Sobrevivendo à noite mais longa de Mumbai

MUMBAI - Para Amit e Varsha Thadani, a noite de quarta-feira no Salão Cristal do Hotel Taj Mahal Palace & Tower deveria ter sido a mais especial de suas vidas, que guardariam para sempre como o luxuoso começo de uma vida juntos, com uma festa de casamento para mais de 200 amigos e familiares. Agora, ela pode marcar um aniversário que temerão para sempre.

The New York Times |

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Por volta das 9h45, quando acabavam de se vestir para a festa que aconteceria no salão que fica na ala Heritage do hotel, eles ouviram os primeiros tiros, seguidos de uma comoção do lado de fora do quarto e instruções dos funcionários para que ficassem onde estavam.

Eles ficaram, por mais de sete horas, grande parte do tempo deitados no chão do banheiro tentando manter a calma. Os telefones tocavam constantemente, com perguntas e informações sobre a situação. A certa altura, Varsha Thadani confessa que parou de atender. A noiva não queria falar com ninguém. Houve mais tiros, juntamente com duas explosões, uma das quais arrancou a porta e a janela do seu quarto. No quarto ao lado, eles ouviram os atiradores dispararem contra uma hóspede e seus gritos.

"Nós sabíamos que ela estava sendo arrastada", ela relembra.

No Salão Cristal, seus amigos começavam a perceber a gravidade da situação. Eles também ouviram os tiros. Será que são bombinhas?, um deles questionou. Uma janela explodiu e todos se jogaram sob as mesas e eventualmente foram levados por um funcionário a quartos menos acessíveis. Salão por salão, restaurante por restaurante, os hóspedes foram levados a uma área que se acreditava ser mais segura, um clube particular do hotel chamado The Chambers.

No restaurante Golden Dragon no térreo, uma mulher pôde ver através do vidro embaçado os homens armados andando pelo lobby do hotel e abrindo fogo aleatoriamente. Ela estava ali para comemorar o aniversário de seu marido, juntamente com alguns familiares.


Hotel Taj Mahal: turistas protagonizaram cenas de horror e pânico / AP

Eles também foram levados através das cozinhas e escadas de funcionários até locais mais seguros, onde ficaram até às 4h. Ela e seus pais conseguiram fugir pela saída de funcionários, mas tantos celulares tocando chamaram a atenção dos atiradores dentro do hotel.

Eles atiraram contra quem tentou fugir. Seu marido e os pais ficaram para trás. Mais de oito horas depois, ela esperava por eles do lado de fora. O marido não atendia o telefone e ela estava preocupada.

Ataques

O caso no Taj foi apenas parte do terror que envolveu a cidade.

No Leopold Café, um ponto de encontro para estrangeiros, um turista belga, em visita ao país para agradar a si mesmo e sua paixão por Bollywood, descreveu a súbita percepção de um perigo mortal e as ações desesperadas dos funcionários para tentar proteger seus clientes estrangeiros.

O turista, Ronny Quireyns, 44, estava sentado no andar superior com amigos (extras que tinham acabado de gravar um filme) na noite de quarta-feira. Pouco antes das 10h, eles ouviram uma explosão do lado de fora e imediatamente pensaram em uma bomba, mas o barulho pareceu baixo demais. Então eles ouviram uma série de tiros no andar de baixo e um funcionário subiu as escadas correndo. "Ele disse que havia pessoas atirando lá embaixo", conta Quireyns.


Turistas tailandeses são libertados de hotel em Mumbai / AP

Os garçons tiraram a tampa da ventilação do ar condicionado e colocaram ele e outros 15 estrangeiros lá dentro. Depois de cerca de 10 minutos, disse Quireyns, ele engatinhou até embaixo e viu corpos pelo chão.

Finalmente, os garçons vieram dizer que eles podiam sair, ele conta, e os estrangeiros fugiram do restaurante, no qual sangue se espalhava pelo chão. A polícia os levou até uma delegacia próxima onde passaram a noite.

"Foi assustador", disse Quireyns. "Tudo parecia surreal. Nunca achei que algo assim aconteceria comigo".

Gary Samore, diretor de estudos do Conselho de Relações Internacionais de Nova York, estava hospedado no hotel com sua mulher e filha, aproveitando férias com a família em Mumbai já que tinha uma palestra marcada para a noite de quarta-feira sobre o desafio nuclear que será enfrentado pelo próximo presidente dos Estados Unidos. Eles também permaneceram no quarto e tentaram manter a calma.

A televisão não funcionava e ele não tinha um celular local. Amigos lhe enviavam detalhes dos acontecimentos por email que ele leu em seu BlackBerry. Por volta das 3h30, os disparos se intensificaram. O Consulado americano ligou para dizer que o hotel estava pegando fogo.
A família pegou seus passaportes, toalhas molhadas para enfrentar o corredor esfumaçado e desceu por uma escada de serviço até um terraço, onde puderam chamar soldados indianos.

"Meu BlackBerry pode ter salvo nossas vidas" , ele disse.

Na cozinha do The Chambers, o chef Raghu Deora se escondeu sob uma mesa. Quatro atiradores apareceram antes do amanhecer e o encontraram.

"O que você faz?", eles perguntaram em hindi, e então pediram que se virasse. Eles atiraram pelas costas, contou sua mulher Nandita na quinta-feira. Ele contou, ao se recuperar no hospital Bombay, que os quarto eram jovens na casa dos 20 anos e muito bem vestidos.

Perto do amanhecer, os recém-casados Thadanis fugiram pela janela de seu quarto com a ajuda dos bombeiros. Na tarde de quinta-feira, eles contavam sobre sua sorte enquanto degustavam comida caseira.

Por SOMINI SENGUPTA e JEREMY KAHN

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