Símbolo político ressurge nas eleições da Indonésia

JACARTA ¿ Os três partidos que competem nas eleições presidenciais da Indonésia, na próxima semana, encheram a cidade de cartazes de campanha e pôsteres, obviamente, apresentando seus candidatos à presidência e à vice-presidência, aparentemente, muito confiantes.

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Cartazes de campanha na Indonésia usam traje religioso em concorrência política

Mas um partido, o Golkar, também colocou cartazes das mulheres dos candidatos junto a seus maridos, vestindo trajes muçulmanos com lenços cobrindo a cabeça, conhecido localmente como hijabs. As mulheres foram, recentemente, em uma promoção de hijab em um dos maiores mercados de Jacarta, e juntas publicaram um livro chamado Mulheres Devotas aos Futuros Líderes.

A maioria das pesquisas sugere que o presidente Susilo Bambang Yudhoyono do Partido Democrata será reeleito na votação da próxima quarta-feira. Ele fez uma campanha tranquila baseada em políticas econômicas e um popular direcionamento contra a corrupção. Apesar dos debates televisivos, as campanhas direcionadas à personalidade focalizaram em pequenas diferenças políticas e ideais, exceto quanto ao uso do hijab.

Talvez seja surpreendente que o hijab, estilo islâmico de vestimenta na qual a mulher cobre a cabeça e o pescoço, tenha se tornado um tema na campanha presidencial deste ano. As vendas de hijab aumentaram por três anos no país, onde as mulheres tradicionalmente se desvelaram, e onde o significado do uso do traje ¿ ou seu não uso ¿ permanece fluido. O assunto também remete a um debate central não resolvido na democracia da Indonésia da velha década: o papel do islamismo na política.

É a primeira vez que o hijab se tornou um assunto em uma campanha presidencial na Indonésia, disse Siti Musdah Mulia, professora de estudos islâmicos, na Universidade Estadual Islâmica de Syarif Hidayatullah, e defensora dos direitos das mulheres. Há tantos assuntos mais importantes que deveriam ser discutidos na campanha, disse Mulia, que usa hijab há oito anos. Então, por que esse?

Mas não seria a primeira vez que os políticos tentam cooptar por símbolos religiosos para ganhar votos.  O tumulto sobre o hijab começou há poucos meses quando Yudhoyono, cuja mulher, Kristiani Herawati, não usa hijab, e o vice-presidente Jusuf Kalla, cuja mulher, Mufidah, usa, decidiram não concorrer juntos novamente.

O presidente selecionou seu novo candidato à vice, respeitado executivo do Banco Central, Boediono, cuja mulher, Herawati, não usa o traje para cobrir a cabeça. Do outro lado, Kalla decidiu concorrer à presidência com o símbolo do Partido Golkar e escolheu como seu número dois o general aposentado, Wiranto, cuja mulher, Rugaya, usa o traje (muitos indonésios são chamados apenas por um nome).

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Presidente Susilo Bambang Yudhoyono, à esquerda, acompanhado de
ua mulher Ani Yudhoyono durante comício em Balikpapan

Pode ser que ao sentir a abertura demonstrada nas pesquisas, o Partido Golkar em breve coloque cartazes das mulheres dos líderes descobertas. Com jornalistas sempre por perto, as mulheres foram às compras para adquirir hijabs em Tanah Abang, maior mercado têxtil da cidade, onde a mulher do general é conhecida por ir sempre, mas, a mulher de Kalla, não.

Os oficiais do Partido Golkar rejeitaram as acusações do partido do presidente de que estão tentando explorar o Islã na política. Eles também negaram ter envolvimento na recente distribuição de folhetos que diziam, falsamente, que a mulher de Boediono não é muçulmana, mas católica romana.
Yudhoyono também foi pressionado pela coalizão aliada, o Partido da Justiça Próspera, maior partido islâmico do país. O líder do partido disse que os integrantes estavam indo em direção aos candidatos a Golkar por causa do uso de hijab por suas mulheres.

Os partidos islâmicos do país têm partidários fiéis, o que é invejado pelos grandes partidos, apesar desses partidos terem fracassado em atrair os principais eleitores. Na verdade, nas eleições parlamentares em abril, eles sofreram uma grande diminuição de apoio, comparado há cinco anos. Esse declínio representa a rejeição que os principais eleitores têm com o Islã na política.

Nemg Dara Affiah, oficial em Nahdlatul Ulama, maior organização islâmica do país, que sustenta o islamismo moderado, disse que a luta contra o significado do uso do hijab estava tomando lugar entre os fundamentalistas e os progressistas.

Os fundamentalistas estão tentando forçar as mulheres a usar o traje como um ato de submissão, e já o fizeram em muitos municípios do arquipélago da Indonésia, nos últimos anos, disse Neng. Para os progressistas, disse ela, usar o hijab é uma expressão dos direitos da mulher.

Para as mulheres da Indonésia, se elas querem usar ou não o hijab é uma escolha delas, disse Neng, que começou a usá-lo há cinco anos. Não deveria ser político.


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