Sírios temem que levante cause guerra sectária igual à do Iraque

Insurreição contra Assad agrava tensões para além das fronteiras sírias, em região sempre abalada por divisões religiosas e étnicas

The New York Times |

Abu Ali deixou para trás sua vida como clérigo xiita e estudante em Homs, cidade síria sitiada no centro de uma revolta que se torna cada vez mais sangrenta, mas não era do governo que ele fugia.

Foram os rebeldes da oposição que, segundo ele, mataram três de seus primos em dezembro e despejaram um corpo na lata de lixo da casa da família. "Não posso ficar em Homs, pois, caso fique, serei morto", disse ele, que se refugiou em Najaf, cidade religiosa no Iraque. "Não apenas eu, mas todos os outros xiitas."

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Ataque contra o bairro de Baba Amr, na cidade síria de Homs (21/2)
Assim como seus colegas xiitas no Iraque, Abu Ali, que usou um apelido para proteger sua família que ainda vive na Síria, disse que enxerga os rebeldes sírios como terroristas e não combatentes em busca de liberdade, ressaltando uma das complexidades de um sangrento conflito civil que persiste enquanto esforços diplomáticos fracassam.

Apesar dos esforços do presidente Bashar al-Assad em implementar uma operação militar profissional contra a população civil com resultados letais, ainda é apoiado em seu país e no exterior por alguns aliados, incluindo as minorias étnicas e religiosas, que durante décadas contaram com a proteção da polícia do Estado contra possíveis agressões sectárias.

"O que o governo tenta fazer é proteger as pessoas", disse Abu Ali, repetindo a mesma mensagem do governo de Assad. "Eles concentram sua atenção em alguns grupos terroristas na região."

A insurreição na Síria, liderada pela maioria sunita do país que se opõe a um governo dominado por alauítas, um ramo do xiismo, está cada vez mais imprevisível e perigosa, pois agrava as tensões sectárias para além de suas fronteiras em uma região que sempre foi abalada por divisões religiosas e étnicas.

Para muitos na região, o confronto na Síria tem mais relação com poder e autointeresse do que com a libertação de um povo que vive sob uma ditadura. A Síria vem atraindo forças sectárias de seus vizinhos e ameaça espalhar seu conflito para além de suas fronteiras. Já houve algumas comoções no Líbano, onde sunitas e alauítas entraram em conflito.

No Iraque, onde os xiitas fazem parte da maioria, o que tem acontecido do outro lado da fronteira colocou a nação em alerta e agravou as divisões sectárias. Como Abu Ali descobriu, os xiitas do Iraque estão alinhados à ditadura do Partido Baath na Síria menos de uma década depois da invasão de seu país pelos Estados Unidos ter derrubado o regime de Saddam Hussein e seu próprio Partido Baath, que durante décadas havia reprimido e brutalizado os xiitas.

"É uma situação muito difícil", disse o xeque Ali Nujafi, filho de um dos principais clérigos de Najaf e seu principal porta-voz. "Mas o pior de tudo é o que pode vir a seguir."

O paradoxo dos xiitas apoiarem um ditador num país vizinho revelou o princípio da antiga estrutura de poder que por muito tempo ajudou a preservar os poderosos do Oriente Médio. As minorias muitas vezes se mantiveram fiéis e dóceis para, em troca, receber espaço para construir suas comunidades mesmo que, de uma maneira ou de outra, fossem discriminadas eventualmente.

À medida que os ditadores foram derrubados nos países vizinhos, as identidades e alianças étnicas e religiosas se fortaleceram cada vez mais, enquanto a ideia de todos serem cidadãos de um só país ainda está em seus primórdios. Os combates na Síria têm feito com que os xiitas temam que, caso o país seja dominado pela maioria sunita, uma nova guerra sectária tome conta - com a possibilidade de que presenciem o apocalipse.

As pessoas em Najaf dizem que isso não é exagero e sim uma percepção baseada na fé. Alguns xiitas enxergam a guerra civil cada vez mais ampla na Síria como o início ameaçador do cumprimento de uma profecia xiita que pressagia o fim dos tempos. De acordo com a tradição xiita, Sufyani - uma figura equivalente ao Diabo nos apócrifos do Islã - reúne um Exército na Síria e, depois de conquistar o país, concentra sua atenção nos xiitas do Iraque.

"Entre as histórias que conhecemos do profeta e de sua família está aquela que conta que Sufyani chegará e começará a matar os fiéis na Síria, e depois virá para o Iraque, onde muitas mortes e massacres acontecerão", disse Nujafi.

Segundo ele, o que acontece na Síria é "semelhante, mas não completamente igual" à história de Sufyani. Com uma fácil compreensão da história, ele lembrou a ocupação de Najaf e os roubos em Karbala, uma cidade santa localizada no norte do país, que ocorreram no começo dos anos 1800 e foram realizados pelos ortodoxos muçulmanos sunitas radicais, uma invasão que também estimulou o mesmo medo do apocalipse nos xiitas.

Em Hilla, uma outra cidade xiita ao norte de Najaf, Mohammed Tawfiq al-Rubaie, o representante do aiatolá Ali al-Sistani, um dos líderes religiosos xiitas mais venerados do Iraque, disse: "Desejamos que Bashar al-Assad continue com vida, porém as profecias dos livros xiitas dizem que ele será morto."

Rubaie explicou o que os xiitas acreditam que acontecerá caso o governo de Assad seja derrubado pelos sunitas: "Uma tragédia tomará conta do Iraque caso assumam o poder na Síria, porque eles pensam que os xiitas são infiéis e acreditam que nossas vidas, nossas mulheres e nosso dinheiro estão aqui para que possam se apropriar de tudo e nos matar, porque esse é um requisito para que entrem no Paraíso."

Enquanto os governos ocidentais e árabes consideram ações para pôr fim ao derramamento de sangue - incluindo uma diplomacia mais agressiva, armar os rebeldes ou a intervenção militar -, as discussões não têm tido muito sucesso pela falta de coesão entre a oposição síria , evidência de que alguns dos rebeldes podem ser afiliados da Al-Qaeda e relatos críveis de assassinatos sectários.

Saiba mais: Quase um ano após início de revolta, divisões abalam oposição síria

No centro do problema está uma questão de identificação sectária. Os radicais sunitas que estão do lado do Estado Islâmico do Iraque, um subgrupo que inclui uma facção local da Al-Qaeda, encorajaram muitos combatentes a lutar na Síria, o que torna mais difícil para o Ocidente apoiar a oposição. Recentemente, o grupo divulgou um comunicado em seu site solicitando novos ataques contra os xiitas presentes no Iraque, de acordo com o Grupo de Inteligência SITE, que monitora as comunicações de grupos jihadistas.

As minorias da Síria podem se espelhar no que aconteceu no Iraque caso o governo de Assad seja derrubado: os cristãos assírios, os yazidis e outros foram brutalmente perseguidos pelos insurgentes. No Egito, onde um paradigma semelhante aconteceu quando o ditador Hosni Mubarak foi derrubado , os cristãos sofreram ainda mais com violência sectária, forçando cada vez mais a marginalização política e aumentando um vínculo entre a identidade e a cidadania islâmica.

"Todos os cristãos estão dizendo que a Síria pode estar se tornando o novo Iraque, um país dividido por linhas étnicas e religiosas, onde não existe lugar para os cristãos", disse o reverendo Bernardo Cervellera, o editor-chefe da AsiaNews, uma agência de notícias católica. A Síria, embora não seja uma democracia, pelo menos os "protege", disse.

Abu Ali se lembra de ter ouvido os rebeldes de Homs cantando slogans antixiitas em oposição à aliança da Síria com o Irã, que, assim como o Iraque, é um Estado composto por uma maioria xiita em uma região que é predominantemente sunita. Ele também escutou os pedidos dos rebeldes que diziam para os "cristãos irem para Beirute", e os "alauítas para a cova".

Recentemente em um domingo em Najaf, Abu Ali se sentou em um sofá no escritório de um líder religioso local que o havia acolhido, as galinhas vagavam pelas ruas estreitas, rodeadas por casas com telhados lisos de concreto, disputando espaço com as mulheres cobertas por abayas pretas e pelos seguranças que cuidavam do local com rifles.

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Em meio à chuva, desertores do Exército sírio protestam contra o governo em Idbli, norte do país (29/02)
Em um dos principais postos localizados na periferia da cidade, dava para ver um outdoor que celebrava Najaf, onde milhões vêm todos os anos para visitar o Santuário de Imam Ali, considerado este ano como a "capital da cultura islâmica".

Nesse mesmo dia, a Síria realizava uma votação para uma nova Constituição , uma tentativa de reforma do governo de Assad que grande parte da comunidade internacional considerou como uma farsa, mas que Abu Ali acreditava ser um passo na luta contra a violência. "É claro que o governo precisa mudar algumas coisas, e é necessário que exista mais liberdade e mais direitos", disse. "O governo está tentando mudar mas ninguém está prestando atenção."

Mas seu medo, disse, é que a Síria vá pelo mesmo caminho sangrento que o Iraque foi após a invasão dos Estados Unidos. "Nos bairros sunitas, estão expulsando os xiitas e usando suas casas como bases militantes e para o armazenamento de armas", relatou, acrescentando: "Os xiitas daquela região estão realmente tendo de enfrentar um grande problema."

*Por Tim Arango

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