Serviço militar determinou vida de pré-candidato republicano

Força Aérea levou Rick Perry a lugares exóticos mas também cimentou valores conservadores que formam sua identidade política

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Rick Perry posa para foto ao lado de avião enquanto era piloto em treinamento da Força Aérea dos EUA
Rick Perry chegou ao campus da Universidade A & M do Texas no tumultuado outono de 1968, cortou seu cabelo no estilo militar e vestiu seu uniforme. Estudantes universitários de toda a América estavam se rebelando contra a Guerra do Vietnã (1955 - 1975), mas Perry, um membro do Corpo de Cadetes local, não estaria entre eles.

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"Aqui não será como Columbia ou Berkeley", disse o presidente da universidade, Earl Rudder, naquele outono. Quando um pequeno grupo de manifestantes anti-guerra tomou os degraus do Memorial do Centro Estudantil, um edifício dedicado aos "mais velhos que deram suas vidas pelo nosso país", o jovem Perry ficou furioso.

"Eu não quero usar o termo 'hippie de cabelos compridos'", disse John Sharp, um colega de classe de Perry e atual chanceler da universidade, "mas uma pessoa que não parecia se encaixar na A & M disse alguma coisa ao estilo Jane Fonda e eu me lembro de Perry se levantar muito rápido e contrariar aquilo. Ele tomou como uma ofensa pessoal e chegou a gritar com o cara".

Hoje Perry, o governador do Texas, está concorrendo à presidência em um cenário republicano sendo um de apenas dois candidatos com experiência militar - o outro é Ron Paul. Como piloto da Força Aérea, ele voou aviões C-130 de carga fora da base da Força Aérea Dyess, em Abilene, cerca de uma hora ao sul da minúscula cidade de Paint Creek, onde cresceu.

Durante a campanha, Perry se concentrou em assuntos domésticos, lançando-se como o homem que pode "revisar Washington." Seus dias na Força Aérea, no entanto, dão uma dica de como ele pode lidar com um outro aspecto importante da presidência, a segurança nacional. Em debates recentes, ele emergiu como um intervencionista, uma postura que pode ser atribuída, em parte, ao serviço militar.

Essa foi uma experiência que tanto expandiu quanto estreitou sua experiência de vida, levando-o a locais exóticos, enquanto cimentava suas raízes no Texas e nos valores tradicionais, conservadores, que têm sido tão centrais para a sua identidade política. Em missões da Força Aérea no exterior, ele disse aos estudantes da Universidade Liberty, que tinha tido seu primeiro encontro com o "povo oprimido" - uma experiência que aguçou sua ideia dos Estados Unidos como um farol da democracia e ajudou a convencê-lo de que os americanos "não podem se isolar em si mesmos dentro de suas fronteiras".

Hoje, o estudante universitário que apoiou a Guerra do Vietnã é, aos 61, o candidato presidencial mais astuto. Perry chamou o presidente Barack Obama de "irresponsável" por encerrar a Guerra do Iraque, pediu a derrubada do governo iraniano - contra o qual ele não descartaria um ataque militar - e sugeriu que deslocaria tropas para o México para "matar aqueles carteis de drogas".

Perry também se comprometeu a restabelecer a política militar "Don't Ask, Don't Tell" ("Não Pergunte, Não Conte"), que impedia o alistamento de soldados abertamente homossexuais.

O Vietnã foi como uma sombra durante o serviço militar de Perry. Como um jovem cadete, ele chorou a morte de colegas estudantes da A & M mortos em batalha. Mas com a guerra acabando, Perry não chegou a combater. Em vez disso, ele carregava pessoas e suprimentos ("transporte de lixo", ele e seus amigos chamavam a função) entre Estados Unidos, Europa, Ásia e África.

"Eu vi as praias do Rio de Janeiro, as antigas cidades da Europa que já existiam muito antes de Colombo partir para as Américas, e as areias do Golfo Pérsico, ocupadas por beduínos que pareciam presos ao século anterior", Perry escreveu em "n My Honor (Em Minha Honra, tradução livre) seu livro sobre os valores dos escoteiros.

Ainda assim, as viagens de Perry pelo mundo não geraram qualquer anseio por uma vida na estrada. Em vez disso, ele se sentiu "uma sensação crescente de saudade", escreveu. Quando em Abilene, vivia em uma pequena casa que tinha construído no interior. Seus companheiros pilotos se lembram dele mais por churrascos e explorações de caça que ele organizou do que por qualquer gosto de ver o mundo.

"Ele mal saia de casa e embora ele tenha se mudado para vários lugares do mundo, ele sempre permaneceu na bolha militar", disse Cal Jillson, cientista político da Universidade Metodista Southern, em Dallas, que tem seguido a carreira de Perry. "Minha sensação é de que o serviço militar o isolou, ao invés de ampliar sua perspectiva."

Perry se recusou a ser entrevistado para esse artigo, e seu comitê se recusou a liberar seus registros militares, embora tenha fornecido ao The New York Times uma parte da sua avaliação de desempenho, datada de setembro de 1976, citando-o como um "excelente jovem oficial." Na campanha presidencial, Perry invocou o seu estatuto de veterano apenas brevemente, principalmente para se contrastar com Obama, que não serviu.

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Mas, como governador, Perry liberou uma foto de divulgação da Força Aérea tirada durante o seu treinamento como piloto. Nela, ele usa um macacão, óculos de aviador e tem um olhar distante, enquanto se inclina contra um elegante jato T-38 supersônico - um avião que não tem qualquer semelhança com os jatos de cargas volumosos que ele voou.

Quando menino, em Paint Creek - uma cidade sem semáforos, nenhuma mercearia e uma classe de ensino médio com 13 alunos - Rick Perry sonhava em fazer duas coisas. Uma delas era se tornar um Aggie - um estudante da A & M. A outra era aprender a voar.

"Nós crescemos vendo os aviões agrícolas indo e vindo", disse Jim Bob Mickler, um amigo que agora trabalha para uma agência estatal que fornece empréstimos a juros baixos para os veteranos. "Os homens mais ricos do nosso município tinham seus próprios aviões particulares e se você tivesse o seu próprio avião, você realmente era alguém."

Os dois homens mais admirados por Perry - seu pai e Gene Overton, chefe no grupo de escoteiros - haviam servido na Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945). Overton, um formando da A & M de 1931, muitas vezes levava a sua tropa de escoteiros para College Station para fins de semana de futebol. "Era tudo muito masculino e muito militar", disse o filho de Overton, Wallar. "Rick se apaixonou pelo corpo militar."

Perry chegou aos 18 anos esperando tornar-se um veterinário. Ele tinha notas ruins (a transcrição de sua grade escolar que tem circulado pela internet está repleta de notas C e D, com apenas um A em Sistemas Militares Globais) e adquiriu uma reputação como um brincalhão - certa vez, ele colocou galinhas vivas no armário de um colega e as deixou lá durante as férias de Natal.

Mas também sofreu um regime exigente. Os cadetes acordavam antes do amanhecer com um apito, depois eles marchavam em formação para o desjejum. Calouros eram chamados de "peixes" e deveriam obedecer os veteranos.

Os uniformes deveriam ser mantidos "limpos e asseados", de acordo com o manual do aluno, com "sapatos engraxados." Uma infração por um cadete significava a punição para a classe.

O primeiro ano foi muito difícil, disse Tony Best, um colega de Perry, "eu vi caras se jogarem no chão, chorando."

Registros do Serviço de Seleção mostram que o número de loteria de Perry era relativamente alto, 275, o que significava que a sua chance de ser convocado era baixa. Entrar para o Corpo de Cadetes não exige um compromisso com o serviço militar, mas quando junior, Perry optou pelo serviço.

"Era da época e nós fomos pegos naquilo - era serviço, serviço à nação, o país estava em guerra", disse um colega que também se juntou, Joe Weber, um general Marinha aposentado que agora é vice-presidente para assuntos estudantis na A & M.

Em seu discurso na Universidade Liberty, Perry ofereceu outra explicação: "Quatro semestres de química orgânica", disse, "fizeram de mim um piloto".

Ele se formou em 1972, terminou o treinamento de pilotos em fevereiro de 1974 e foi enviado para o 772º Esquadrão de Transporte Aéreo Tático em Dyess, cujas funções incluíam dois meses de rotações no exterior em uma estação da Força Aérea Real em Mildenhall, Inglaterra, e na Base Aérea Rhein-Main, perto de Frankfurt , na Alemanha.

Suas missões incluíram um esforço de alívio à seca, em 1974, patrocinado pelo Departamento de Estado em Mali, Mauritânia e Chade, e dois anos depois a ajuda a vítimas do terremoto, na Guatemala.

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Rick Perry abaixa a cabeça durante uma oração em uma escola de Tiffin, Iowa, visitada por ele durante a campanha (8/10)
"Pela primeira vez na minha vida eu conheci pessoas oprimidas que não menosprezavam a liberdade concedida a elas simplesmente porque não tinham onde morar," Perry disse aos estudantes da Liberty. "Eu vi governantes tratarem as pessoas como vassalos."

O esquadrão se dividia entre solteiros e casados; Perry, solteiro, mas que já namorava sua futura esposa, era uma força motriz por trás das atividades sociais. "A maioria dos caras se divertia", disse Dale Scoggins, um ex-colega piloto, "e Rick se divertia".

Scoggins e outros que voaram ao lado de Perry não lembram dele como um destaque ou um problema. Seus comandantes de esquadrão, Richard L.W. Henry e Bruce Mosley, agora ambos coronéis aposentados, disseram não ter conhecimento de qualquer ação disciplinar contra Perry. Um ex-piloto e amigo, Ronny Munson, recorda dele como uma constante.

"Ele nunca perdeu a cabeça ou se assustou", disse Munson. Em agosto de 1976, Perry foi promovido de co-piloto a comandante da aeronave, a cargo de uma equipe de cinco membros. Na sua avaliação de desempenho, seu instrutor sugeriu que ele frequentasse a escola para oficiais de esquadrão. Mas seu comandante na época, Mosley, disse que Perry tinha pouco interesse em uma carreira militar.

A Força Aérea, diante de uma escassez de pilotos após a guerra, ofereceu algumas licenças precoces. Perry aceitou. Ele estava, como escreveu em seu livro, "ansioso por novas oportunidades em casa." Em fevereiro de 1977, ele se aposentou como capitão e voltou para Paint Creek.

Ele tinha quase 27 anos e não mudou muito por seus anos de distância. Ele parecia mais maduro, segundo os amigos de sua cidade natal, e mais capaz de apreciar os EUA. Mas em seu coração, segundo seu velho amigo Mickler, ele ainda era "apenas um bom e velho menino do Texas."

Por Sheryl Gay Stolberg

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