Seriado israelense mostra relação entre premiê e seus filhos

Criado pela neta de Yitzhak Rabin, premiê assassinado, Os Filhos do Premiê busca mostrar o lado familiar da vida do chefe de Estado

The New York Times |

Noa Rothman é estranhamente parecida com seu avô Yitzhak Rabin. A semelhança é tanta que quando Rami Heuberger realizava os testes para o papel do premiê na série de televisão de Rothman, chamada Os Filhos do Premiê, ele tinha muita dificuldade de olhar para ela.

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Cena do seriado Os Filhos do Premiê

"Em novembro de 1995 eu senti como se meu próprio pai tivesse sido assassinado", disse Heuberger, se referindo ao assassinato de Rabin, então premiê de Israel, nas mãos de um extremista de direita. "Quando eu conheci Noa nas audições, eu não conseguia olhar para o seu rosto porque eu tinha vontade de chorar. Mesmo hoje em dia, quase dois anos depois, ainda é difícil para mim."

Quando Rothman, hoje com 34 anos, era criança, sua mãe ficava muito doente. Por isso, várias noites dos seus primeiros anos de vida foram passados na casa de seus avós maternos, os Rabins, juntamente com seu irmão mais velho, Yonatan.

"Eu era muito jovem quando notei pela primeira vez, anos antes do assassinato, que eu era muito sortuda de ter nascido na minha família", disse em um café a poucos quarteirões da casa que divide com seu marido, Eldad, seus dois filhos, Omer, 3, e Alona que tem 7 meses de idade. "Com esse tipo de relação, perder alguém assim como eu perdi foi ainda mais difícil."

'Os Filhos do Premiê' é a primeira tentativa de Rothman de criar para a televisão. Até cinco anos atrás, era advogada na procuradoria de Tel Aviv, tentando, como ela mesma disse, "ser normal". Se misturar sem chamar a atenção era difícil, não só por causa de seu histórico familiar, mas também porque ela havia se tornado um símbolo nacional em Israel quando, aos 18 anos, fez um discurso repleto de lágrimas no funeral de seu avô, um momento tão comovente que a levou a assinar um contrato para escrever um livro e, um ano depois, a publicação de um livro de memórias, 'Em Nome da Dor e da Esperança', sobre o vínculo que ela tinha com Rabin.

Sua série de TV gira em torno de um ministro israelense fictício chamado Shaul Agmon, interpretado por Heuberger, e fala também dos detalhes particulares da vida de sua esposa, de seus dois filhos e de seus funcionários. Rothman desenvolveu o conceito com Shahar Magen, com quem compartilha a co-autoria do programa.

A série está prestes a começar a filmagem de sua segunda temporada depois de ter conseguido um bom índice de aprovação no ano passado no canal a cabo israelense HOT e algumas críticas mistas. O Walla!, um site de notícias e cultura de Israel, achou a série interessante porém problemática, dizendo que "ao expor os mecanismos que mantém o ministério funcionando, o espetáculo proporciona uma sensação de realidade, como se existisse uma câmera escondida que está vigiando os personagens constantemente, e a análise dos funcionários e dos membros de sua famílias contribui ainda mais para essa sensação de angustia".

Sobre o programa, Rothman afirmou que "o seriado não é sobre a família Rabin e não é sobre minha vida, mas ele tem muito a ver com uma bagagem que eu adquiri através das experiências pelas quais passei".

Shaul Agmon é, de muitas maneiras, o contrário de Rabin: de direita, sem muita vontade de lutar e obcecado por sua própria sobrevivência. Mas são as brigas na família que dão ao seriado sua química interessante e a maioria das cenas ocorrem dentro da casa do premiê, em Jerusalém - uma mansão imensa localizada na cidade costeira de Herzliya, com algumas tomadas externas filmadas em Jerusalém.

Magen abordou Rothman com a ideia para faze uma série dramática sobre a vida privada de uma das famílias mais públicas de Israel. Antes de concordar ela queria ter certeza de que ele entendesse que ser filho de um premiê é como um cargo que contém certas responsabilidades que ela não poderia negar. Então ela o levou para visitar três pessoas: sua mãe (Dalia Rabin-Pelossof), Omri Sharon (o filho do ex-premiê Ariel Sharon) e Yael Dayan (filha do líder militar Moshe Dayan).

"Essas três pessoas pagaram um preço pessoal muito alto pelo sucesso de seus pais", disse Rothman. "A coisa mais interessante sobre ser a filha ou o filho de um premiê é o preço que você paga, querendo ou não. Em uma família normal, em sua adolescência, sua missão é simplesmente ser rebelde, já nesta realidade, nessa fase crucial, seu único papel é o de defender seu pai. Na política, você é um soldado em um campo político e, acima de tudo, você tem que ser leal.”

Tendo isso em mente, Magen e Rothman começaram a criar as personagens Libi (interpretada por Alona Tal, que pode ser vista em séries como Supernatural e The Killing), a filha que vive em constante busca pela aprovação do pai, e Golan (Lee Biran), o filho que quer se rebelar mas é incapaz de se afastar da família. A primeira-dama, Yehudit (Michaela Eshet), tem uma relação de conflito semelhante com o seu marido.

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Noa Rothman, neta de Yitzhak Rabin, ex-premiê de Israel, em sua casa em Tel Aviv

A segunda temporada de Filhos do Premiê foi solicitada enquanto a primeira ainda estava em processo de pós-produção e poderá ser vista na televisão no início do verão. Os novos episódios, disse Rothman, têm uma ênfase mais política.

"A segunda temporada é mais corajosa, pois agora a situação é um pouco diferente", disse, referindo-se aos protestos sociais que aconteceram em Israel. "Na primeira temporada tínhamos uma história política que podia ser sentida pelo telespectador, porém não era explicitamente presenciada.”

Nessa temporada, segundo ela, a política começa a aparecer mais, e em um episódio particularmente provocativo Shaul Agmon faz uma negociação política faustiana que leva à liberação de Yigal Amir, o verdadeiro assassino de Rabin na vida real.

"Noa conhece as camadas de agir com uma máscara, de maneira neutra. Ela sabe o que é voltar para casa e ver o lado feio, ou não tão fotogênico, da família de um premiê", disse Gila Almagor, uma veterana da televisão de Israel que interpreta a estridente mãe do premiê, Rachel. "É autêntico. E Noa, como membro de uma família assim sempre tem um ponto de vista mais autêntico."

Embora Rothman admita que buscou levar autenticidade para o seriado, ela insistiu que tudo no programa é ficção.

"Eu não sou ingênua", disse. "Eu não tenho mais 18 anos. Eu sabia que as pessoas esperavam que eu fizesse o seriado como se fosse minha biografia, mas não é.”

“Qualquer escritor faz isso, colocamos elementos de nossas vidas nas histórias para torná-las mais interessantes, nada mais. "

Por Debra Kami n

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