Sinos da Catedral de Notre Dame, em Paris, serão substituídos

Troca de sinos em uma das torres da igreja provoca polêmica entre franceses que acreditam em valor histórico

The New York Times |

Desde 1856, os quatro sinos das torres da Catedral de Notre Dame, em Paris, tocam a cada 15 minutos sem falhar. Eles tocaram para marcar o final da Primeira Guerra Mundial e a libertação da cidade em 1944. Mais recentemente, eles tocaram em homenagem às vítimas do 11 de Setembro.

Os sinos foram batizados com os nomes de vários santos franceses: Angelique-Françoise, Antoinette-Charlotte, Hyacinthe-Jeanne e Denise-David.

No entanto, em 2012 eles serão derretidos e substituído por nove sinos novos destinados a recriar o som dos originais colocados em Notre Dame no século 17.

NYT
Os sinos Hyacinthe-Jeanne (esq) e Antoinette-Charlotte, da Catedral de Notre Dame, que serão substituídos (04/02/2008)

A substituição dos sinos, que é mencionada sem alarde numa placa no interior da igreja, causou um tumulto pequeno e bastante parisiense. Alguns consideram os sinos do século 19 testemunhas incomparáveis da história da França, que ficou famosa com o "Corcunda de Notre Dame", de Victor Hugo, e uma parte indestrutível da herança cultural do país.

Para o Reverendo Patrick Jacquin, reitor da Notre Dame e iniciador do projeto, trata-se de uma questão de autenticidade. "Não vamos destruir os sinos", disse ele. "Vamos apenas intensificar o som da Notre Dame".

Fundidos de uma liga de bronze, sinos podem parecer indestrutíveis, mas não duram para sempre. Eles podem se desgastar e perder a afinação, que é o que alguns peritos dizem ter acontecido com os da Notre Dame. "Este é um dos piores conjuntos de sinos da França", disse o especialista Herve Gouriou. "Estão danificados e desafinados."

Mas para alguns fervorosos defensores da herança cultural francesa como Xavier Gilibert, 37, diretor de uma organização não-governamental, os sinos não são apenas um símbolo de Paris, mas também um patrimônio mundial. "Eles tocaram em momentos fundamentais da nossa história", disse Gilibert. "Eles vão desaparecer, e ninguém vai saber disso."

A substituição dos sinos, um projeto de US$ 3,5 milhões, é parte de uma reforma em preparação para o aniversário de 850 anos da catedral em 2012, que inclui a reformulação de seu sistema de iluminação obsoleto e de seus famosos órgãos.

Nem todos os sinos serão substituídos. O grande sino Bourdon Emmanuel, de 1681, que está pendurado na torre sul e é considerado um dos mais belos da Europa, será preservado. Ele toca apenas em grandes celebrações religiosas como a visita de papas, funerais presidenciais e comemorações. Quando o Papa João Paulo 2º morreu em 2005, aos 84 anos, o Emmanuel Bourdon tocou 84 vezes.

Apesar das preocupações de pessoas como Gilibert, apenas o Bourdon Emmanuel é considerado pelos especialistas como de algum significado histórico.

Os sinos menores foram colocados no século 19, que muitos historiadores franceses consideram ser recente. Além disso, seu metal é de baixa qualidade e eles produzem um som desarmônico, segundo os especialistas.

Antes da Revolução Francesa, Notre Dame tinha 20 sinos famosos no topo das torres norte e sul. Mas depois, em 1789, todos os sinos foram derretidos para a fabricação de canhões, conforme os revolucionários destruíram todos os símbolos religiosos e chegaram a realizar reuniões de propaganda na catedral (cerca de 80% dos sinos em toda a França desapareceram após a Revolução Francesa).

"Até 1856, o sino restante servia apenas como um alarme", disse Jacquin. "A igreja o tocava apenas para alertar as pessoas, inclusive sobre epidemias."

Os revolucionários confiscaram o sino Emmanuel, mas nunca o destruíram. Ele foi colocado de volta nas torres sul por ordem de Napoleão em 1802.

Em 1856, Napoleão 3º ofereceu quatro sinos à Catedral de Notre Dame – os existentes hoje – para celebrar o batismo de seu filho e substituir aqueles perdidos na Revolução.

Jacquin espera recriar os sinos originais do século 17 e "recuperar a harmonia dos sinos que existiam antes de 1789", disse ele. Ele está trabalhando com um arquivo deixado por Eugene Viollet-Le-Duc, famoso arquiteto do século 19.

Viollet-Le-Duc, que restaurou a catedral entre 1845 e 1865, também desejava recriar a antiga harmonia da igreja. Ele reconstruiu o campanário, fazendo buracos nas paredes da igreja, e montou vigas para apoiar os novos sinos. Mas o projeto foi abandonado.

Os novos sinos, segundo Jacquin, terão o mesmo peso e diâmetro dos antigos e são projetados para produzir as mesmas notas. Eles irão tocar como tocavam no antigo regime, com ressonâncias mais profundas e um tom mais baixo do que hoje.

Jacquin irá pedir orçamentos aos últimos quatro fabricantes de sinos da França. No mês passado, ele foi para os Estados Unidos - “onde as pessoas estão interessadas em sinos", disse ele - para encontrar patrocinadores para a renovação, que também está recebendo dinheiro do Estado.

Para Fernando Gabrielli, 48, um crítico ferrenho do projeto, a destruição dos sinos atuais é um crime. "Eles são a música do mundo", disse ele em entrevista.

Gabrielli, um cantor brasileiro de jazz que se estabeleceu em Paris há 11 anos e chama a Notre Dame de "minha catedral", armou uma cruzada na internet para denunciar o que chama de "um grande escândalo", alertando sobre a destruição dos sinos atuais em músicas e vídeos postados no YouTube. Ele filmou a si mesmo cantando à capela próximo aos sinos enquanto eles tocavam e chegou a escrever uma carta para o papa em sua página no Facebook.

"Meu querido Bento 16", dizia o texto. "Dói-me imensamente enfrentar o risco de perder esses tesouros da França para sempre, esses que são muito queridos para mim."

O coreógrafo e dançarino Ghislaine Avan, 47, usa os sinos de Notre Dame como música da caixa postal de seu celular. "Os sinos são uma ressonância, uma música, uma vibração", disse Avan. "Mudá-los é um disparate completo".

Mas alguns especialistas dizem que a renovação dos sinos é um ato criativo, e não apenas uma réplica do passado. Philippe Paccard é dono da Paccard Fonderie, a mais antiga fundição de sinos da França, que foi criada em 1796. Segundo ele, "a tradição dita que os fabricantes de sinos nunca façam um igual a outro”.

O pai de Paccard construiu o maior sino do mundo, que toca em Newport, Kentucky. Ele também fez o carrilhão da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e os sinos da Catedral de St. Patrick, em Nova York. Sua empresa também projetou os sinos da Basílica de Sacre-Coeur, em Montmartre, que são conhecidos por serem os maiores da França.

"Sinos são como seres humanos", disse Paccard. "Eles vivem e, um dia, desaparecem".

Por Maia De La Baume

    Leia tudo sobre: françaparissinocatedral de notre dame

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG