Sob vigilância mundial, Rio se concentra em segurança

RIO DE JANEIRO ¿ A polícia irá invadir 40 das favelas mais violentas da cidade antes da Copa do Mundo de 2014 ser sediada no Brasil, com o objetivo de estabelecer uma presença policial permanente em comunidades agora controladas por facções narcotraficantes muito bem armadas, afirmaram autoridades do Estado do Rio.

The New York Times |


Os planos incluem a ocupação da Rocinha, uma das maiores e mais fortificadas favelas da cidade, no que especialistas em crime locais dizem poder se tornar uma enorme e sangrenta batalha que definirá os esforços da cidade em expulsar grupos traficantes que tomam conta da cidade há três décadas.

A campanha é uma expansão do "programa de pacificação" da polícia, que teve início no final de 2008. Ela entra em vigor conforme as autoridades brasileiras sentem o peso do escrutínio internacional depois que o país foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

As forças policiais, principalmente, têm lidado com alguns retrocessos embaraçosos.

Em outubro, duas semanas depois que o Rio conquistou os Jogos Olímpicos, um fim de semana de confrontos sangrentos entre facções rivais deixou 12 mortos, incluindo dois policiais assassinados quando narcotraficantes derrubaram seu helicóptero com armas de calibre pesado. Além disso, o corpo de um jovem foi encontrado dentro de um carrinho de supermercado em uma rua movimentada.

No mês passado, o grupo de direitos humanos Human Rights Watch divulgou um extenso relatório que detalha a história das execuções extrajudiciais da polícia do Rio. O relatório afirma que uma porção significativa das 2,467 mortes por "resistência" no Estado do Rio em 2007 e 2008 foram ilegais e que raramente os assassinos foram levados à justiça.

Especialistas em direitos humanos afirmam temer que as invasões policiais planejadas resultem em ainda mais mortes executadas pela polícia.

"O Rio precisa encontrar uma maneira de controlar não apenas suas gangues violentas, mas também sua polícia", disse Daniel Wilkinson, vice-diretor do Human Rights Watch para as Américas. Se tentar fazer um sem o outro, então este programa de pacificação certamente irá resultar no derramamento de sangue."

A polícia diz que o programa de pacificação busca levar ordem para as favelas que circundam as áreas mais ricas no sul e oeste da cidade, onde a maioria das competições Olímpicas será sediada.

Narcotraficantes fortemente armados controlam centenas de bairros do Rio e são amplamente responsáveis pela região metropolitana ter um dos índices de assassinato mais altos do hemisfério, em quase 35 para cada 100 mil moradores.

Autoridades do Estado do Rio dizem estar concentrando seus esforços nas favelas nas quais as gangues têm armas mais perigosas, o que permite que aterrorizem os moradores e evitem incursões policiais.

"Estas 40 favelas que nós escolhemos são os braços, pernas, tronco e cérebro do tráfico de drogas no Rio de Janeiro", disse Dirceu Silviana, porta-voz da Secretaria de Segurança Pública, que supervisiona a polícia do Rio. "Mas o objetivo central não é o tráfico de drogas, é acabar com as armas de guerra"

As autoridades do Rio dizem que eventualmente ampliarão o programa para 100 favelas, mas não sabem dizer ao certo quando isso acontecerá. Durante os próximos quatro anos, pelo menos, o plano é ocupar em média 10 comunidades por ano.

As autoridades do Rio dizem que parte da campanha será para tentar reduzir a mortalidade policial e que oficiais que escolherem trabalhar nas favelas receberão treinamento especial em direitos humanos e gratificações que quase dobram o salário policial de cerca de US$ 620 por mês.

Desde o início do programa em novembro de 2008, a polícia do Rio tomou mais de nove comunidades que somam aproximadamente 120 mil moradores, disseram as autoridades. Esta é apenas uma pequena porção das cerca de 600 favelas que têm problemas sérios com o tráfico de drogas e facções traficantes; as favelas têm cerca de um milhão de pessoas, afirmam as autoridades cariocas.

O programa envolve a colocação de um grande contingente policial em uma área de favela de forma permanente para interagir com os moradores e impedir que os narcotraficantes voltem a ocupar a região e ajam como um "poder paralelo", disse Sérgio Cabral, governador do Estado do Rio.

Fabrizia Granatieri

Morador passa próximo a carro da PM no acesso ao Morro Santa Marta

Depois que ocupa uma favela, a polícia controla sua segurança por tempo integral, evitando a necessidade da invasão destas áreas por esquadrões de elite do Rio, que geralmente fazem incursões violentas para apreender narcotraficantes ou conter invasões de facções rivais.

Até agora a "pacificação" foi instalada em favelas pequenas, como a Dona Marta, que tem aproximadamente 6 mil moradores.

"Os relatos que eu recebi de pessoas que foram libertadas deste 'poder paralelo' são incríveis", disse Cabral. "'Agora nós estamos livres do terrorismo', elas me dizem. 'Finalmente, governador, eu posso dormir à noite'".

Silviana, o porta-voz da segurança pública, afirmou: "O momento e a decisão sobre quais favelas iremos ocupar depende da nossa capacidade de treinar novos policiais. Cada ocupação é uma experiência de aprendizagem".

As autoridades cariocas estão acrescentando 3.300 policiais este ano e pelo menos 4 mil outros até 2011 à força policial de 45 mil do Rio de Janeiro. Quase todos os agentes novos serão empregados como pacificadores nas favelas, disse Silviana.

Agentes policiais do Rio de Janeiro estão entre os mais mau remunerados do Brasil, com alguns vendedores de drogas das favelas ganhando mais do que os novos agentes, de acordo com o grupo Human Rights Watch. O governo federal prometeu dobrar os salários dos policiais do Rio até os Jogos Olímpicos de 2016.

Sob o aumento da vigilância internacional, Cabral também pediu recentemente ajuda ao ex-prefeito de Nova York, Rudolph W. Giuliani. "Nós estamos discutindo a possibilidade de Giuliani se tornar consultor do Rio para assuntos de segurança", disse Cabral.

Expulsar os narcotraficantes exigirá batalhas que podem atingir áreas mais ricas da Zona Sul do Rio, que atraem a maioria dos turistas internacionais para a cidade.

No mês passado, durante o segundo dia da ocupação das favelas Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, narcotraficantes responderam com uma série de ataques terroristas em Copacabana e Lagoa, forçando a polícia a enviar reforços. Um ônibus foi queimado e granadas detonadas em áreas ocupadas dos bairros, inclusive na Avenida Atlântica, de acordo com reportagens do jornal carioca O Dia.

A ocupação da Rocinha e de Vidigal perto dali, que junto têm cerca de 100 mil moradores, será um desafio muito maior. A Rocinha fica no alto de um morro que circunda áreas críticas como a Zona de Sul, São Conrado e Barra da Tijuca. É uma fortaleza natural sob o controle de uma facção narcotraficantes poderosa.

"As logísticas são muito ruins", disse Silviana.

Por ALEXEI BARRIONUEVO

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