Síria acredita que conseguirá derrotar levante popular

Confiança de porta-voz oficial do governo de Bashar al-Assad contrasta com resistência dos protestos que já duram sete semanas

The New York Times |

O governo sírio acredita ter conquistado supremacia sobre a revolta popular contra o governo do presidente Bashar al-Assad que já dura sete semanas, segundo uma oficial de alto escalão, no mais claro sinal de que o governo local acredita que a sua repressão dará fim aos protestos, que começaram a vacilar em face das centenas de mortes e prisões em massa.

As observações de Bouthaina Shaaban, uma assessora de Assad, que muitas vezes serve como porta-voz oficial do governo, sugeriram que um governo acostumado a se adaptar diante de crises está preparado para enfrentar a condenação e sanções internacionais. Sua confiança pareceu contrastar com o cenário de apenas duas semanas atrás, quando o governo parecia cambalear diante da amplitude e da resistência dos protestos em dezenas de vilas e cidades.

"Eu espero que nós estejamos testemunhando o fim dessa história", disse ela em uma entrevista de uma hora, para a qual um repórter pode entrar na Síria por apenas algumas horas. "Eu acho que agora nós já passamos do momento mais perigoso. Espero que sim, acho que sim".

AP
Foto amadora mostra protestos contrários ao governo sírio, na cidade de Qamishli (10/5/2011)
Seus comentários foram um raro vislumbre do pensamento de um governo que impediu a maioria dos jornalistas estrangeiros de entrar no país desde o início do levante, que ameaçou de 40 anos de governo pela família Assad. Embora grande parte do mundo tenha visto a agitação como uma demanda popular por mudanças radicais em um dos países mais autoritários da região, Shaaban o retrata como um levante armado, uma caracterização usada pelo governo para justificar sua repressão feroz.

Repressão

Essa repressão intensificou segunda-feira nos arredores de Damasco e em três outras cidades, com centenas de agentes das forças de segurança invadindo casas e prendendo homens entre as idades de 18 e 45 anos, segundo grupos de direitos humanos e ativistas. O Exército enviou tanques a Baniyas, na costa do Mediterrâneo; Homs, na Síria central, perto da fronteira libanesa, e Tafas, em uma região rebelde no sul, disseram.

Baniyas emergiu como um foco da repressão. A Anistia Internacional afirmou na quinta-feira que mais de 350 pessoas, incluindo 48 mulheres e uma criança de 10 anos, foram presos na cidade durante os últimos três dias, muitos em um campo de futebol. Mais ataques foram realizados em Homs, cidade entre as mais inquietas. Pelo menos nove soldados teriam desertado no local, embora esse relato não tenha sido confirmado.

"Eles querem encerrar tudo essa semana", disse um defensor dos direitos humanos alocado na terceira maior cidade da Síria. "Ninguém no regime tem uma política clara. Eles não podem manter essa estratégia por muito tempo. Precisamos de soluções políticas, e não de mais tanques”.

O tumulto em algumas partes do país que têm sido negligenciadas por um governo com pouco dinheiro e uma dívida inexplicável para com as forças de segurança contrastava com o panorama de Damasco na segunda-feira. Havia poucos sinais de uma escalada militar na capital, exceto alguns guardas extras em algumas embaixadas e edifícios governamentais. Cartazes anunciavam a afirmação do governo de que o levante ameaçava o frágil mosaico de uma maioria muçulmana sunita e as minorias de cristãos, curdos e seitas heterodoxas muçulmanas da Síria, um tema muitas vezes repetido por oficiais buscando angariar apoio popular para o aumento da repressão.

"Não à discórdia", um cartaz proclamava.

"Liberdade não começa com a ignorância, começa com consciência", dizia outro.

Mortos

A Anistia Internacional disse haver documentado os nomes das 580 pessoas mortas desde o início do levante, em meados de março. Shaaban afirmou que cerca de 100 soldados e membros das forças de segurança também foram mortos por militantes armados, a quem acusou de manipular "as exigências legítimas do povo”. Embora alguns oficiais do governo dos Estados Unidos e até mesmo alguns ativistas tenham reconhecido que alguns manifestantes recorreram às armas, eles os chamam de uma minoria.

Shaaban disse: "Nós pensamos que estas pessoas são uma combinação de fundamentalistas, extremistas, traficantes, pessoas que são ex-presidiários e estão sendo usadas para criar problemas". E acrescentou: "Você não pode ser muito agradável com pessoas que estão liderando uma rebelião armada", embora reconheça que não sejam o único fator no tumulto.

Em um sinal de que o governo permanece incerto sobre a natureza da revolta, ela se recusou a especificar quem estava por trás deles, dizendo apenas que as autoridades ainda investigam o caso.

Oficiais do governo afirmaram que Shaaban e o vice-presidente Farouk al-Sharaa parecem mais receptivos à realização de uma reforma, embora a sua influência pareça pálida diante de vozes agressivas da elite, particularmente o irmão de Assad, Maher, que lidera a elite da Guarda Republicana e da Quarta Divisão. 

Shaaban disse que ela foi convidada a abrir negociações com os dissidentes. Na semana passada, ela disse, ela se reuniu com Michel Kilo, Aref Dalila, Kheirbek Salim e Louay Hussein, todos ativistas veteranos, e acenou com a perspectiva de uma imprensa livre, partidos políticos e uma lei eleitoral. 

Ela chamou isso de o início de um diálogo nacional, embora alguns na oposição tenham dito ser um esforço sincero usado simplesmente para cooptar o maior número possível de opositores.

"Na próxima semana, vamos ampliá-lo", disse Shaaban. "Queremos utilizar o que aconteceu com a Síria como uma oportunidade. Vemos isso como uma oportunidade para tentar avançar em muitos níveis, especialmente no nível político”.

Aliados

Assad há muito frustra aliados e até adversários ao prometer reformas apenas para, em seguida, parecer incapaz ou indisposto a realizá-las. Apesar das promessas de Shaaban, um oficial do governo afirmou que o governo ainda está lutando por sua sobrevivência. Mesmo que tenha conseguido vantagem, o oficial sugeriu, qualquer mudança será limitada. "Assad não é capaz de implementar essas reformas", disse o oficial. "Ele não é capaz. Ele sabe que se o fizesse, seria o seu fim. Ele cairia”.

Mas em contraste com a Líbia, onde os Estados Unidos insistem que Muamar Kadafi deixe o governo, as autoridades americanas simplesmente repetem apelos para que Assad atenda às demandas populares.

A abertura de Shaaban parecia destinada a abordar alguns pedidos de mudança. Mas mesmo se o governo não aplacar a oposição, ela sugeriu que a condenação internacional até então terá silenciado.

Shaaban descreveu as declarações do presidente Barack Obama e da secretária de Estado Hillary Rodham Clinton como "não muito ruins" e disse que as sanções – parciais e impostas em separado pelos Estados Unidos no mês passado e pela União Europeia nesta semana – são controláveis. "Essa é uma arma usada contra nós muitas vezes", disse Shaaban. "Uma vez que a segurança estiver reestabelecida, tudo poderá ser arranjado. Nós não vamos viver nesta crise para sempre”.

*Por Anthony Shadid

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