Sistema imigratório americano prejudica doentes mentais, dizem especialistas

NOVA YORK - O juiz perguntou seu nome duas vezes. Duas vezes ela respondeu: Xiu Ping Jiang. Mas ele repreendeu a mulher, uma nova-iorquina chinesa, por responder antes que o tradutor tivesse traduzido a pergunta para o mandarim.

The New York Times |

"Senhora, vamos fazer isso mais uma vez e então eu irei agir como se você não estivesse aqui", o juiz de imigração, Rex J. Ford alertou a mulher no ano passado, em sua primeira audiência em Pompano Beach, Flórida. Ele ameaçou emitir uma ordem de deportação que afirmaria que ela não compareceu à corte.

Ela era uma garçonete sem antecedentes criminais, sem advogado e com um histórico de tentativas de suicídio. Sua resposta à ameaça do juiz, registrada nos transcritos judiciais, foi em inglês perfeito: "senhor, eu não posso ir para casa", ela disse, se referindo à China, de onde sua família diz que ela fugiu em 1995, depois de ser esterilizada à força aos 20 anos. "Se eu morrer, eu morro na América".

O juiz prosseguiu. "A respondente, depois de notificada, não compareceu", ele disse para que ficasse registrado. Conforme ela declarava "eu vou morrer agora", ele assinava sua ordem de deportação para a China e a enviava de volta à cadeia imigratória Glades County.

Essa conversa e a experiência desta mulher no sistema imigratório foi descoberta apenas por uma coincidência. Jiang tem o mesmo sobrenome que a ex-mulher de Jiverly Wong, o cidadão americano do Vietnã que atirou em 13 pessoas em abril em um centro de imigrantes de Binghamton, Nova York. Conforme os repórteres tentavam encontrar a ex-mulher, uma pesquisa com seu nome resultou nos registros judiciais de Jiang, a garçonete.

Agora com 35 anos, ela passou mais de um na cadeia, geralmente em confinamento isolado, sofrendo de doenças mentais que a impossibilitam de confrontar a deportação ou conseguir os documentos de viagem necessários para que isso aconteça, de acordo com uma petição de habeas-corpus pendente que alega que ela é suicida e que não recebeu o tratamento adequado.

Caso fosse a Xiu Ping Jiang que foi casada com um assassino, sua história teria sido notícia em todo o mundo. Ao invés disso, ela é uma sósia perdida nos cantos escuros das leis imigratórias, onde a única vida em jogo pode ser a sua.

"Eu temo que minha irmã vá tentar o suicídio na prisão", disse sua irmã mais velha, Yun, 37, que disse ter achado Jiang doente demais para reconhecê-la quando esteve no centro de detenção em fevereiro.

A jornada de Jiang (de uma vila na China a restaurantes no Brooklyn e uma cela no sul da Flórida sob custódia da agência de imigração) ilustra a vulnerabilidade dos doentes mentais no sistema de imigração, afirmam os especialistas.

"A situação é sombria, realmente perigosa e um problema crescente", disse Sunita Patel, advogado do Centro de Direitos Constitucionais de Nova York que faz parte de um grupo de trabalho internacional a favor dos doentes mentais. Ninguém contabiliza tais casos, mas ela acrescentou que "com todas essas medidas sendo postas em prática, mais e mais pessoas com doenças mentais são detidas. Muitas vezes elas desaparecem".

Oficiais federais de imigração não puderam comentar sobre um caso individual. Mas Elaine Komis, porta-voz do Executive Office of Immigration Review, que controla as cortes imigratórias do país, afirmou que não há regras para determinar a competência mental nos processos de deportação e nenhuma maneira de garantir representação para pessoas nessa situação diante do processo.

"Não há direito a uma representação paga pelo governo no processo de imigração", disse Komis, "então nenhum advogado é indicado quando um acusado parece doente".

As práticas de detenção de imigrantes do país passarão pela análise completa de Janet Napolitano, secretária de segurança nacional, disse o porta-voz da agência, Richard Rocha, acrescentando que reconhecem "a necessidade de lidar com a questão dos doentes mentais entre os detidos".

A natureza exata da doença de Jiang é desconhecida e as autoridades não divulgaram seu histórico médico, nem mesmo a seus advogados, dizendo que ela se recusa a assinar um documento que permite que sua privacidade seja revelada. Suas duas irmãs, que moram em Nova York, a descreveram como uma mulher doce e quieta, cuja mente adoeceu sob o peso de viver na ilegalidade em busca de asilo.

Por NINA BERNSTEIN

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