Sírios confessam sentir efeitos de sanções econômicas

Jovens estão pessimistas quanto ao futuro econômico do país que se pretendia globalizado, e, agora, enfrenta demissões e cortes

The New York Times |

As paredes estão se fechando em torno dos empreendedores jovens sírios que compraram a ideia de uma economia modernizada, prometida pelo presidente Bashar al-Assad - simples transferências de dinheiro estão bloqueadas e cartões de crédito foram inutilizados para compras fora do país à medida que uma crescente lista de sanções internacionais escurece seu futuro financeiro.

Leia também:
- Liga Árabe impõe sanções à Síria, que critica 'interferência'
- União Europeia impõe sanções contra empresas de petróleo da Síria
- EUA impõem sanções contra presidente sírio


NYT
Vendedores montam barraca com doces e nozes na cidade velha de Damasco, na Síria

A proprietária de uma empresa de artesanato que essa semana tentou transferir US$ 450 para a conta bancária de um de seus fornecedores no Líbano teve a transação rejeitada por se originar na Síria. Ela teve que viajar para entregar o dinheiro pessoalmente. Em seguida, um cliente, um investidor para quem ela está projetando móveis para um novo hotel em Abu Dhabi, pediu-lhe que a exportação o que fosse concluída imediatamente, antes que toda a remessa fique presa.

"Esta não é a solução" para acabar com a crise na Síria, disse a mulher, fechando seu casaco de lã preto da moda mais apertado contra o súbito frio do inverno que atinge essa capital superficialmente calma, mas sitiada. "Esta é uma maneira de nos fazer passar fome para punir o presidente."

Quase nove meses após uma contínua revolta popular contra o governo de Assad, a Síria se encontra cada vez mais isolada, com até mesmo antigos aliados condenando o seu uso de força letal. A Turquia , a Liga Árabe , a União Europeia e os Estados Unidos impuseram sanções econômicas ao país.

As medidas já estão sendo sentidas, de formas evidentes para um repórter durante uma visita breve e raramente permitida pelo governo, que buscava chamar a atenção para sua alegação de que as sanções da Liga Árabe em especial equivalem a uma "guerra econômica" contra a Síria.

A questão crucial para Assad, a comunidade internacional e as dezenas de milhares de pessoas que se levantaram contra o governo é se a dor financeira vai induzir a liderança a interromper a repressão violenta contra os protestos antigovernamentais.

As sanções já estão levando às mudanças mais significativas do mandato de Assad: conectando a Síria à economia global, permitindo a existência de bancos privados e a abertura de oportunidades econômicas para os jovens em um país onde cerca de três quartos da população tem menos de 35 anos.

Os otimistas acham que a pressão pode funcionar, principalmente porque a maioria dos magnatas estão próximos do presidente, especialmente seu primo, Rami Makhlouf, e algumas dezenas de filhos de aliados mais próximos de seu pai - Rami engoliu tantas empresas estatais colocadas à venda que o processo de privatização foi ironicamente apelidado pelos sírios de "Ramificação".

Os pessimistas temem que o governo, incluindo os descendentes da velha guarda, vão deixar a economia afundar ainda mais caso queiram se manter no poder.

"Até o último minuto eu não acreditei que a Liga Árabe iria tomar tal decisão", disse Mohammed Ghassan al-Qallaa, o presidente da Câmara de Comércio de Damasco, seu escritório cheio de parafernálias de Assad, incluindo um pequeno busto de ouro do pai de Assad, o ex-presidente Hafez Assad. "Foi como um soco no olho."

Boas estatísticas continuam a ser uma raridade aqui. Mas a atividade de comércio e investimento já caiu 50%, segundo analistas financeiros em Damasco, e as estimativas de quanto a economia vai encolher esse ano giram em torno da faixa de 12% a 20%. As estimativas mais elevadas podem acontecer caso as sanções - como uma proibição de voos ainda em debate pela Liga Árabe - sejam agravadas.

As demissões acontecem num ritmo galopante, com o índice de desemprego chegando a 22%. O setor do turismo, que acumulou cerca de US$ 6 bilhões em 2010, um ano de crescimento, tem sido dizimado.

Gerentes de hotéis relatam taxas de ocupação de 15% ou menos, isso quando divulgam qualquer informação, e vários restaurantes faliram. Segundo analistas financeiros, a luxuosa cadeia de hotéis Four Seasons tentou fechar o seu outrora famoso hotel de Damasco, um esforço rejeitado pelo governo, que detém uma participação estimada em 50% nos negócios da rede.

Sven Wiedenhaupt, gerente geral do hotel, se recusou a divulgar seus dados de ocupação ou quantos funcionários foram demitidos. Mas ele silenciosamente olhou primeira à esquerda, depois à direita para enfatizar a ausência de qualquer um no lobby cavernoso e distintamente frio. "Nós ainda estamos mantendo as luzes acesas e tentando permanecer prontos para o serviço", disse Wiedenhaupt.

Em um hotel na cidade de Aleppo, o aparecimento de dois turistas alemães se provou tão surpreendente que toda a equipe, do gerente às camareiras, apressaram-se a posar para fotos com o casal. "Foi como se tivessem chegado de outro planeta", disse uma mulher síria que testemunhou a cena e, como outros entrevistados, pediu anonimato por medo de represálias.

Embora as sanções tenham bloqueado transações em dólares, até essa semana empresários sírios ainda podiam trabalhar em euros, riais sauditas ou dirhams do Emirados Árabes Unidos. Essas janelas estão se fechando.

Um empresário com experiência nas sanções contra o Sudão disse que elas tiveram pouco efeito porque a vigilância mundial foi fraca. Mas a avaliação das transações sírias tem sido rápida e generalizada, disse ele.

Além disso, o governo de Assad tem estado tão focado em retratar os protestos como uma invasão armada por jihadistas estrangeiros que tem feito pouco para prever o impacto das sanções, disseram analistas. Isso foi agravado pela demissão em março dos ministros responsáveis pela modernização da economia.

As vendas de petróleo - responsáveis por uma parte importante das receitas do governo - caíram à medida que os principais clientes europeus pararam de comprar o produto. A holandesa Shell anunciou na sexta-feira que irá parar suas operações na Síria para cumprir com as novas sanções da União Europeia. Mesmo se a Síria encontrar novos mercados, os analistas observam, garantir o envio pode ser algo impossível.

Citando dados do governo, Jihad Yazigi, editor do The Syria Report, um boletim local de notícias de negócios, disse que a produção de petróleo caiu de 368.000 para 270.000 barris por dia devido à queda na demanda. A Síria importa petróleo bruto para ajudar a refinar o pesado petróleo local, portanto o país enfrenta uma escassez de gasolina, querosene e óleo para aquecimento diante das restrições de importações impostas pelas sanções.

O sistema bancário também foi prejudicado. O fato de que a Síria licenciou 14 bancos privados foi a joia da coroa na modernização econômica de Assad. Mas depósitos nesses bancos encolheram 20% nos últimos nove meses, segundo um estudo privado, com US$ 2 bilhões retirados das instituições.

A construção também sofreu, particularmente grandes projetos de infraestrutura. Um engenheiro que frequentemente faz ofertas a contratos com o governo disse que nenhum projeto novo está em andamento e outros já começados foram interrompidos.

Os souks, ou feiras, de Damasco estão entre os poucos lugares no Oriente Médio que ainda produzem artesanato tradicional. Seus móveis de madeira entalhada com madrepérola e lanternas de latão estão em alta demanda em toda a região.

Enquanto bebia xícaras de chá de maçã, um artesão local resmungava que mesmo transações básicas estão se tornando uma dor de cabeça. Ele teme que a Síria irá repetir a experiência do Iraque, onde o governo sofreu sanções e um mercado negro fervilhante com as vendas ilegais de petróleo, enquanto professores universitários acabaram dirigindo táxis. "Bashar al-Assad é uma pessoa, mas existem 23 milhões de sírios", disse ele. "Toda essa pressão que põem sobre a Síria apenas faz com que o regime fique mais forte, porque isso lhes dá poder".

À medida que a pressão aumenta e a matança continua , duas escolas de pensamento surgiram por aqui.

Saiba mais:
- ONU diz que Síria está em guerra civil; mortos passam de 4 mil
- Conselho de Direitos Humanos da ONU condena Síria
- Após condenação da ONU, Síria registra mais um dia de violência

Em um lado estão os chamados tradicionalistas, particularmente os empresários mais velhos que viveram várias sanções nos últimos 30 anos, isso para não mencionar o planejamento socialista centralizado. Para eles, as novas medidas foram, sem dúvida, um golpe.

Mas eles argumentam que os sírios irão se ajustar exatamente como fizeram na década de 1980, quando sofreram com racionamento e seguiam de carro até quiosques perto da fronteira jordaniana para comprar coisas básicas como papel higiênico.

Mas muitos da geração mais jovem não são tão otimistas. Eles apontam que no passado a Síria era muito menos ligada à economia internacional. Uma mudança positiva trazida por Assad desde que herdou o poder em 2000 foi ter levado a economia da Síria para o cenário global.

A nova geração está se preparando para ver a Síria ser forçada a deixar esse cenário e ter sua economia destruída.

Se há um ponto positivo nos mercados da Síria, tem sido o crescimento das vendas de alimentos. Embora em alta, as vendas foram provavelmente estimuladas pela acumulação, o que inflou os preços em cerca de 20%, disseram especialistas. A Síria tem armazenadas mercadorias estratégicas como o algodão, azeite de oliva e uma oferta de dois anos de trigo. As autoridades locais dizem ser autossuficiente na maioria dos alimentos.

"Não temos medo que as pessoas irão morrer de fome ou congelar", disse o ministro das Relações Exteriores, Walid al-Moallem em uma entrevista coletiva denunciando as sanções. "Elas vão afetar os cidadãos, sem qualquer dúvida, mas nosso povo está acostumado a tais pressões."

A geração empreendedora não está convencida. "Antes, elas podiam durar anos, em um sistema fechado, onde não havia conexão com o mundo exterior, mas toda a dinâmica mudou", disse um analista financeiro. "Não é mais uma questão de se entrincheirar e comer a reserva estratégica de trigo."

Por Neil Macfarquhar

    Leia tudo sobre: síriaassadprotestodamascoviolênciamundo árabesançõesturquiaunião europeiaeualiga árabe

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG