevante ¿ ela frequentemente representa a única oposição viável ao estabelecimento do governo, e também de seus benefícios, como nos EUA, no ciclo normal na política eleitoral.

Em Portugal, os socialistas governantes se reelegeram no domingo, mas perderam a maioria absoluta no parlamento. Na Espanha, os socialistas ainda têm crédito por se oporem tanto a Franco como a guerra no Iraque. Na Alemanha, a esquerda ampla, incluindo os Verdes, tem uma maioria estrutural no parlamento, mas na crise pós-eleitoral os social-democratas devem considerar uma aliança com a esquerda extrema, Die Linke, que tem raízes no antigo Partido Comunista da Alemanha Oriental.

Parte do problema é a barreira psicológica entre os alemães orientais e os ocidentais. Enquanto os democrata-cristãos se inclinaram levemente para o lado oriental, os social-democratas do lado oriental nunca se uniram aos Comunistas. As duas Alemanhas, uma socialista, outra comunista ¿ duas almas ¿ nunca realmente emergiu, disse Giovanni Sartori, professor emérito da Columbia University. Isso explica por que o SPD, que sempre foi um partido majoritariamente socialista na Europa, não cresceu realmente unido,

A situação na França é até pior para a esquerda. Ao ser questionado há alguns meses se o partido estava definhando, Bernard-Henri Levy, socialista emblemático, respondeu: não ¿ já está morto. Ninguém ou quase ninguém ousa dizê-lo. Mas todos ou quase todos o sabem.

Ao mesmo tempo em que foi acusado de estar exagerando, dado que o partido é o maior na oposição e continua sendo popular em governos locais, suas palavras atingiram o ponto fraco da questão.

O Partido Socialista francês está preso em uma contradição incorrigível, disse Tony Judt, diretor do Remarque Institute na New York University. Ele expõe uma plataforma radical que não é cabível e acaba deixando espaço para partidos à sua esquerda que conseguirem 15% dos votos.

A discordância fatal na França e em qualquer outro lugar faz pouco para posicionar os partidos socialistas em uma resposta para a questão do momento: como preservar o Estado de bem-estar social em meio à desaceleração do crescimento e o aumento dos déficits. Nesse contexto, os socialistas se tornaram conservadores, lutando para preservar sistemas que os eleitores consideram precisar de melhoras, embora não tenha de ser abandonado.

Os socialistas não se adaptam à perda de seu eleitorado básico, e com a globalização, o Estado de bem-estar social não existe da mesma forma, disse Sartori.

Enrico Letta, 43, é uma das esperanças da esquerda italiana, atualmente em desarranjo em face o populismo nacionalista de Silvio Berlusconi. Temos que entender que o socialismo é uma resposta ao século passado, disse Letta. Precisamos construir uma centro-esquerda pragmática, que forneça uma alternativa atraente, e não apenas uma oposição.

Letta argumenta que as políticas socialistas terão de ser transmutadas em uma forma mais fluida que permita uma aliança com partidos de centro, liberais ou verdes que não sejam chamados de socialista.

Eu penso que a esquerda e o socialismo na Europa ainda têm trabalho a fazer, eles têm uma razão de ser e terão de se sustentar em assuntos mais ambientais. Segundo ele, ao combinar esforços contínuos para reduzir a desigualdade social, e ter uma visão mais verde, pode dar mais vida à esquerda.

Judt argumenta que os socialistas europeus precisam de uma nova mensagem ¿ como reformar o capitalismo, reconhecendo a centralização do proveito econômico enquanto afasta seu trono como a única forma de falar sobre política.

Os socialistas europeus precisam pensar muito mais sobre o que o Estado pode e não pode fazer no século 21, disse.

Não é um projeto fácil. Mas sem esse tipo de reforma, eu não acho que o socialismo na Europa terá futuro, e dado que isso é uma parte essencial constitutiva do consenso democrático europeu, isso é uma má notícia.


Por STEVEN ERLANGER


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