Silenciosamente, China amplia influência em países asiáticos

Antes zona de influência da União Soviética, países da Ásia Central assistem à ampliação da diplomacia econômica de Pequim

The New York Times | 06/01/2011 08:05

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Nos arredores de Murghab, uma cidade fustigada pelo vento, fundada em 1893 como um posto militar russo, a construção de uma nova alfândega anuncia o retorno de outra grande potência. Quando for inaugurado este ano, o grande prédio irá acomodar caravanas muito maiores de caminhões chineses do que o depósito comercial existente, acelerando o fluxo de roupas, eletrônicos e eletrodomésticos que ultimamente têm inundado a Ásia Central, de yurts nômades nas estepes do Quirguistão a antigos becos em Samarkand e Bukhara, no Uzbequistão.

"O comércio está crescendo entre a China e todos estes países ao redor dela", disse Tu'er Kong, cujo caminhão era um dos cerca de 50 que transportavam mercadorias chinesas por aqui em um dia recente.

Enquanto a China está aproveitando os holofotes na Ásia Oriental e Sudeste com o ampliamento da sua diplomacia econômica, o país também tem calmamente feito sentir a sua presença no seu flanco oeste, antes de domínio da Rússia.

Foto: The New York Times

Painel solar chinês chega a região próxima a Rangkul, no Tadjiquistão

As autoridades chinesas veem a Ásia Central como uma fronteira crucial para a segurança energética, a expansão do comércio, a estabilidade étnica e a defesa militar de seu país. As empresas estatais foram fundo na região, com dutos de energia, ferrovias e rodovias, enquanto o governo abriu recentemente inúmeros Institutos Confúcio para ensinar mandarim nas capitais da Ásia Central.

A Ásia Central, diz o general Liu Yazhou do Exército Popular de Libertação, é "o mais grosso pedaço de bolo dado ao chinês moderno pelos céus".

Os cinco países predominantemente muçulmanos que conquistaram a independência após o colapso da União Soviética em 1991 – Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão – voltam a ser espaços disputados entre as superpotências, como aconteceu durante o século 19, no Grande Jogo entre a Rússia e a Grã-Bretanha. Desta vez, os jogadores são China, Rússia e Estados Unidos, que usa a Ásia Central como um canal para as tropas que seguem para o Afeganistão.

EUA

As autoridades chinesas se preocupam com o que veem como esforços dos Estados Unidos para cercar a China, ao ver tropas americanas e alianças militares na Ásia Central, Índia e Afeganistão, como o arco ocidental de uma estratégia de contenção que também depende da cooperação com as nações do Leste e Sudeste da Ásia.

A China está flexionando seus próprios músculos militares na área e chegou a realizar jogos de guerra sofisticados no Cazaquistão, em setembro, como parte dos exercícios anuais que tradicionalmente incluem várias nações da Ásia Central. De acordo com um dossiê do Departamento de Estado divulgado pelo website WikiLeaks, autoridades dos Estados Unidos suspeitam que a China ofereceu US$ 3 bilhões ao Quirguistão para fechar a base aérea americana no país.

O dossiê, datado de 13 de fevereiro de 2009, descreveu um encontro desagradável entre Tatiana C. Gfoeller, embaixadora dos Estados Unidos no Quirguistão, e Yannian Zhang, o embaixador chinês no país, em que Gfoeller confrontou Zhang com as suas suspeitas de suborno de US$ 3 bilhões. "Visivelmente perturbado, Zhang perdeu temporariamente a capacidade de falar russo e começou a falar em chinês com o assessor que silenciosamente tomava notas bem atrás dele", afirma o dossiê. Zhang, em seguida, rebateu a acusação.

Nova Rota da Seda

A nova presença da China na Ásia Central é, em muitos aspectos, mais parecida com uma recriação da Rota da Seda do que do Grande Jogo. Os analistas chineses dizem que um dos objetivos de Pequim é a integração econômica da Ásia Central com a instável região oeste de Xinjiang, derrubando barreiras comerciais, mesmo que os governos da Ásia Central estejam cautelosos.

"O seu crescimento econômico na Ásia Central é bastante significativo", disse um oficial dos Estados Unidos que falou sob condição de anonimato por não estar autorizado a falar publicamente sobre a política chinesa na região. "De muitas maneiras, os investimentos são bem-vindos, não apenas por esses países, mas também pelos Estados Unidos. Mas há uma falta de transparência em termos de investimentos da China e suas relações com esses países".

Foto: The New York Times

Produtos vindos da China em depósito em Kara-Suu, no Quirguistão

A população local está muito cautelosa, especialmente no Quirguistão e no Cazaquistão, onde têm muito medo de que a imigração chinesa possa inclinar a balança do poder econômico em países de baixa densidade populacional. Em Almaty, no Cazaquistão, os moradores realizaram um protesto em janeiro passado contra um acordo proposto pela China sobre um terreno local.

"Muitos de nós cazaques estamos desconfiados do afluxo chinês em geral, mas o que podemos fazer?", disse Aidelhan Onbedbayev, 35 anoss, um motorista de ônibus que transporta mercadores e viajantes entre Almaty e Zharkent, uma cidade de fronteira. "O governo toma essas decisões e os convida a investir em zonas de comércio livre e oferece a terra".

Autoridades

Algumas autoridades chinesas têm sido claras sobre os seus interesses. "A cooperação energética da China com os países da Ásia Central começou na década de 90, mas nos últimos anos, com o rápido crescimento da força nacional da China, a China aproveitou a falta de iniciativa na região por parte dos Estados Unidos e da Rússia", escreveu Liu em um ensaio publicado no ano passado na revista Phoenix Weekly. "A China começou a incentivar o consumismo febril na área".

As nações da Ásia Central que fazem fronteira com a China, especialmente o Quirguistão, tornaram-se um importante ponto de trânsito de produtos chineses que seguem para a região do Mar Cáspio, Rússia e Europa. O comércio entre a China e os cinco países da Ásia Central totalizaram US$ 25,9 bilhões em 2009, um aumento considerável em relação aos US$ 527 milhões em 1992, segundo estatísticas do Ministério do Comércio.

Enquanto isso, novos gasodutos transportam petróleo e gás natural de campos da Ásia Central, onde empresas chinesas compraram os direitos de desenvolvimento de Xinjiang. As autoridades chinesas veem a Ásia Central e o Mar Cáspio como uma fonte crucial de energia alternativa – o Oriente Médio é politicamente instável e os petroleiros de lá passam pelo Estreito de Malaca, que a China teme que poderia ser fechado por forças militares americanas ou outras.

Foto: The New York Times

Trabalhadores chineses preparam terreno para construção de rodovia na fronteira entre a China e o Quirguistão

A China também vê a Ásia Central como um ponto de apoio para manter a estabilidade em Xinjiang, onde as tensões de longa data entre muçulmanos uigures e chineses da etnia han costumam explodir em violência. Desde os confrontos étnicos em Xinjiang em 2009, as autoridades chinesas têm sido particularmente cautelosas com o islamismo radical das nações da Ásia Central ou do Paquistão e Afeganistão, dizem analistas. Cerca de meio milhão de uigures vivem na região, muitos deles imigrantes de Xinjiang para o Cazaquistão e o Quirguistão.

Em 1966, a China ajudou a estabelecer um precursor da Organização de Cooperação de Xangai, um grupo de estratégia regional destinado, principalmente, a combater a mobilização separatista. Os membros do grupo, incluindo a Rússia e a maioria dos países da Ásia Central, compartilham informações e realizam exercícios militares conjuntos, mesmo que muitas vezes não consigam coordenar sua política por causa de interesses concorrentes, segundo autoridades dos Estados Unidos.

A China também espera usar o grupo para ampliar a sua influência econômica na região. No ano passado, o governo chinês concedeu US$ 10 bilhões em empréstimos para os países da Organização de Cooperação de Xangai "para apoiar as economias em dificuldades".

Auxílio

Alguns oficiais chineses e analistas acreditam que o auxílio, juntamente com o fortalecimento das relações comerciais, levará ao crescimento econômico da região de Xinjiang e a menos "agitação" entre os uigures. Oficiais do governo central apresentaram uma proposta no ano passado para o Conselho de Estado, o gabinete chinês, para transformar Urumqi, capital de Xinjiang e local dos tumultos de 2009, em um polo regional de produção de energia. "A China sempre prestou atenção a estes países vizinhos, promovendo o desenvolvimento da paz nesses locais a fim de proporcionar um bom ambiente para o crescimento econômico da China", disse Wu Hongwei, um estudioso da Ásia Central na Academia Chinesa de Ciências Sociais.

Dois novos gasodutos, o primeiro entre a China e países estrangeiros, fornecem gás ao Turcomenistão e petróleo ao Cazaquistão. Os dutos foram considerados importantes o suficiente para que o presidente chinês, Hu Jintao, fosse ao deserto de Karakum, no Turcomenistão, em 2009 para girar uma roda simbólica de abertura do gasoduto de 1,76 mil quilômetros no local.

O gasoduto deverá atingir sua capacidade total de 40 bilhões de metros cúbicos em 2012 ou 2013, e o Turcomenistão foi contratado para transportar gás para a China por 30 anos. A China conquistou a única licença para desenvolver as jazidas de gás localizadas em Yolotan Sul, que estão entre as maiores do mundo.

*Por Edward Wong, com contribuição de Xiyun Yang, Benjamin Haas e Teo Kaye

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