Sob camuflagem ou véus, um laço frágil

Marines americanas enfrentam obstáculos e preconceito masculino enquanto tentam conquistar apoio das afegãs para a guerra dos EUA

The New York Times |

Duas jovens marines caminhavam junto com seu pelotão sob um calor de 38ºC, com seus uniformes camuflados encharcados sob mais de 30 quilos de equipamentos. Mas apenas quando chegaram em uma tarde recente a Abdul Ghaya, aldeia no coração de uma região controlada pelo Taleban, é que elas começaram a trabalhar.

Durante duas horas dentro de uma casa de paredes de lama, as marines Diana Amaya, de 23 anos, e Lisa Gardner, de 28 anos, deixaram rifles e armaduras de lado e tentaram falar com nervosas mulheres afegãs escondidas sob véus.

Com a ajuda de muitas xícaras de chá, as americanas jogaram papo fora por meio de um intérprete militar ou seu próprio pashtu de iniciante. Então elas incentivaram as afegãs, que a essa altura haviam timidamente descoberto os rostos, a costurar artesanatos que poderiam ser vendidos em um bazar local. "Precisamos apenas de algumas mulheres corajosas", disse Amaya, na esperança de fazer com que elas incentivassem o comércio nessa perigosa região.

As palavras de Diana também poderiam descrever sua própria assustadora missão, parte de um programa destinado a ajudar a melhorar as perspectivas americanas no Afeganistão - além de possivelmente redefinir os papéis em combate.

Há três meses, Diana foi uma das 40 marines treinadas em Camp Pendleton, Califórnia, em um novo experimento: enviar "equipes formadas por mulheres" para acompanhar as patrulhas masculinas a pé pela Província de Helmand, no sul do Afeganistão, onde mulheres afegãs estão completamente fora do alcance cultural dos homens americanos. O entusiasmo era grande. "Sabemos que podemos fazer uma diferença", disse Emily Naslund, de 27 anos.

Agora, poucas semanas depois de chegar ao país para passar sete meses em 16 postos avançados da Província de Helmand, incluindo Marjah e outros locais onde os combates continuam, as mulheres se depararam com problemas inevitáveis - não apenas criados por mulheres afegãs, mas também por alguns comandantes americanos que questionam seu propósito. As mulheres resistem bravamente. "Se fosse fácil, não seria interessante", disse Emily.

Ninguém discorda que as equipes femininas têm potencial e são desesperadamente necessárias, especialmente em unidades médicas, como parte da campanha contra insurgência do general Stanley A. McChrystal. Como afirmam seus oficiais, não é possível trazer população para o seu lado se falarmos com apenas metade dela.

Mas entrevistas e patrulhas a pé com as marines durante as duas últimas semanas em Helmand mostram que as equipes, que tiveram acesso a algumas das mulheres mais isoladas do mundo, ainda têm muito trabalho pela frente. Os moradores das vilas ficam geralmente surpresos e descrentes quando veem mulheres em uniformes militares.

Outros problemas culturais existem entre os próprios marines. Ao lado de seus colegas homens, as militares vivem em bases precárias, muitas vezes sem duchas, tomam banho de água engarrafada ou panos para limpeza de bebês, usam latrinas improvisadas e dormem em tendas quentes ou ao ar livre.

Mas os chefes de equipes dizem que alguns comandantes marines têm relutado em enviar mulheres nas patrulhas, temendo por sua segurança ou que elas atrapalhem o trabalho. (As mulheres, que representam apenas 6% das forças do marines, são impedidas de entrar em tropas de combate como a infantaria. Da maneira burocrática normalmente usada no Iraque, onde mulheres são necessárias para postos de trabalho como a desativação de bombas ou inteligência, grupos femininos agem dentro das tropas comuns.) 

As mulheres, que carregam as mesmas armas e recebem o mesmo treinamento que os homens, não podem deixar a base a menos que sejam escoltadas por homens. Natalie Kronschnabel, uma das líderes de equipe, disse que precisou pressionar um oficial marine a deixar sua equipe participar de uma patrulha de cinco horas. "Não foi tão difícil, apenas quatro ou cinco quilômetros", disse Natalie, de 26 anos. "E eles perguntavam o tempo todo, 'Você está bem? Você está tendo dificuldade em respirar?'"

Outros marines, que se consideram os combatentes mais agressivos das forças armadas, foram conquistados pelas equipes femininas, conhecidas como fets. "Tinha minhas dúvidas, com certeza", disse o sargento Jeremias Latimer, de 24 anos, líder de um pelotão da companhia F do Segundo Batalhão, com sede na base de patrulhas Amir, um posto avançado na região central de Helmand. "Não gostava de levar militares que não fossem da infantaria. Basicamente, tinha medo da troca de tiros com as fets presentes. Não queria ter de deixá-las para trás."

Mas ele mudou de ideia depois que levou duas das militares à casa de um ancião de uma vila local para que pudessem abrir caminho para a chegada de um médico para tratar a mulher e a filha do afegão. Latimer explicou que o favor foi importante porque o velho se tornou um informante crucial sobre o Taleban.

*Por Elizabeth Bumiller

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