Seleção de futebol ajuda a unir a população do Líbano

Técnico alemão vira herói ao fortalecer time nacional, que refletia divisões que levou país à guerra civil entre 1975 e 1990

The New York Times |

Theo Buecker, 60 anos, estava sentado em uma luxuosa suíte com vista para a Praça dos Mártires, em Beirute, no Líbano, ouvindo uma música que foi escrita em homenagem ao recente heroísmo de sua equipe.

O alemão técnico da seleção de futebol do Líbano acenou educadamente, mas um pouco sem jeito, conforme a cantora explicava por que sentiu a necessidade de levar um MacBook ao seu quarto para mostrar uma canção que havia escrito sobre um esporte que mal conhecia até recentemente.

"Sonhei com ela numa noite e de repente lembrei de todos os nomes dos jogadores", disse ela, enquanto sua música tomava a sala. "Me senti inspirada depois da última vitória."

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NYT
Integrantes da seleção de futebol do Líbano treinam em Beirute (20/02)

A última vitória foi aquela em que o Líbano ganhou por 2 a 1 da Coreia do Sul em novembro, durante o classificatório para a Copa do Mundo de 2014 . Apesar de ser a menor equipe a ser classificada da Ásia e de enfrentar as tensões sectárias que acabaram com o esporte no país, o Líbano só precisava de um empate para chegar pela primeira vez à rodada final das classificatórias para a Copa do Mundo. Acabou com uma derrota, mas mesmo assim avançou.

O recente sucesso da equipe também incentivou o dividido país a se unir. "O futebol do Líbano praticamente não existia antes da minha chegada", disse Buecker, que já treinou aseleção do país entre 2000 e 2003.

A liga de futebol local espelhava a violência sectária que levou o Líbano à guerra civil entre 1975 e 1990. Cada time de futebol tem uma identidade religiosa distinta influenciada por políticos que ajudam a financiá-los. Times como o Ansar e o Nejmeh foram apoiados pela família Hariri, que é sunita, e incentivados pelo primeiro-ministro Rafik Hariri, que foi assassinado , e depois por seu filho Saad; o Safa tem o apoio dos drusos; o Racing Beirut é alinhado com os cristãos ortodoxos e Al Ahed tem fortes ligações com o Hezbollah.

O patrocinador que aparece na camisa de Al Ahed é a Al Manar, a rede de televisão do Hezbollah, que é considerada uma entidade terrorista pelos Estados Unidos.

Todo fim de semana, as partidas de futebol do país se pareciam mais com uma miniguerra civil do que com um esporte. A violência ficou tão grave que em 2007 a Associação de Futebol do Líbano, sob pressão do governo, proibiu todos espectadores nas partidas. Os estádios ficaram em silêncio durante cinco longos anos. Buecker, que experimentou em primeira mão o silêncio ao chegar no estádio do Al Ahed, sabia que o sectarismo que afeta o futebol local precisava ser removido da equipe nacional.

"Precisamos selecionar os jogadores com base no desempenho e não por suas afiliações religiosas", disse. "Não me importo se alguém é cristão ou muçulmano. Para mim apenas existem bons e maus jogadores. Quero saber sobre seu desempenho e só."

Buecker conseguiu exatamente isso. Após uma série de resultados desastrosos - incluindo uma perda humilhante por 6 a 0 para a Coreia do Sul – o Líbano conseguiu obter sete pontos em três partidas. Ninguém, nem mesmo Buecker, poderia ter previsto o que aconteceu depois, quando a Coreia do Sul chegou em Beirute em novembro.

A vitória sobre os semifinalistas da Copa do Mundo de 2002 aconteceu diante de cerca de 60 mil torcedores no Estádio Camille Chamoun depois que o governo decidiu que os fãs poderiam retornar aos estádios. Buecker hoje se tornou uma espécie de herói nacional.

"Os libaneses estão cansados de todos os problemas do passado", disse. "Eles estão felizes que o futebol está lhes dando uma oportunidade de se unir. Agora eles têm um bom motivo para voltar ao estádio."

"Acredito que está sendo algo muito bom para a nação. Existe um grande amor pelo futebol no país. Mas antes eles não tinham um lugar para dedicar o seu amor. Agora eles têm, agora eles podem apoiar a sua própria seleção".

No domingo, no Estádio Olímpico da cidade de Trípoli, a fragilidade da recuperação do futebol do Líbano podia ser notada. Era a última rodada de jogos do campeonato antes da partida classificatória do Líbano contra os Emirados Árabes. Apenas 108 fãs apareceram para ver o Tripoli Sporting Club jogar contra o Al Ahed, que tem seis jogadores na equipe nacional. O estádio costumava ser a pérola do futebol libanês, mas caiu em desuso depois que o Exército tomou conta do local para usá-lo como base contra os rebeldes refugiados em acampamentos no norte do país.

Soldados com metralhadoras patrulhavam a pista de atletismo que circundava o campo, que possui um gramado muito danificado devido ao pouso dos helicópteros. Dois homens com copos de plástico tentavam tirar o máximo de água lamacenta da área do gol antes que as equipes saíssem para o campo.

Khodr Arja, 16, um fã de Trípoli, disse que não conseguia lembrar da última vez em que os fãs tinham sido autorizados a entrar no estádio. "Está reformado e estamos contentes de vê-lo novamente", disse ele a partir da arquibancada praticamente vazia enquanto os jogadores corriam pela lama. "A federação não está ajudando a atrair o público para o estádio."

"Deveria ser de graça. Olhe para dentro de campo. Parece uma fazenda largada com o pior gramado do mundo. Tudo nele é ruim."

Mas alguns notaram um progresso. "Não vemos muitos fãs comparecendo aos jogos, mas poucos são melhor do que nada", disse Ali Hijazy, um jornalista de futebol da rede de televisão Al Jadeed. "É quase uma revolução para o futebol libanês.

"O futebol era um esporte muito sofrido no Líbano. A política é um grande motivo pelo qual o futebol libanês era ruim. A política ainda está presente na sociedade libanesa, mas Theo Buecker está trabalhando com a equipe nacional sem nenhuma influência da política ou de entidades religiosas. A equipe nacional libanesa está fazendo o que nenhum político conseguiu fazer até agora."

Na segunda-feira, Buecker reuniu sua equipe no Estádio Safa no centro de Beirute para uma última sessão de treinamento antes de se dirigir para o Golfo. A equipe deveria jogar no Catar, mas a partida foi cancelada, fazendo com que a associação de futebol tenha que escolher um novo adversário. Mas Buecker tinha outras preocupações em sua mente. Ele pediu aos seus jogadores que enxerguem além do sectarismo que tem prejudicado o país.

"Vocês são um exemplo para o Líbano e para o futebol libanês", ele gritou. "Pensem o seguinte: se vocês não conseguirem respeitar uns aos outros, como é que outras pessoas no país irão respeitá-los?"

Por James Montague

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