Sem arrependimentos, austríaco retoma jihad online após prisão

Mahmoud representa nova geração de extremistas que quer assumir papel de propagandista da Al-Qaeda após morte de Anwar al-Awlaki

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Mohamed Mahmoud passou quatro anos na prisão por apoiar à Al-Qaeda e afiliados
Mohamed Mahmoud, um austríaco de 26 anos de idade, veste uma túnica branca tradicional e um chapéu castanho-claro e mantém seus cabelos longos, como é tradição nas áreas tribais pashtun do Paquistão e do Afeganistão. Apenas seu colete de estampa de camuflagem e tênis azul-escuro o colocam no mundo moderno na Europa, ao qual ele voltou no dia 12 de setembro depois de cumprir uma pena de prisão de quatro anos por se juntar e apoiar ativamente a Al-Qaeda e seus afiliados.

É um mundo que, segundo ele, poderia deixar facilmente. "Quero passar a mensagem de que estou pronto para morrer por minha religião a qualquer momento", disse ele em entrevista no mês passado, a primeira desde a sua libertação. "Não tenho nada a perder na vida. Hoje eu sei que as manifestações e protestos não ajudam, e hoje eu sei que o ocidente está mentindo sobre sua liberdade de expressão e direitos humanos."

De acordo com entrevistas feitas a oficiais de inteligência árabes, americanos e europeus, bem como arquivos de investigação, Mahmoud combina um dom de inspirar seguidores e uma capacidade de tirar proveito do poder da internet e conexões virtuais com a liderança da Al-Qaeda, muitas feitas em prisões ou em campos de treinamento.

Em suma, dizem as autoridades, Mahmoud representa uma onda de jovens herdeiros que querem assumir o papel de propagandistas da Al-Qaeda de Anwar al-Awlaki , o clérigo nascido nos Estados Unidos que virou líder militante e foi morto em um ataque americano no Iêmen em setembro.

"A agressiva volta de Mahmoud à esfera da mídia jihadista tem atraído atenção significativa entre os adeptos jihadistas de língua alemã", disse Jarret Brachman, autor de Jihadismo Global: Teoria e Prática e consultor do governo dos Estados Unidos contra o terrorismo. "Eles parecem ter sido atingidos por suas palavras e estão respondendo à credibilidade que ele ganhou em seu tempo na prisão."

Mas Brachman, juntamente com outras autoridades dos Estados Unidos, advertiram contra exagerar a influência de Mahmoud. "O panorama jihadista em língua alemã é imenso e colorido", disse Brachman. "Ele terá que continuar crescendo – tanto em termos de extremismo de seu conteúdo quanto na criatividade com a qual ele utiliza os meios de comunicação – se quiser chegar a líder”.

Fora da prisão, Mahmoud agora se prepara para se estabelecer em Berlim e deu início a um novo grupo, chamado Millatu-Ibrahim, cujos objetivos, segundo ele, seriam de "pregar a palavra de Alá, lutar por um tratamento melhor e a libertação de prisioneiras islâmicas”. Ele já garantiu partidários proeminentes como Abou Maleeq, o ex-rapper Deso Dogg .

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Oficiais de inteligência e contraterrismo árabes, europeus e americanos dizem que Mahmoud é uma figura conhecida na cena jihadista internacional. Ele tinha conexões com Atiyah Abd al-Rahman, que após a morte de Osama bin Laden foi brevemente o oficial de segundo escalão da Al-Qaeda até ser morto em agosto .

Durante anos, Mahmoud foi um dos líderes da Frente Islâmica de Mídia Global, que traduzia vídeos e mensagens da Al-Qaeda e grupos afiliados para o alemão. "Eu fiz isso para apoiar os mujahedin", disse. "Nós éramos como uma organização de mídia, nós só queríamos dar às pessoas a oportunidade de ouvir as palavras dos mujahedin."

Sua importância para as redes jihadistas se tornou clara em abril de 2008, quando a filial da Al-Qaeda no Norte da África pediu a sua libertação da prisão, em troca de dois reféns austríacos.

Oficiais de inteligência dizem que Mahmoud também tem laços com militantes que sequestram ocidentais, incluindo o jornalista britânico Alan Johnston, que foi mantido cativo em Gaza por quatro meses. Ele também foi acusado de ter desempenhado um papel fundamental no sequestro de uma mulher alemã e seu filho no Iraque. Ela foi liberada, mas o destino de seu filho é desconhecido.

O advogado de Mahmoud, Lennart Binder, disse que seu cliente esteve em contato com os sequestradores em ambos os casos, porque queria ter um papel importante nas negociações para libertação dos reféns.

Enquanto oficiais de inteligência dizem que é provável que Mahmoud tenha se tornado mais radical na prisão, ele havia demonstrado interesse no mundo da jihad desde sua adolescência, de acordo com amigos.

Isso levou a confrontos com o pai, que não é estranho à militância, segundo oficiais de segurança que dizem que ele participou ativamente no grupo egípcio Gamaa al-Islamiya. Em última análise, o pai denunciou publicamente as opiniões de seu filho.

"Eu respeito os meus pais, mas está claro que fazemos parte de duas gerações diferentes", disse Mahmoud. "Sua geração tem mais medo e está acostumada apenas a falar de um Estado islâmico, mas a minha geração não quer falar, quer fazer."

Mahmoud disse que as guerras nos Bálcãs e na Chechênia desempenharm um papel importante na formação de suas crenças. "Eu costumava assistir os vídeos de lá, como os mujahedin matavam os sérvios e soldados russos que havia estuprado e matado as minhas irmãs e irmãos muçulmanos", disse.

Em outubro de 2002, quando tinha 17 anos, Mahmoud disse adeus aos seus pais ao sair para a escola um dia. Ele ficou longe por oito meses, seguindo para o sul através da Itália até o Iraque, dizem investigadores, onde foi treinado em um campo de Ansar al-Islam, um grupo que foi responsável por muitos ataques suicidas. “Fui preso dois meses antes da guerra no Iraque começar", disse.

Serviços de inteligência americanos e árabes já tinham Mahmoud em seu radar porque ele tinha estudado com Hassan Mustafa Osama Nasr, um imã localizado em Milão e mais conhecido como Abu Omar.

De volta à Áustria em 2006, Mahmoud se tornou chefe do grupo de mídia, trabalhando com outras pessoas, incluindo sua ex-mulher, para traduzir vídeos e textos do árabe para o alemão.

Em 2007, as autoridades disseram que ficaram alarmadas quando Mahmoud começou a comprar ingredientes para um possível colete explosivo suicida e seu grupo de mídia publicou um vídeo ameaçando realizar ataques na Alemanha e Áustria caso os países não retirassem suas tropas do Afeganistão.

Em 12 de setembro de 2007, Mahmoud e sua mulher foram presos. Ele negou que tivesse alguma coisa a ver com a produção do vídeo ou que tivesse algum plano para um ataque suicida.

Autoridades de inteligência ocidentais e árabes dizem que o caso de Mahmoud ilustra, mais uma vez, como partidários das ideias jihadistas se tornam mais radicalizados nas prisões.

"Eles podem ter um tratamento bom ou ruim na prisão", disse Thomas M. Sanderson, diretor adjunto do programa de ameaças transnacionais do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. "Mas no final eles têm tempo para refletir e se tornar ainda mais fortes."

Por Souad Mekhennet

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