Situação regional favorece Hamas em rivalidade palestina

Troca de presos por soldado israelense e revoltas árabes deram ao Hamas uma vantagem em relação ao Fatah no cenário internacional

The New York Times |

Durante anos, o portão imponente que sela a fronteira entre Egito e Gaza simbolizou a dor e o isolamento que décadas de conflito têm causado a essa pequena faixa costeira sob o controle do Hamas nos últimos anos.

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Crianças palestinas jogam bola perto da fronteira entre o Egito e Gaza

Mas, recentemente, o portão veio a representar um novo rumo para a liderança cada vez mais confiante do Hamas. Os arcos duplos da fronteira se abriram duas vezes nas últimas semanas para a chegada de pessoas muito importantes – primeiro, para receber centenas de prisioneiros palestinos de prisões de Israel conforme o soldado israelense Gilad Shalit seguia na outra direção e uma segunda vez para a visita da Irmandade Muçulmana do Egito, que esteve em Gaza pela primeira vez em décadas.

Ambas as situações aumentaram a sorte dos islâmicos em um momento crítico antes das negociações previstas para acontecer no Cairo nessa quinta-feira com seu principal rival, o presidente Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina, que lidera o partido Fatah.

O líder do Hamas, Khalid Meshal, chega a essas negociações com uma sensação de apoio regional. Ditadores caíram, substituídos após protestos por governos que incluem os movimentos islâmicos antes reprimidos por aqueles governantes.

O Hamas não perdeu nenhuma oportunidade para ressaltar a importância desse acontecimento, enquanto aproveita a crescente importância regional da sua organização-mãe, a Irmandade Muçulmana, o movimento mais antigo e mais poderoso do mundo islâmico.

"Esse é um inverno árabe quente que apenas agora amadureceu em primavera", proclamou o oficial do Hamas Dr. Mahmoud Zahar de um púlpito de Gaza no mês passado, afirmando que as revoltas árabes revitalizaram a crença islâmica. As campanhas para derrubar os líderes corruptos chegaram a uma "fase crítica", disse ele, antes de concluir: "Com a ajuda de Alá, no próximo ano veremos o florescimento do Islã."

Abbas, por sua vez, chega com um sucesso misto por seu plano para conquistar o reconhecimento de um Estado palestino das Nações Unidas . Ele ganhou enorme apoio interno – pesquisas revelam 80% em seu favor – , mas a tentativa fracassou e ele alienou um aliado crucial: Washington .

O Hamas, por outro lado, alardeia seu sucesso na negociação de libertação do soldado israelense Gilad Shalit em troca de mais de 1.000 prisioneiros palestinos, na esperança de que a troca mediada pelos egípcios apagará da memória dos palestinos o crescente isolamento e bloqueios que sofreram durante os cinco anos em que Shalit esteve em cativeiro.

Boaz Ganor, analista de segurança de Israel e fundador do Instituto Internacional de Políticas para Contraterrorismo na cidade israelense de Herzliya, acredita que o Hamas está agora "muito mais forte" do que antes. O acordo por Schalit, ele acredita, foi parte de um "plano muito detalhado e sofisticado" do Hamas, que os Estados Unidos e a União Europeia chamam de uma organização terrorista, para se libertar de seu enclave de Gaza e garantir uma maior legitimidade, "pelo menos na arena internacional, se não aos olhos de Israel", antes das eleições palestinas, marcadas para maio do próximo ano.

"Enquanto eles mantivessem um soldado israelense prisioneiro, contra as Convenções de Genebra, eles não seriam considerados um candidato legítimo", disse ele.

Ambos os líderes do Hamas e do Fatah dizem que as negociações que acontecerão no Cairo nessa quinta-feira se concentrarão na criação de um governo de unidade transitório para guiar os palestinos durante as eleições, há muito tempo atrasadas.

Nabil Shaath, membro do Comitê Central do Fatah, disse que as discussões se concentrarão na unidade, na não-violência e em encontrar um gabinete e um primeiro-ministro aceitáveis para ambos os lados. Ele disse que agora há uma "oportunidade muito melhor" para um acordo. O Hamas teve muito sucesso com a troca de prisioneiros e o Fatah ganhou apoio nacional para o pedido de reconhecimento, disse ele, e "sucesso reduz a necessidade de concorrência".

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O esforço de reconhecimento como Estado em particular, se beneficiaria de uma reconciliação, disse ele, porque entre as "grandes críticas" enfrentadas por Abbas na ONU estava a falta de controle da Autoridade Palestina sobre uma Gaza governada pelo Hamas.

O novo impulso do Hamas não se limita ao Egito, onde as relações entre o conselho militar e a Irmandade Muçulmana tem azedado nos levantes dos últimos dias, mas onde a Irmandade continua a ser uma força poderosa antes – e quase certamente depois – das eleições marcadas para começar na segunda-feira.

Há também sinais de um degelo entre Hamas e a Jordânia, que recentemente abandonou a sua oposição de longa data ao grupo e permitiu a visita de Meshal a Amã, capital do país. O novo primeiro-ministro da Jordânia, Awn Khasawneh, declarou que a decisão da Jordânia de fechar a sede do Hamas em Amã, em 1999, foi um "erro político e constitucional".

No entanto, o Hamas enfrenta dificuldades. Por um lado, a abertura da Jordânia continua frágil. O líder da Jordânia, o rei Abdullah II, fez uma visita ao quartel general da Autoridade Palestina em Ramallah essa semana, uma confirmação da consideração que tem por Abbas como a figura de destaque na política palestina.

Os críticos do Hamas também apontam que o movimento é árabe sunita e que tem recebido apoio financeiro e político do Irã, que tem um governo xiita não-árabe. Com sua sede em Damasco, o grupo também tem uma posição delicada. Síria e Hamas são apoiados pelo Irã, mas a violenta repressão do presidente Bashar al-Assad sobre a dissidência interna na Síria matou pelo menos 3,5 mil adversários , incluindo muitos dos colegas do Hamas da Irmandade Muçulmana.

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"Eu acho que o Irã ficaria feliz se o regime do Hamas apoiasse Assad, mas eu não acho que o Hamas possa fazer isso, porque eles se classificam como combatentes da liberdade, então eles não podem ficar ao lado de Assad contra combatentes da liberdade", disse Waleed al-Modallal, cientista político de Gaza.

No entanto, Nathan Thrall, um analista de Oriente Médio do International Crisis Group com sede em Jerusalém, vê oportunidade no fato de que os dois grandes partidos palestinos se encontram em desacordo com os seus apoiadores.

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Prisioneiros palestinos libertados em outubro de prisões israelenses acenam para multidão em marcha do Hamas em Gaza

"Durante anos, a reconciliação palestina tem sido sobrecarregada com reivindicações do Fatah de que a liderança do Hamas é sujeita a um 'veto iraniano’ e que a liderança do Hamas de que a liderança do Fatah está sujeita a veto um americano", disse Thrall. "Nos últimos meses, ambas as partes sofreram uma grave deterioração nas relações com seus principais patrocinadores internacionais. Isso dá a algumas pessoas esperança de que o período de divisão em facções possa ter sido superado."

Nas ruas de Gaza e na Cisjordânia, a troca de prisioneiros do Hamas e a iniciativa de reconhecimento de Abbas foram medidas amplamente populares, que ambos os lados têm procurado promover pesadamente. Mas ainda não está claro qual delas fará com que as pessoas mudem de lado.

No campo de refugiados de Balata, um reduto do Fatah na Cisjordânia, Muhammad Zubeidi, 23, admitiu que a libertação de prisioneiros foi um bom golpe do Hamas. "O dia da libertação foi a primeira vez em anos que eu vi bandeiras do Hamas no campo de Balata", disse. "Isso pode afetar a decisão de famílias que têm seus entes queridos de volta, mas eu acho que as pessoas vão votar no Fatah."

Mesmo os críticos da islamização crescente e do controle de Hamas sobre questões sociais, articulam sentimentos semelhantes.

"Eles fizeram um bom negócio com os prisioneiros, mas isso não vai mudar a imagem que tenho deles", disse Abu Yusef Tamir, 23. "Deve haver abertura e partilha com outros partidos e respeito pelas outras pessoas, e opiniões diferentes."

Por Stephen Farrell

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