Só um homem teria disparado contra EUA em ação que matou Bin Laden

Relatos sugerem que militares americanos 'reinaram' sem resistência em operação que levou à morte do líder terrorista

The New York Times |

Relatos de autoridades do governo americano sugerem que a operação que levou à morte de Osama bin Laden foi "caótica e sangrenta", mas que o combate foi desequilibrado: mais de 20 integrantes da equipe Seal mataram rapidamente os poucos homens que protegiam o líder da Al-Qaeda.

As autoridades, que não quiseram ser identificadas, disseram que as forças americanas só enfrentaram disparos no início da operação. O mensageiro de confiança de Bin Laden, Abu Ahmed Al-Kuwait, abriu fogo de trás da porta do prédio de visitas adjacente ao que o líder terrorista usava como esconderijo.

Depois que os membros da equipe balearam e mataram Al-Kuwait e uma mulher, ninguém mais disparou contra os americanos.

Esta versão é diferente da oficial divulgada pelo Pentágono na terça-feira e lida pelo porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, segundo a qual os membros da equipe Seal "estiveram envolvidos em um tiroteio durante a operação".

Em uma entrevista à emissora PBS na terça-feira, o diretor da CIA (agência de inteligência americana), Leon E. Panetta, disse: "Houve alguns tiros enquanto a equipe abria caminho pela escadaria do casarão".

Autoridades do governo disseram que o relato oficial dos acontecimentos mudou ao longo da semana porque foi preciso tempo para verificar os relatórios posteriores à ação da equipe Seal. Como os agentes de Operações Especiais enfrentaram disparos assim que pousaram na mansão, eles presumiram que todos lá dentro estavam armados. "Eles estiveram em um ambiente ameaçador e hostil o tempo todo", disse um integrante do governo dos Estados Unidos.

Quando os agentes entraram na casa principal, eles viram o irmão do mensageiro, que acreditavam estar se preparando para disparar uma arma. Eles atiraram e o mataram. Então, conforme seguiam pela escada da casa, eles mataram Khalid bin Laden, filho do líder da Al-Qaeda, depois de ele ter pulado em um agente da equipe Seal.

Quando os agentes chegaram ao andar de cima, eles entraram numa sala e viram Osama bin Laden com uma AK-47 e uma pistola ao alcance da mão. Eles atiraram e o mataram, além de ferir uma de suas mulheres.

Após a morte de Bin Laden, a equipe encontrou diversas informações importantes e conseguiu apreender cerca de 100 pen drives, DVDs e disquetes, juntamente com 10 discos rígidos e cinco computadores. Havia também pilhas de documentos impressos espalhadas pela casa.

A Casa Branca se recusou a divulgar detalhes da operação, afirmando que outros dados podem pôr em risco a capacidade dos militares de conduzir operações clandestinas como essa. A reticência do governo veio depois de se ver forçado a corrigir partes de seu relato inicial sobre o ataque na terça-feira, incluindo afirmações de que Bin Laden havia usado a sua esposa como "escudo humano". "Nós já revelamos muitas informações, temos sido tão abertos com os fatos quanto podemos ser", disse Carney.

Segundo Carney, desde o início o presidente Barack Obama manifestou dúvidas sobre a possibilidade de liberar as fotos do corpo de Bin Laden, mas consultou seus assessores. Todos eles, segundo o porta-voz, expressaram preocupações sobre os riscos dessa medida. Além disso, com base no monitoramento da reação de todo o mundo ao anúncio da morte de Bin Laden, o governo concluiu que a maioria das pessoas acreditou no relato e que divulgar fotografias faria pouco para influenciar aqueles que não acreditaram.

Obama foi direto em uma entrevista ao programa "60 Minutes", que será transmitido no domingo, segundo uma transcrição divulgada pela emissora CBS.

“É muito importante para nós ter a certeza de que fotos muito fortes de alguém que foi baleado na cabeça não circulem para incitar violência, como ferramenta de propaganda. Não somos assim", disse o presidente. “Não vamos mostrar este material como um troféu”.

"Certamente não há dúvidas entre os membros da Al-Qaeda de que ele está morto", acrescentou. "Portanto nós não achamos que uma fotografia por si só vai fazer alguma diferença. Algumas pessoas irão negar o fato. Mas a questão é que você não vai ver Bin Laden caminhando pela Terra outra vez”.

Em maio de 2009, Obama combateu a divulgação de fotos que documentaram os abusos contra prisioneiros no Iraque e no Afeganistão por militares dos Estados Unidos. O governo disse inicialmente não se opor à liberação das imagens, mas o presidente decidiu que lutaria contra torná-las públicas após seus comandantes militares alertarem que poderiam provocar uma reação violenta contra os soldados.

A Casa Branca disse que Obama irá participar de uma cerimônia de colocação de coroa de flores no memorial de 11 de setembro em Manhattan nesta quinta-feira. Ele também se encontrará com familiares das vítimas dos ataques terroristas, mas não vai fazer discurso. No dia seguinte, viajá para o Forte Campbell, em Kentucky, para conversar com soldados que retornaram do Afeganistão.

No Congresso, as opiniões eram divididas sobre a divulgação das fotografias, com alguns parlamentares dizendo que os Estados Unidos precisavam provar que Bin Laden estava morto, e outros mais preocupados com a possibilidade de retaliação contra soldados americanos.

"O propósito de enviar nossas tropas à fortaleza, ao invés de realizar um bombardeio aéreo, era obter provas irrefutáveis da morte de Bin Laden", disse o senador Lindsey Graham. "A melhor maneira de proteger e defender os nossos interesses no exterior é provar o fato para o resto do mundo".

Mas o deputado Mike Rogers, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara, disse: "Imagine como o povo americano reagiria se a Al-Qaeda matasse um dos nossos soldados ou líderes militares e colocasse fotos do corpo na internet”.

Analistas disseram que a decisão do governo, embora compreensível por razões de segurança, pode não impedir que as imagens circulem. "Na era do WikiLeaks, alguém vai vazar", disse Brian Katulis, um especialista em segurança nacional no Centro Americano para o Progresso.

Por Mark Landler e Mark Mazzetti

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